segunda-feira, 24 de junho de 2019

LULA ESCREVE A CELSO AMORIM



Querido amigo,
A cada dia fico mais preocupado com o que está acontecendo em nosso Brasil. As notícias que recebo são de desemprego, crise nas escolas e hospitais, a redução e até mesmo no fim dos programas que ajudam o povo, a volta da fome. Sei que estão entregando as riquezas do país aos estrangeiros, destruindo ou privatizando o que nossa gente construiu com tanto sacrifício. Traindo a soberania nacional.
É difícil manter a esperança numa situação como essa, mas o brasileiro não desiste nunca, não é verdade? Não perco a fé no nosso povo, o que me ajuda a não fraquejar na prisão injusta em que estou faz mais de um ano. Você deve se lembrar que no dia 7 de abril de 2018, ao me despedir dos companheiros em São Bernardo, falei que estava cumprindo a decisão do juiz, mas certo de que minha inocência ainda seria reconhecida. E que seria anulada a farsa montada para me prender sem ter cometido crime. Continuo acreditando.
Todos os dias acordo pensando que estou mais perto da libertação, porque o meu caso não tem mistério. É só ler as provas que os advogados reuniram: que o tal tríplex nunca foi meu, nem de fato nem de direito, e que nem na construção nem a reforma entrou dinheiro de contratos com a Petrobrás. São fatos que o próprio Sergio Moro reconheceu quando teve de responder o recurso da defesa.
É só analisar o processo com imparcialidade para ver que o Moro estava decidido a me condenar antes mesmo de receber a denúncia dos procuradores. Ele mandou invadir minha casa e me levar à força pra depor sem nunca ter me intimado. Mandou grampear meus telefonemas, da minha mulher, meus filhos e até dos meus advogados, o que é gravíssimo numa democracia. Dirigia os interrogatórios, como se fosse o meu acusador, e não deixava a defesa fazer perguntas. Era um juiz que tinha lado, o lado da acusação.
A denúncia contra mim era tão falsa e inconsistente que, para me condenar, o Moro mudou as acusações feitas pelos promotores. Me acusaram de ter recebido um imóvel em troca de favor mas, como viram que não era meu, ele me condenou dizendo que foi “atribuído” a mim. Me acusaram de ter feito atos para beneficiar uma empresa. Mas nunca houve ato nenhum e aí ele me condenou por “atos indeterminados”. Isso não existe na lei nem no direito, só na cabeça de quem queria condenar de qualquer jeito.
A parcialidade dele se confirmou até pelo que fez depois de me condenar e prender. Em julho do ano passado, quando um desembargador do TRF-4 mandou me soltar, o Moro interrompeu as férias para acionar outro desembargador, amigo dele, que anulou a decisão. Em setembro, ele fez de tudo para proibir que eu desse uma entrevista. Pensei que fosse pura mesquinharia, mas entendi a razão quando ele divulgou, na véspera da eleição, um depoimento do Palocci que de tão falso nem serviu para o processo. O que o Moro queria era prejudicar nosso candidato e ajudar o dele.
Se alguém ainda tinha dúvida sobre de que lado o juiz sempre esteve e qual era o motivo de me perseguir, a dúvida acabou quando ele aceitou ser ministro da Justiça do Bolsonaro. E toda a verdade ficou clara: fui acusado, julgado e condenado sem provas para não disputar as eleições. Essa era única forma do candidato dele vencer.
A Constituição e a lei determinam que um processo é nulo se o juiz não for imparcial e independente. Se o juiz tem interesse pessoal ou político num caso, se tem amizade ou inimizade com a pessoa a set julgada, ele tem de se declarar suspeito e impedido. É o que fazem os magistrados honestos, de caráter. Mas o Moro, não. Ele sempre recusou se declarar impedido no meu caso, apesar de todas as evidências de que era meu inimigo político.
Meus advogados recorreram ao Supremo Tribunal Federal, para que eu tenha finalmente um processo e um julgamento justos, o que nunca tive nas mãos de Sergio Moro. Muita gente poderosa, no Brasil e até de outros países, quer impedir essa decisão, ou continuar adiando, o que dá no mesmo para quem está preso injustamente.
Alguns dizem que ao anular meu processo estarão anulando todas as decisões da Lava Jato, o que é uma grande mentira pois na Justiça cada caso é um caso. Também tentam confundir, dizendo que meu caso só poderia ser julgado depois de uma investigação sobre as mensagens entre Moro e os procuradores que estão sendo reveladas nos últimos dias. Acontece que nós entramos com a ação em novembro do ano passado, muito antes dos jornalistas do Intercept divulgarem essas notícias. Já apresentamos provas suficientes de que o juiz é suspeito e não foi imparcial.
Tudo que espero, caro amigo, é que a justiça finalmente seja feita. Tudo o que quero é ter direito a um julgamento justo, por um juiz imparcial, para que poder demonstrar com fatos que sou inocente de tudo o que me acusaram. Quero ser julgado dentro do processo legal, com base em provas, e não em convicções. Quero ser julgado pelas leis do meu país, e não pelas manchetes dos jornais.
A pergunta que faço todos os dias aqui onde estou é uma só: por que tanto medo da verdade? A resposta não interessa apenas a mim, mas a todos que esperam por Justiça.
Quero me despedir dizendo até breve, meu amigo. Até o dia da verdade libertadora. Um grande abraço do
Lula
Curitiba, 24 de junho de 2019

sábado, 22 de junho de 2019

Os ‘virtuosos’ não podem ‘corrigir’ a Constituição


Os ‘virtuosos’ não podem ‘corrigir’ a Constituição, diz jurista
Por Fernando Brito
22/06/2019



Geraldo Prado não é “apenas” professor de Direito Processual Penal na Universidade do Rio de Janeiro. Foi Promotor de Justiça e desembargador. Sabe bem do que está falando, em teoria e prática. O artigo que publica hoje no Estadão, com a simplicidade de um “precisa desenhar?”, desmancha completamente as teses pomposas dos que, no Judiciário, acham que podem “corrigir” a Constituição segundo suas “causas morais” e o cinismo dos que vêem como “normalidade”  relações promíscuas entre promotores e juízes.
Vale a pena a leitura, é simples e irrespondível.

O STF na encruzilhada

Geraldo Prado, no Estadão
As pessoas leigas em Direito muitas vezes somente percebem a importância do respeito escrupuloso às regras jurídicas quando vivenciam alguma experiência elas próprias.
O sentimento mais particular da relevância do cumprimento das leis não é suficiente para a construção de uma sociedade mais digna, fraterna e ética.
O salto para o plano do coletivo é fundamental porque é o passo à frente na criação e manutenção de uma tradição genuinamente democrática.
Cobrar a aplicação do Direito em relação ao desconhecido ou mesmo ao adversário como deveria ser aplicado a si mesmo é um dos fatores que caracterizam uma cultura democrática.
A exigência moral de que a lei se aplique a todos que estejam na mesma situação, de que as normas jurídicas devem ser escrupulosamente respeitadas, de que as competências para elaborar as leis, decidir sobre sua correta aplicação aos casos e governar a sociedade sejam igualmente tratadas como espaços políticos autônomos que devem conviver harmoniosamente, são condições básicas de que não devemos e podemos abrir mão.
O que a história nos ensina, dolorosamente, é que sempre que esta ética é desprezada, as leis ignoradas e a vontade dos poderosos é imposta como régua moral para corrigir a corrupção alheia, as sociedades entram no terreno do vale-tudo no qual prevalece a lei do mais forte.
E a história também ensina que não importa o quão poderosa seja a pessoa no momento em que maneja a interpretação das leis contra o texto legal, com fundamento em aparentes boas razões e também não interessa a que título exerce o poder, se deriva da riqueza ou da ocupação de um cargo público: o exercício do poder é algo transitório e amanhã será o poderoso de ontem a reclamar em sua defesa o direito que ele próprio pisoteou e ajudou a destruir.
No próximo dia 11 de agosto, o Mundo comemora os cem anos da Constituição alemã de Weimar. Para quem não sabe convém explicar que a Constituição de Weimar, promulgada após a derrota alemã na I Guerra Mundial, pretendia ser uma barreira contra os autoritarismos e uma alavanca capaz de impulsionar a proteção de direitos individuais e sociais (dos trabalhadores, previdenciários etc.).
O generoso projeto constitucional, no entanto, não foi capaz de impedir a ascensão do nazismo. Mesmo antes de 1933, quando Hitler chega ao poder, várias personagens importantes da vida alemã, não necessariamente autoritárias, já clamavam por aplicar a Constituição contra seu texto expresso, na defesa de virtudes cidadãs e patrióticas e no presumido interesse geral sobre o individual, usando como argumento a prevalência do fático sobre as regras jurídicas: a vida muda, o mundo se transforma e a velocidade dessa dinâmica social não é acompanhada pelas alterações da Constituição que obedecem a rituais lentos e exigências formais rigorosas, é o que dizem.
A este movimento de mudar a Constituição sem alterar seu texto e mesmo aplicá-la contra o que a própria Constituição determina deu-se o nome de “Mutação Constitucional”.
Pessoas poderosas convictas de suas virtudes corrigiam por conta própria os erros da Constituição. A mutação constitucional idealizada na Alemanha em 1906, em outras circunstâncias, pelo jurista Jellinek, para proteger direitos, converteu-se nas mãos dos virtuosos da década de 30 no instrumento que levou o mundo à beira do abismo.
Parece que não aprendemos a lição.
Ao menos não aqui no Brasil.
Em seu voto contra a aplicação literal e incontroversa da presunção de inocência conforme está definida na Constituição – ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória – o ministro Luís Roberto Barroso invocou a “Mutação Constitucional” para justificar sua posição de não aguardar o trânsito em julgado de uma sentença condenatória para considerar alguém culpado.
O trânsito em julgado, dizem os que não apreciam a presunção de inocência, é algo demorado nos processos criminais, em especial quando se trata de processos criminais contra acusados ricos e poderosos.
Aguardar por ele, como preconiza o texto constitucional, é não estar atento aos novos tempos, que reclamam seja a opinião pública satisfeita em seu desejo de ver punidos os poderosos.
É necessário, portanto, deixar de aplicar a Constituição – em outras palavras, atuar na prática em sentido contrário ao texto da Constituição – para nos ajustarmos aos novos tempos.
A porta que se escancara quando o STF se transforma de guardião da Constituição em órgão que a corrige, por entender que a Constituição está errada, termina por permitir que passe todo tipo de gente que se entende virtuosa e, estando temporariamente no exercício do poder, resolva corrigir os rumos da história por suas próprias mãos.
É o que hoje a totalidade dos brasileiros constata ao ver desnudados pelas reportagens do The Intercept Brasil os métodos ilegais no âmbito da Lava Jato, métodos praticados por Sérgio Moro e alguns procuradores da República, que tímida, contraditória e prudentemente os reconhecem.
Não é verdadeira a alegação de que a tradição autoriza relações juridicamente promíscuas entre juiz e acusador. A regras legais não autorizam, antes proíbem, juízes de interferir na preparação da futura acusação, sugerir estratégias à acusação contra o réu, pasmem no curso do processo (!) e eleger critérios políticos para igualmente sugerir ao acusador quem, quando e em que medida este deve ou pode acusar alguém, quer esta pessoa mereça ou não ser melindrada.
Atitudes dessa ordem, flagrantemente ilegais, que violam a regra canônica da imparcialidade do julgador, da integridade do processo, da independência do Ministério Público e da impessoalidade na atuação dos seus membros, levam à nulidade de condenações que hajam sido proferidas.
Em 2004 o STF declarou inconstitucional a atuação de juiz em preparação da acusação por violar a imparcialidade do julgador (ADI 1.570 rel. Maurício Correa).
Narrativas estrategicamente definidas de antemão por acusadores e juízes podem ser mascaradas no processo por meio de um relato que aparentemente faça sentido. Como dizem os portugueses, “com a verdade me enganas”.
Estes comportamentos, no entanto, somente foram e são possíveis por que incentivados em um ambiente de “Mutação Constitucional” que no lugar de ampliar a proteção de direitos, como pretendia Jellinek, os suprime, como ocorreu na Alemanha de 1930.
O potencial autoritário de se transferir aos virtuosos a decisão de aplicar ou não as leis e a Constituição é imenso e a grande prejudicada, ao fim e ao cabo, é a sociedade.
Como disse no início. Poder não é algo que alguém tenha. As pessoas exercem o poder temporariamente, não se tornam donas dele para sempre. Daí a ironia de ver na audiência do Senado o ministro da Justiça que tanto defendeu o aproveitamento – e ao que tudo indica cogitou – de provas ilícitas manifestar-se agora enfaticamente contra elas. A próxima etapa será vê-lo defendendo a presunção de inocência. Convém anotar.
A Constituição não deve valer apenas enquanto é útil para nos defender. Ela deve valer o tempo todo, em relação a todas as pessoas.
Caberá ao STF assegurar isso. Se são verdadeiros os boatos de que há militares contrários à aplicação da Constituição, algo em que não acredito, apenas resta dizer que… já passamos dessa fase.

Disponível em  http://www.tijolaco.net/blog/os-virtuosos-nao-podem-corrigir-a-constituicao-diz-jurista/http://www.tijolaco.net/blog/os-virtuosos-nao-podem-corrigir-a-constituicao-diz-jurista/ 

quinta-feira, 30 de maio de 2019

CARTA DO PAPA FRANCISCO AO EX-PRESIDENTE LULA


Estimado Luiz Inácio,
Recebi sua atenciosa carta do passado 29 de março, com a qual, além de agradecer a minha contribuição para defesa dos direitos dos mais pobres e desfavorecidos dessa nobre nação, me confidenciava seu estado e ânimo e comunicava sua avaliação sobre o contexto sócio-político brasileiro, o que me será de grande utilidade.
Como assinalei na mensagem para o 52 Dia Mundial da Paz, celebrado no passado 1 de janeiro, a responsabilidade política constitui um desafio para todos aqueles que recebem o mandato de servir ao seu País, de proteger as pessoas que habitam nele e de trabalhar para criar as condições de um futuro digno e justo. Tal como meus antecessores, estou convencido de que a política pode tornar-se uma forma eminente de caridade, se for implementada no respeito fundamental pela vida, liberdade e dignidade das pessoas.
Nesses dias, estamos celebrando a ressurreição do senhor. O triunfo de Jesus Cristo sobre a morte é a esperança da humanidade. A sua Páscoa, sua passagem da morte à vida, é também a nossa Páscoa. Graças a ele, podemos passar da escuridão para luz, das escravidões desse mundo para liberdade da terra prometida. Do pecado que nos separa de Deus e dos irmãos para a amizade que nos une a ele. Da incredulidade e do desespero para alegria serena e profunda de quem acredita, no final, o bem vencerá o mal, a verdade vencerá a mentira e salvação vencerá a condenação.
Tenho presente das duras provas que o senhor viveu ultimamente, especialmente da perda de alguns entes queridos, sua esposa Marisa Letícia, seu irmão Genival Inácio e, mais recentemente, seu neto Arthur de somente sete anos- quero lhe manifestar a minha proximidade espiritual e lhe encorajar pedindo para não desanimar e continuar confiando em Deus.
Ao assegurar-lhe minha oração a fim de que, neste tempo pascal de Júbilo, a luz de cristo ressuscitado o cumule de esperança, peço-lhe que não deixe de rezar por mim.
Que Jesus o abençoe e a Virgem santa lhe proteja.
Fraternalmente.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

RALPH ELLISON: A CAUSA E O EFEITO, POR LUIZ MAURÍCIO AZEVEDO


Ralph Ellison: a causa e o efeito
Por Luiz Maurício Azevedo
16 de abril de 2019

Em 2019 completam-se 25 anos da morte do escritor afroamericano Ralph Ellison. Nascido em 1919, em Oklahoma, Ellison tornou-se notório por escrever aquela que é, sem dúvida, a obra obrigatória de toda a tradição literária negra nos Estados Unidos: Homem invisível. Publicado em 1952, o livro é basicamente uma carta-explicação sobre os motivos pelos quais um homem decide optar por viver dentro do subsolo da cidade de Nova York. O protagonista salta de decepção em decepção, fracassando em toda socialização que empreende. A experiência de ser negro nos Estados Unidos é como uma trajetória trágica, cheia de mal entendidos, frustrações, injustiças e imoralidades.

No Brasil, há duas traduções do livro disponíveis: uma datada de 1990, produção da editora Marco Zero, editada na esteira do centenário da abolição da escravatura, ocorrido no ano anterior. A outra edição é de 2013 e foi produzida pela José Olympio. Àquela altura, Homem invisível só podia ser encontrada em sebos. Em 2012, exemplares da obra eram comercializados por até duzentos reais cada, em sites como Estante Virtual e Mercado Livre. O hiato entre a primeira e a segunda tradução tem muitas explicações editoriais: a aquisição dos direitos de publicação de uma obra é um processo complexo, que envolve longa negociação, poder aquisitivo e elementos culturais. E isso sem dúvida pesou na sentença de afastar o leitor brasileiro desse livro seminal. Contudo, é possível que a conjuntura social brasileira tenha tido mais peso nessas decisões do que as demandas editoriais.

Explico: Homem invisível é um ataque frontal a dois tipos de ilusão. A primeira é de que pessoas negras podem se comportar como pessoas brancas e obter do mundo as mesmas reações que colheriam se não fossem negras. A segunda é a de que um projeto de coletividade – seja ele político, seja ele religioso – pode oferecer resposta para as angústias profundas de um indivíduo. Ellison se esforçou para demonstrar em sua obra que fatores socioeconômicos turvavam a visão sobre um ser humano, mas que não podiam determiná-lo. Para grande parte dos leitores estadunidenses, o livro é uma potente bandeira liberal sobre os riscos do pensamento de manada, das associações e das entidades que vendem a ideia de que os trabalhadores desejam algo diferente de seus chefes.

Essa concepção tornou Homem invisível de certa forma inútil para o Brasil, país onde o capitalismo hiberna, há décadas, em um limbo que coaduna atraso e identidade racial esquizofrênica. Por aqui, o livro encontra dificuldades em sua recepção porque seus principais temas são conduzidos por nós de forma bastante negativa, e a questão racial é um pesadelo que negamos como país. Por outro lado, sempre foi interessante para grande parte de nossa crítica a descrição do outro como sendo uma vítima passiva, e nossa literatura – eurodescendente – jamais pode dar conta do problema racial.
Homem invisível parece ser o último suspiro essencialista de um autor profundamente existencialista. A complexidade de sua obra não deixa espaço para o proselitismo tão palatável ao ambiente das elites nacionais, sempre dispostas a ouvir a canção dos outros quando os outros se dispõem a louvá-los, no espetáculo perdido da vida humana.

Nos Estados Unidos, membros do Partido Comunista rejeitaram a obra. Acreditavam estar frente a um romance que desenhava com traços agressivos e pejorativos uma comunidade que já estava suficientemente massacrada pela má-fama. No campo conservador, a reação foi bastante diferente. Houve uma série de manifestações que misturaram racismo e admiração. Orville Prescott, célebre crítico do The New York Times, chamou o livro de “impressionante realização; o melhor talento literário que já vi em um negro”. Fredrik Spotchen, da extinta revista Millestone, disse ser Ralph Ellison “uma espécie de James Joyce do Harlem”.

Entre os negros a obra atingiu grande notoriedade ao longo das décadas. Barack Obama atribui um grande peso em seu processo de formação. A cultura pop também presta constantes tributos à obra: na série Luke Cage, produzida pela Netflix, o protagonista tem Homem invisível como livro de cabeceira, em meio à sua improvável rotina de super-herói.  Em Todo mundo odeia o Chris, série cômica, escrita por Chris Rock, há uma exploração bem humorada da centralidade da obra no sistema escolar americano e o modo como certos indivíduos negros lidam com a herança cultural do seu próprio grupo.

O autor, contudo, não goza de igual destaque. Seu temperamento difícil e a inclinação pelo criticismo mais ácido fizeram dele uma figura complexa, com poucos acessos sócio-midiáticos. Não há camisetas com seu rosto; não há canecas com suas frases; não há celebração pública de sua figura histórica. Ellison tornou-se uma espécie de raiz da qual a própria invisibilidade é uma mera consequência lógica.

Homem invisível foi publicado em um momento em que o Modernismo estava em franca crise nos Estados Unidos. A forma-romance parecia encontrar uma limitação. Os elementos centrais da vida cultural negra por aquelas bandas (a saber: o jazz, a oralidade, a religiosidade e o mito da ascensão social) foram usados pelo autor para refazer a indagação-base de toda investigação filosófica séria: “quem sou?” É por isso que a obra começa com um significativo: “sou um homem invisível”. Ser capaz de determinar aquilo que se é, longe de ser uma limitação, é uma libertação. E, especificamente para indivíduos negros, significa desfazer as minas tóxicas que foram ardilosamente colocadas pela ideologia racial.

Luiz Maurício Azevedo é doutor em Teoria e História Literária pela UNICAMP; autor de A toupeira invisível: marxismo negro e cultura antimarxista em Ralph Ellison (Editora Figura de Linguagem)


BECKETT E DIAS GOMES NO BRASIL DE BOLSONARO, POR HENRIQUE BALBI

Por Henrique Balbi - 10/04/2019

BECKETT E DIAS GOMES NO BRASIL DE BOLSONARO: DUAS RESENHAS DE PEÇAS IMAGINÁRIAS.

'Esperando Guedês' e o 'Bem-Armado', releituras para um país da "Nova Era"

Finalmente saiu no Brasil A Literatura Nazista na América , de Roberto Bolaño. Espécie de Big Bang da obra do escritor chileno, o livro se baseia numa técnica consagrada por Jorge Luis Borges: comentar textos imaginários como se já existissem. No caso de Bolaño, a técnica é usada para esmiuçar a relação entre arte e autoritarismo – A Literatura Nazista na América reúne perfis de escritores imaginários associados ao nazifascismo (sempre bom ressaltar: movimento de extrema direita, tá ok?). Suas obras e sua existência são ficcionais, mas o vínculo que denunciam, entre as letras e a violência, é real.
Aproveito que a técnica borgeana voltou à cena para utilizá-la. Será preciso, porém, fazer alguns ajustes, pois nossa realidade difere da que Borges e Bolaño captaram (talvez difiram mais em grau do que em natureza). Nossos hermanos imaginaram e comentaram obras literárias; a seguir, comentarei peças de teatro, adaptadas com liberdade talvez excessiva. Aí está outra diferença importante: as duas peças imaginárias resenhadas a seguir são na verdade variantes de peças já existentes, que o leitor há de reconhecer, assim como há de reconhecer a realidade que as inspira.
Além do enredo, é preciso imaginar também o palco, o público, os aplausos, o que talvez seja pedir demais. De todo modo, acho que o exercício não será inútil, pois o Brasil anda precisando, desesperadamente, de uma imaginação mais afiada.

Esperando Guedês

Obra mais famosa de Samuel Beckett, Esperando Godot desperta interesse não apenas pela sua importância na história do teatro, com suas inovações formais e cênicas, como também pela história de suas montagens. Basta lembrar um exemplo, talvez o mais dramático: Susan Sontag produziu e dirigiu a peça durante o Cerco de Sarajevo, na Guerra da Bósnia.
É nessa linhagem de encenações peculiares que se encaixa Esperando Guedês , recentemente encenada em Brasília. Extremamente cioso de suas peças, Beckett com certeza se arrepiaria ao ver que a equipe tomou amplas liberdades: aboliu um cenário fixo, trocando-o por corredores de prédios da administração pública e de grandes empresas; multiplicou os atores que encarnam a dupla de protagonistas; optou por explicitar o tempo e o espaço em que a ação (ou a falta dela) se passa – Brasília, ano de 2019.
Como se sabe, a peça retrata duas personagens (Vladimir e Estragon) à espera de um senhor que nunca vem. O título da montagem já entrega o ator escalado para a não aparição: Paulo Guedes, superministro da Fazenda. Nesta versão, Guedes viria junto com um pacote de medidas que reaqueceriam a economia brasileira, incluindo uma reforma da Previdência muito desejada pelo empresariado e outras ações quase mágicas, responsáveis por afagar a mão invisível do mercado. É razoável supor que, sendo a peça fiel à concepção beckettiana, também esses resultados façam como Godot – não venham.
O dramaturgo Samuel Beckett durante ensaio de montagem de sua peça,
O dramaturgo Samuel Beckett durante ensaio de montagem de sua peça, "Esperando por Godot" Roger Viollet/Getty Images) Foto: Roger Viollet / Lipnitzki / Getty Images
A montagem foi particularmente feliz ao escalar deputados, grandes empresários e demais figuras de mando, que se revezam nos papéis de Vladimir e Estragon. Isso nos permite rir de suas caras abobalhadas, no aguardo de uma articulação política que tente aprovar as reformas e que jamais aparece. Enquanto esperam, os protagonistas buscam entender o que houve: Guedes furou? Alguém o chamou de tchutchuca ou algo parecido? O governo quer mesmo aprovar essas medidas? O tom sarcástico da peça alcança um momento de brilho quando um dos protagonistas, irado, resolve cobrar seriedade e responsabilidade de um governo que se acha um mito, mas que não passa de mitomania.
O noticiário sugere e esta montagem confirma: o Brasil de hoje não passa de uma versão pornochanchada de uma tragicomédia de Beckett.

O Bem-Armado

Quem não se lembra da imortal figura de Odorico Paraguaçu, praticamente o santo padroeiro da política brasileira, seu exemplo máximo, seu arquétipo platônico? Pois ele está de volta. Não apenas nas urnas, como também nos palcos.
O enredo é conhecido: Odorico se elege prefeito de Sucupira, com a promessa de inaugurar um cemitério. A população, porém, não colabora, já que ninguém lhe faz o favor de morrer. Odorico, então, precisa providenciar um defunto o quanto antes – nem que para isso tenha de contratar um miliciano, quer dizer, um pistoleiro.
Desde já, é preciso esclarecer a dificuldade de se resenhar uma obra em andamento. A equipe fez uma opção ousadíssima: a peça se estenderá por cerca de quatro anos, com os atores encarnando ininterruptamente seus papéis até que o mandato de Odorico se encerre, nesse intervalo ou antes. Para dar conta de tamanha duração, levando em conta que o texto de Dias Gomes é curto, a equipe contratou roteiristas adicionais. Eles organizaram a ação dramática em ciclos de fabricação e abafamento de escândalos – primeiro, Odorico lança declarações polêmicas, fala pelos cotovelos, lança absurdos a torto e à direita; depois, recua, nega, chama tudo de fake news, etc.
Destacamos duas escolhas muito interessantes da montagem. Primeiro, a ênfase no tema do armamento, que justifica a mudança do título da peça. Odorico e seu entorno demonstram uma obsessão por revólveres e pistolas, o que combina perfeitamente com um enredo todo baseado na dupla matar/morrer. Isso é reforçado pela sonoplastia, toda construída com um ruído de fundo, constante, repetitivo: oitenta sons de disparos, de tiros. É uma paisagem sonora lamentavelmente comum no Brasil, que a obsessão de Odoricos só tende a perpetuar.
Segundo, é preciso elogiar a decisão de expandir o círculo de apoiadores de Odorico, incluindo nas figuras centrais a família Paraguaçu – em especial, seus filhos, todos eleitos para funções legislativas em Sucupira. Chamam atenção a prepotência de um, a virulência de outro, a cara de bobo de um terceiro, que contribuem para delinear um perfil próprio a cada filho, embora todos – incluindo Odorico – ajam de modo caricatural. Acompanharemos com especial interesse o desenrolar de uma das tramas secundárias: o envolvimento explícito de um dos filhos com o pistoleiro. Aparentemente, este filho de Odorico empregou familiares do pistoleiro em seu gabinete, e inclusive o elogiou num discurso na Câmara. Essa trama secundária tem ainda muitos pontos obscuros, e mal podemos esperar seus desdobramentos, inclusive jurídicos e quem sabe carcerários.
Por fim, precisamos apontar um problema na peça. É fato que a personagem de Odorico se destacou e se tornou memorável por sua eloquência. O ator escolhido, no entanto, deixa muito a desejar. Não sabe falar, mal junta as frases de modo coerente. Dá a impressão de que não decora seus textos. Talvez nem os entenda direito. Tal escalação faz o público mais exigente questionar a verossimilhança da personagem: como alguém com tanta dificuldade de expressão se elegeria? Não faria sentido um político, cuja principal ferramenta é a palavra, ser tão inepto e confuso ao discursar. É o que nos perguntamos também.
Esperamos que o desenrolar da peça revele as razões da escolha. Mas, a julgar pela produção teatral contemporânea, desconfiamos de que o fim da peça – e do país que a inspira – será shakespeariano, à maneira do que diz Macbeth em cena famosa (na tradução de Barbara Heliodora): “A vida é só uma sombra: um mau ator / que grita e se debate pelo palco, / depois é esquecido; é uma história / que conta o idiota, todo som e fúria / sem querer dizer nada.”