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segunda-feira, 23 de setembro de 2019

O TRISTE FIM DE JAIR MESSIAS BOLSONARO, POR JOSÉ EDUARDO AGUALUSA



 Jair acordou a meio da noite. Mandara colocar uma cama dentro do closet e era ali que dormia.
 Durante o dia tirava a cama, instalava uma secretária e recebia os filhos, os ministros e os assessores militares mais próximos.

Alguns estranhavam. Entravam tensos e desconfiados no armário, esforçando-se para que os seus gestos não traíssem nenhum nervosismo. Interrogado a respeito pela Folha de São Paulo, o deputado Major Olimpio, que chegou a ser muito próximo de Jair, tentou brincar: “Não estou sabendo, mas não vou entrar em armário nenhum. Isso não é hétero.” Michelle, que também se recusava a entrar no armário, fosse de dia ou de noite, optou por dormir num outro quarto do Palácio da Alvorada.
Aliás, o edifício já não se chamava mais Palácio da Alvorada. Jair oficializara a mudança de nome: “Alvorada é coisa de comunista!” — Esbravejara: “Certamente foi ideia desse Niemeyer, um esquerdopata sem vergonha.”
O edifício passara então a chamar-se Palácio do Crepúsculo. O Presidente tinha certa dificuldade em pronunciar a palavra, umas vezes saía-lhe grupúsculo, outras prepúcio, mas achava-a sólida, máscula, marcial. Ninguém se opôs.
Naquela noite, pois, Jair Messias Bolsonaro despertou dentro de um closet, no Palácio do Crepúsculo, com uma gargalhada escura rompendo das sombras. Sentou-se na cama e com as mãos trêmulas procurou a glock 19, que sempre deixava sob o travesseiro.
— Largue a pistola, não vale a pena!
A voz era rouca, trocista, com um leve sotaque baiano. Jair segurou a glock com ambas as mãos, apontando-a para o intenso abismo à sua frente:
— Quem está aí?
Viu então surgir um imenso veado albino, com uma armação incandescente e uns largos olhos vermelhos, que se fixaram nos dele como uma condenação. Jair fechou os olhos. Malditos pesadelos.
Vinha tendo pesadelos há meses, embora fosse a primeira vez que lhe aparecia um veado com os cornos em brasa. Voltou a abrir os olhos. O veado desaparecera. Agora estava um índio velho à sua frente, com os mesmos olhos vermelhos e acusadores:
— Porra! Quem é você?
— Tenho muitos nomes. — Disse o velho. — Mas pode me chamar Anhangá.
— Você não é real!
— Não?
— Não! É a porra de um sonho! Um sonho mau!
O índio sorriu. Era um sorriso bonito, porém nada tranquilizador. Havia tristeza nele. Mas também ira. Uma luz escura escapava-lhe pelas comissuras dos lábios:
— Em todo o caso, sou seu sonho mau. Vim para levar você.
— Levar para onde, ô paraíba? Não saio daqui, não vou para lugar nenhum.
— Vou levar você para a floresta.
— Já entendi. Michelle me explicou esse negócio dos pesadelos. Você é meu inconsciente querendo me sacanear. Quer saber mesmo o que acho da Amazónia?! Quero que aquela merda arda toda! Aquilo é só árvore inútil, não tem serventia. Mas no subsolo há muito nióbio. Você sabe o que é nióbio? Não sabe porque você é índio, e índio é burro, é preguiçoso. O pessoal faz cordãozinho de nióbio. As vantagens em relação ao ouro são as cores, e não tem reação alérgica. Nióbio é muito mais valioso que o ouro.
O índio sacudiu a cabeça, e agora já não era um índio, não era um veado — era uma onça enfurecida, lançando-se contra o presidente:
— Acabou!
Anhangá colocou um laço no pescoço de Jair, e no instante seguinte estavam ambos sobre uma pedra larga, cercados pelo alto clamor da floresta em chamas. Jair ergueu-se, aterrorizado, os piscos olhos incrédulos, enquanto o incêndio avançava sobre a pedra:
— Você não pode me deixar aqui. Sou o presidente do Brasil!
— Era. — Rugiu Anhangá, e foi-se embora.
Na manhã seguinte, o ajudante de ordens entrou no closet e não encontrou o presidente. Não havia sinais dele. “Cheira a onça”, assegurou um capitão, que nascera e crescera numa fazenda do Pantanal. Ninguém o levou a sério.
Ao saber do misterioso desaparecimento do marido, Michelle soltou um fundo suspiro de alívio.
Os generais soltaram um fundo suspiro de alívio. Os políticos (quase todos) soltaram um fundo suspiro de alívio.
Os artistas e escritores soltaram um fundo suspiro de alívio. Os gramáticos e outros zeladores do idioma, na solidão dos respetivos escritórios, soltaram um fundo suspiro de alívio.
Os cientistas soltaram um fundo suspiro de alívio. Os grandes fazendeiros soltaram um fundo suspiro de alívio.
Os pobres, nos morros do Rio de Janeiro, nas ruas cruéis de São Paulo, nas palafitas do Recife, soltaram um fundo suspiro de alívio.
As mães de santo, nos terreiros, soltaram um fundo suspiro de alívio.
Os gays, em toda a parte, soltaram um fundo suspiro de alívio.
Os índios, nas florestas, soltaram um fundo suspiro de alívio.
As aves, nas matas, e os peixes, nos rios e no mar, soltaram um fundo suspiro de alívio.
O Brasil, enfim, soltou um fundo suspiro de alívio — e a vida recomeçou, como se nunca, à superfície do planeta Terra, tivesse existido uma doença chamada Jair Messias Bolsonaro.

Publicado originalmente na revista Visão de Portugal. 
Disponível em: https://blogdojuca.uol.com.br/2019/09/o-triste-fim-de-jair-messias-bolsonaro/



segunda-feira, 29 de abril de 2019

BECKETT E DIAS GOMES NO BRASIL DE BOLSONARO, POR HENRIQUE BALBI

Por Henrique Balbi - 10/04/2019

BECKETT E DIAS GOMES NO BRASIL DE BOLSONARO: DUAS RESENHAS DE PEÇAS IMAGINÁRIAS.

'Esperando Guedês' e o 'Bem-Armado', releituras para um país da "Nova Era"

Finalmente saiu no Brasil A Literatura Nazista na América , de Roberto Bolaño. Espécie de Big Bang da obra do escritor chileno, o livro se baseia numa técnica consagrada por Jorge Luis Borges: comentar textos imaginários como se já existissem. No caso de Bolaño, a técnica é usada para esmiuçar a relação entre arte e autoritarismo – A Literatura Nazista na América reúne perfis de escritores imaginários associados ao nazifascismo (sempre bom ressaltar: movimento de extrema direita, tá ok?). Suas obras e sua existência são ficcionais, mas o vínculo que denunciam, entre as letras e a violência, é real.
Aproveito que a técnica borgeana voltou à cena para utilizá-la. Será preciso, porém, fazer alguns ajustes, pois nossa realidade difere da que Borges e Bolaño captaram (talvez difiram mais em grau do que em natureza). Nossos hermanos imaginaram e comentaram obras literárias; a seguir, comentarei peças de teatro, adaptadas com liberdade talvez excessiva. Aí está outra diferença importante: as duas peças imaginárias resenhadas a seguir são na verdade variantes de peças já existentes, que o leitor há de reconhecer, assim como há de reconhecer a realidade que as inspira.
Além do enredo, é preciso imaginar também o palco, o público, os aplausos, o que talvez seja pedir demais. De todo modo, acho que o exercício não será inútil, pois o Brasil anda precisando, desesperadamente, de uma imaginação mais afiada.

Esperando Guedês

Obra mais famosa de Samuel Beckett, Esperando Godot desperta interesse não apenas pela sua importância na história do teatro, com suas inovações formais e cênicas, como também pela história de suas montagens. Basta lembrar um exemplo, talvez o mais dramático: Susan Sontag produziu e dirigiu a peça durante o Cerco de Sarajevo, na Guerra da Bósnia.
É nessa linhagem de encenações peculiares que se encaixa Esperando Guedês , recentemente encenada em Brasília. Extremamente cioso de suas peças, Beckett com certeza se arrepiaria ao ver que a equipe tomou amplas liberdades: aboliu um cenário fixo, trocando-o por corredores de prédios da administração pública e de grandes empresas; multiplicou os atores que encarnam a dupla de protagonistas; optou por explicitar o tempo e o espaço em que a ação (ou a falta dela) se passa – Brasília, ano de 2019.
Como se sabe, a peça retrata duas personagens (Vladimir e Estragon) à espera de um senhor que nunca vem. O título da montagem já entrega o ator escalado para a não aparição: Paulo Guedes, superministro da Fazenda. Nesta versão, Guedes viria junto com um pacote de medidas que reaqueceriam a economia brasileira, incluindo uma reforma da Previdência muito desejada pelo empresariado e outras ações quase mágicas, responsáveis por afagar a mão invisível do mercado. É razoável supor que, sendo a peça fiel à concepção beckettiana, também esses resultados façam como Godot – não venham.
O dramaturgo Samuel Beckett durante ensaio de montagem de sua peça,
O dramaturgo Samuel Beckett durante ensaio de montagem de sua peça, "Esperando por Godot" Roger Viollet/Getty Images) Foto: Roger Viollet / Lipnitzki / Getty Images
A montagem foi particularmente feliz ao escalar deputados, grandes empresários e demais figuras de mando, que se revezam nos papéis de Vladimir e Estragon. Isso nos permite rir de suas caras abobalhadas, no aguardo de uma articulação política que tente aprovar as reformas e que jamais aparece. Enquanto esperam, os protagonistas buscam entender o que houve: Guedes furou? Alguém o chamou de tchutchuca ou algo parecido? O governo quer mesmo aprovar essas medidas? O tom sarcástico da peça alcança um momento de brilho quando um dos protagonistas, irado, resolve cobrar seriedade e responsabilidade de um governo que se acha um mito, mas que não passa de mitomania.
O noticiário sugere e esta montagem confirma: o Brasil de hoje não passa de uma versão pornochanchada de uma tragicomédia de Beckett.

O Bem-Armado

Quem não se lembra da imortal figura de Odorico Paraguaçu, praticamente o santo padroeiro da política brasileira, seu exemplo máximo, seu arquétipo platônico? Pois ele está de volta. Não apenas nas urnas, como também nos palcos.
O enredo é conhecido: Odorico se elege prefeito de Sucupira, com a promessa de inaugurar um cemitério. A população, porém, não colabora, já que ninguém lhe faz o favor de morrer. Odorico, então, precisa providenciar um defunto o quanto antes – nem que para isso tenha de contratar um miliciano, quer dizer, um pistoleiro.
Desde já, é preciso esclarecer a dificuldade de se resenhar uma obra em andamento. A equipe fez uma opção ousadíssima: a peça se estenderá por cerca de quatro anos, com os atores encarnando ininterruptamente seus papéis até que o mandato de Odorico se encerre, nesse intervalo ou antes. Para dar conta de tamanha duração, levando em conta que o texto de Dias Gomes é curto, a equipe contratou roteiristas adicionais. Eles organizaram a ação dramática em ciclos de fabricação e abafamento de escândalos – primeiro, Odorico lança declarações polêmicas, fala pelos cotovelos, lança absurdos a torto e à direita; depois, recua, nega, chama tudo de fake news, etc.
Destacamos duas escolhas muito interessantes da montagem. Primeiro, a ênfase no tema do armamento, que justifica a mudança do título da peça. Odorico e seu entorno demonstram uma obsessão por revólveres e pistolas, o que combina perfeitamente com um enredo todo baseado na dupla matar/morrer. Isso é reforçado pela sonoplastia, toda construída com um ruído de fundo, constante, repetitivo: oitenta sons de disparos, de tiros. É uma paisagem sonora lamentavelmente comum no Brasil, que a obsessão de Odoricos só tende a perpetuar.
Segundo, é preciso elogiar a decisão de expandir o círculo de apoiadores de Odorico, incluindo nas figuras centrais a família Paraguaçu – em especial, seus filhos, todos eleitos para funções legislativas em Sucupira. Chamam atenção a prepotência de um, a virulência de outro, a cara de bobo de um terceiro, que contribuem para delinear um perfil próprio a cada filho, embora todos – incluindo Odorico – ajam de modo caricatural. Acompanharemos com especial interesse o desenrolar de uma das tramas secundárias: o envolvimento explícito de um dos filhos com o pistoleiro. Aparentemente, este filho de Odorico empregou familiares do pistoleiro em seu gabinete, e inclusive o elogiou num discurso na Câmara. Essa trama secundária tem ainda muitos pontos obscuros, e mal podemos esperar seus desdobramentos, inclusive jurídicos e quem sabe carcerários.
Por fim, precisamos apontar um problema na peça. É fato que a personagem de Odorico se destacou e se tornou memorável por sua eloquência. O ator escolhido, no entanto, deixa muito a desejar. Não sabe falar, mal junta as frases de modo coerente. Dá a impressão de que não decora seus textos. Talvez nem os entenda direito. Tal escalação faz o público mais exigente questionar a verossimilhança da personagem: como alguém com tanta dificuldade de expressão se elegeria? Não faria sentido um político, cuja principal ferramenta é a palavra, ser tão inepto e confuso ao discursar. É o que nos perguntamos também.
Esperamos que o desenrolar da peça revele as razões da escolha. Mas, a julgar pela produção teatral contemporânea, desconfiamos de que o fim da peça – e do país que a inspira – será shakespeariano, à maneira do que diz Macbeth em cena famosa (na tradução de Barbara Heliodora): “A vida é só uma sombra: um mau ator / que grita e se debate pelo palco, / depois é esquecido; é uma história / que conta o idiota, todo som e fúria / sem querer dizer nada.”

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Como Bolsonaro convenceu os brasileiros a combater moinhos de vento, por Carla Guimarães

Em um país tropical, cujo nome não quero lembrar, vivia um militar aposentado que defendia a ditadura e que acreditava que o grande erro daquele regime foi não ter matado mais vermelhos. Esse militar, em seus momentos de ócio, se dedicava a fazer campanhas políticas e até chegou a ser deputado. Em quase três décadas no Congresso, aprovou apenas duas leis de sua autoria. Sua grande contribuição, em suas próprias palavras, foi impedir que certos projetos fossem aprovados. Por causa desses projetos, passava noites em claro. “As minorias têm que se curvar às maiorias”, disse em certa ocasião. A luta contra a expansão dos direitos de mulheres, homossexuais, negros e indígenas o consumia por completo. E assim, dormindo pouco e lutando muito, seu cérebro secou de tal maneira que perdeu o juízo. De fato, terminada sua sanidade, um estranho pensamento se instalou em sua mente: tornar-se presidente e sair pelo país com suas armas defendendo os direitos dos homens brancos e ricos. Para alcançar seu nobre objetivo, estava disposto a enfrentar o maior dos perigos, a esquerda radical.
Como foi paraquedista, decidiu se lançar no vazio das redes sociais e enchê-las com incríveis malfeitos
Como foi paraquedista em seu tempo no Exército, decidiu se lançar no vazio das redes sociais e enchê-las com os incríveis malfeitos cometidos por seu recalcitrante inimigo. Onde quer que fosse, advertia sobre o perigo da esquerda, que pretendia instaurar uma ditadura gay no país. Se os seus adversários chegassem ao poder, legalizariam a pedofilia, os bicos das mamadeiras teriam a forma de pênis e, nas escolas, as crianças heterossexuais se tornariam homossexuais por causa de um material didático apelidado de kit gay pelo militar.
Outra de suas grandes preocupações era evitar o avanço do feminismo, uma ideologia que levaria o país inexoravelmente ao apocalipse. O feminismo era capaz de transformar mulheres em monstros peludos cheios de ódio contra o gênero masculino. O objetivo desses monstros era instaurar uma ditadura feminista que, junto com a ditadura gay, perseguiria sem descanso os pobres homens heterossexuais.
Os ativistas que defendem os direitos humanos e a natureza também representavam um risco. Eram um claro obstáculo ao desenvolvimento da nação. “Hoje em dia é muito difícil ser patrão”, defendeu o ex-paraquedista não faz muito tempo. Para ele, os donos das grandes empresas e os latifundiários eram as verdadeiras vítimas esquecidas pelas ONGs. Oprimidos pelos direitos de seus trabalhadores ou pelas leis de preservação da natureza, os patrões são uma espécie indefesa que deve ser protegida. No dicionário de seus seguidores, a palavra “ativista” significava delinquente e “direitos humanos” era pouco mais que um palavrão.
Além de denunciar as terríveis injustiças que seriam perpetradas pela esquerda radical, o militar aposentado oferecia a solução para o grave problema da insegurança no país tropical. “Bandido bom é bandido morto”, gritavam seus acólitos. Seu plano inovador para melhorar a segurança era armar a população. Combater a violência com mais violência. Como ninguém tinha pensado nisso antes?
No dicionário de seus seguidores, a palavra “ativista” significava delinquente
As armas foram, sem dúvida, o grande símbolo de sua cruzada pelo país. Em suas mãos, qualquer objeto se tornou uma alusão a elas. Na falta de um objeto, seus próprios dedos imitavam pistolas e revólveres. O ex-militar fez o gesto de disparar em inúmeras ocasiões, tanto que ninguém se lembrava mais de que tinha 10 dedos. Aqueles que o viram garantiam que ele só tinha dois dedos em cada mão: o indicador e o polegar, ambos manchados de pólvora.
Apesar de se apresentar como um herói à maneira de Chuck Norris, o ex-paraquedista não pôde esconder sua maior fraqueza: o medo do debate. Toda vez que enfrentou um adversário, perdeu seguidores. Os adversários o crivavam com argumentos, disparavam-lhe ideias e o acabavam com dados. Ele estava, pela primeira vez, desarmado e indefeso, perdido no meio de um tiroteio dialético. Portanto, como bom militar, optou por outra estratégia. Quando falava, preferia fazê-lo sozinho, em um discurso; ou de maneira acordada, com um interlocutor amigável. Adorava frases de efeito, geralmente vazias de conteúdo. O discurso de ódio se tornou seu melhor aliado e tirou milhares de intolerantes do armário. Para seus fãs, o desprezo pelas minorias era sinceridade, os ataques à liberdade de expressão eram puro senso comum e a defesa da repressão policial era pragmatismo. Para justificar o discurso de ódio, o carrasco se faz passar por vítima, o perseguidor diz que está sendo perseguido e o covarde se disfarça de herói.
Para surpresa de muitos, o militar aposentado conseguiu transformar seu delírio em realidade e no primeiro dia do novo ano tomou posse como presidente do país tropical. Para os narradores que descrevem suas façanhas é quase impossível explicar como o ex-paraquedista conseguiu convencer uma grande parte da população de que os moinhos de vento eram, na verdade, gigantes.
Carla Guimarães é escritora e jornalista brasileira.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A BANANEIRA E A JACA, POR FERNANDO BRITO

A bananeira e a jaca

Ao garoto que, no final dos anos 60, procurava entender como as pessoas agem, minha velha avó ensinava, nas palavras simples de gente que aprendera muito com a vida: “meu filho, não espere que um bananeira lhe dê jacas. você vai falar, falar, falar e ela só dará bananas”.
Os colunistas de O Globo – e donos da sabedoria da classe média, a partir do púlpito da Globonews – se dedicam hoje a falar das jacas que virão da bananeira que vai governar o país.
Na manchete, o jornal dos Marinho diz que “Bolsonaro vai pregar união e austeridade em discurso”. Isso depois de disparos de twitter clamando contra o “marxismo nas escolas” e de um discurso, segundo o jornal, redigido com a ajuda dos filhos, pitbulls notórios da radicalização.
Merval, o bedel da pátria, diz com gravidade afetada que “cabe a ele, Jair Bolsonaro, desanuviar o ambiente político e encaminhar o país para novos rumos, como a vontade majoritária do eleitorado quis.  Mas procurando conciliar as partes”.
Bolsonaro, conciliador? “Jacas, jacas”, pede-se à bananeira…
Míriam Leitão, mais desencantada e menos esperançosa coloca a pedra chave no tabuleiro: “o dilema é: como subir impostos [retirando exonerações fiscais], quando se deveria reduzi-los, e como reduzi-los se o rombo é enorme?”.
E sugere que o novo presidente pare com seus rompantes [ jacas, jacas…] e  lhe propõe as condições para que a mídia pinte de verde as bananas: “Se o governo continuar alimentando a fantasia de que está lutando contra os grandes jornais e as maiores emissoras de televisão vai desperdiçar tempo, munição e recursos.”
Passa ao largo da compreensão destes gajos que o governo que se instala hoje não tem outro projeto senão o enunciado pelo seu vice-presidente, o General Hamilton Mourão: o desmanche do Estado brasileiro e a abertura do país a uma predação ainda mais selvagem do Brasil.
Bananas não têm sementes e, nas que comumente encontradas, são inférteis: bananeiras apenas rebrotam à medida em que murcham depois de lançarem seus cachos.
E junto a elas, ensina o saber da roça, cuidado com as cobras.