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segunda-feira, 11 de maio de 2020
sexta-feira, 1 de maio de 2020
O Brasil entre o “e daí?” e o “foda-se”
Em 24h, o Brasil
registrou 474 mortes em decorrência do Covid-19. Foram 20 mortes por hora, o
que dá uma morte a cada três minutos. A quantidade de mortos, sem se levar em
consideração as subnotificações, já superou as mortes ocorridas na China, e não
param de crescer. Hospitais e cemitérios estão lotados, famílias estão
desesperadas. São homens, mulheres e crianças contaminados, relegados a um
canto qualquer de alguma unidade de atendimento médico. Os profissionais da
saúde, por sua vez, não estão menos desesperados, pois estão trabalhando além
daquilo que podem suportar, sem poder nem ao menos abraçar seus entes queridos.
O isolamento social, indispensável para se conter o avanço do vírus, tem
afetado a saúde mental de muitos. E o que dizer daquelas famílias que nem
sequer podem dar um funeral decente aos seus mortos?
Sim, há um misto de
desespero, tristeza e angústia a atacar a população brasileira. O momento, no
entanto, não permite a ninguém tripudiar sobre aqueles que votaram no atual
mandatário da República e que, infelizmente, estão infectados ou morreram. Esse
tipo de atitude serve apenas para nos reduzir enquanto seres humanos, pois, independentemente
da situação, a desumanização jamais deve se tornar uma opção, mesmo em tempos
de cólera.
Há, no país, um caos
generalizado. Tem-se a sensação, comprovada pelas notícias confiáveis que nos
chegam, de que pouco ou quase nada tem sido efetivamente feito pelo governo
federal para barrar o avanço da contaminação. Enquanto a maioria dos
governadores tenta salvar a população dos Estados que comandam, o país é
inundado todos os dias por milhares de notícias falsas, muitas delas divulgadas
por membros do próprio governo federal, que tentam desconstruir a importância
da população se proteger, mantendo-se socialmente isolada. É bastante curioso,
por exemplo, que pessoas com nível ralo de educação, como certos parlamentares,
por exemplo, insistam em tentar desacreditar cientistas que passaram suas vidas
estudando epidemias. Qual a resposta que
a justiça brasileira tem dado a esse tipo de crime? nenhuma. E assim seguimos à
deriva, vendo a cada novo dia, covas e covas serem abertas, corpos serem
empilhados e a morte a bater-nos à porta.
O país vive, ao mesmo
tempo, uma crise política, uma econômica e uma sanitária. Tais crises que, de
uma forma ou outra, estão interligadas, não poderiam ter explodido em pior
momento. Momento este em que o Brasil carece de uma liderança política que o
conduza em meio a tormenta. Mas já faz muito tempo que o Brasil não dispõe de
grandes lideranças (se é que algum dia as teve), uma vez que se acostumou à
mediocridade do toma-lá-dá-cá, modus operandi
eternamente em voga por aqui. Assim, aos mais altos poderes da República são
alçados os piores nomes. São filhos e netos de velhas raposas da política
nacional, que jamais fizeram algo na vida, a não ser mamar nas tetas do Estado.
São vereadores, deputados, governadores e senadores que deixam muito a desejar
àquilo que as funções que ocupam exigem. São ignorantes, autoritários e
culturalmente despreparados para o desempenho das funções que a Política
requer.
Quando surge uma situação
emergencial, como a que nos assola, que exige ação e expertise de gestão, a
experiência limítrofe de gabinete da maioria desses políticos, não serve para
absolutamente nada, assim como também não serve para nada ter chegado a alguma
das esferas do poder, simplesmente por ter entupido a Internet de robôs,
espalhando as mais imbecis das fake news,
aproveitando-se da ignorância de grande parte da população. Em uma situação
de crise sanitária, como a que estamos enfrentando, não adianta um político com
as características citadas vir a público e dizer que votou no candidato tal,
mesmo sabendo que ele era “um jumento”. É ridículo, pois, pelo que me consta,
jumento não vota em tigre.
Questionado acerca do
crescente número de mortos em decorrência do Coronavírus, o excelentíssimo
senhor presidente da república respondeu: “e daí?”. Em qualquer país sério, o
referido senhor já teria sido apeado do poder, processado e, provavelmente,
preso. Contudo, no Brasil, república de bananas (e bananinhas), na qual os
líderes políticos, aliados ao capital, faça chuva, faça sol ou pandemia,
trabalham, muitas vezes na calada da noite, contra a população. A herança
maldita do escravismo continua cada vez mais forte por aqui. Assim, não nos
surpreendamos se ao senhor presidente for perguntado mais uma vez sobre o
crescente número de mortos em decorrência do Covid-19 (e em decorrência do
descaso do seu governo). A resposta poderá ser um “foda-se”.
terça-feira, 28 de abril de 2020
Quem não respeita seus mortos, não respeita nada
Por Rosa Montero
Sempre fui fascinada
pelos vários ritos funerários que o ser humano criou ao longo
da história. A morte é algo tão grande e tão incontrolável, sobretudo para nós
que ficamos aqui e temos que lidar com o inaudito desaparecimento de um ente
querido, que somos forçados a buscar truques defensivos. E, como a morte não se
deixa domesticar por meio de palavras (a verdadeira dor nos emudece),
recorremos às cerimônias coletivas para encontrar consolo.
Barcos flamejantes que
adentram o mar para os vikings, pirâmides e mumificações para os egípcios, cremações sagradas
para os budistas, cemitérios tão monumentais que acabam sendo verdadeiras
cidades da morte. E, então, as manias peculiares de cada cultura: os muçulmanos
devem ser enterrados sem caixão, de lado e olhando para Meca; Os aborígines da Austrália
colocam o corpo em uma plataforma, cobrem-no com folhas e o deixam apodrecer ao
ar livre; no vilarejo de Sagada, nas Filipinas, os caixões são pendurados nos
penhascos, porque assim ficam bem perto do céu (que lindo); e os pársis de
Mumbai usam as impressionantes Torres do Silêncio, construções de pedra onde os
cadáveres são depositados para que os urubus os devorem, o que, pensando bem,
possui uma beleza selvagem e ecológica.
Sim, temos que fazer algo com
a morte, temos que aprisioná-la com ritos precisamente para salvar a vida. É
por isso que desde sempre uma das medidas mais claras da devastação causada por
uma catástrofe é o fato de nos roubar essa liturgia final. Acontece nas
guerras, com os mortos desaparecidos em combate; acontece nas explosões que
evaporam corpos, como os acidentes de avião ou as das Torres Gêmeas. E acontece nas pandemias. Quando os cronistas das várias pestes
sofridas pela humanidade queriam destacar o horror supremo do que estavam
vivendo, falavam disso: dos milhares de mortos sem enterrar porque
"aqueles que cavavam já não davam conta", como dizia Procópio de
Cesareia na peste de 541; ou o que escreveu durante a Grande Peste de 1348
Agnolo di Tura, um morador de Siena, onde metade da população havia morrido:
“Enterrei com minhas próprias mãos cinco filhos em uma única sepultura. Não
houve sinos. Nem lágrimas. Isto é o fim do mundo”. Não, não houve sinos, não
houve ritual, não houve uma despedida apropriada e, portanto, não houve
salvação.
E isto é o mais duro, o mais
devastador que está acontecendo agora com o coronavírus.
Todas essas mortes, todas elas sem o consolo do velório e muitas, além disso,
sem a mera possibilidade de lhes terem dito adeus. E todos esses parentes
trancados na solidão de suas casas, necessitados de lágrimas amigas para molhar
seus ombros e contemplando como seus mortos se convertem em um simples número
no meio de uma lista. Temos que fazer algo com essa dor enorme. E isso tem que
ser feito já. Quando a situação melhorar, assim que pudermos nos permitir, é
preciso organizar funerais de Estado e cerimônias coletivas como os três
minutos de silêncio que fizeram na China. Mas, enquanto esse momento não chega,
podemos honrar os mortos de alguma maneira, fazer pequenos gestos. Pois, então,
por que não colocar, por exemplo, um pequeno laço preto em nossas sacadas?
Seria solidário compartilhar a dor de nossos vizinhos. E também, é claro, a
esperança. Quando este artigo sair, 15 dias depois de escrevê-lo, pode ser que
haja alguma iniciativa desse tipo.
Já dizia a Ilíada, esse livro de quase 3.000 anos que hoje
continua a nos falar com eloquência. Quando Aquiles, envenenado pela raiva,
mata em combate o nobre príncipe Héctor, comete assim a maior e mais
inconcebível das iniquidades: amarra o cadáver pelos tornozelos a seu carro de
guerra e a arrasta e o mantém à intempérie durante 12 dias. Uma noite, o velho
rei Príamo, disfarçado, tem que ir ao seu acampamento e suplicar de joelhos ao
feroz Aquiles para que lhe devolva o cadáver do filho (o que ele consegue,
aliás). A Ilíada é cheia de brutalidades
e degolas, mas a profanação do cadáver de Héctor é a mais atroz, é o clímax do
livro. Porque quem não respeita seus mortos, não respeita nada. Nem sequer a si
mesmo.
domingo, 19 de abril de 2020
Como sairemos da pandemia? Piores.
Em meio à pandemia de
Covid-19, a humanidade se vê cada vez mais isolada. Estamos afastados daqueles
e daquelas a quem amamos, e não sabemos muito bem quando nem como tudo isso
acabará. O que já pode ser vislumbrado é que ao final de tudo isso, muitos
estarão bastante traumatizados, uma vez que muita gente não consegue lidar com
a obrigação do isolamento, desenvolvendo, assim, condições que precisarão ser
tratadas por profissionais. A humanidade sairá mentalmente quebrada. E como “consertar”
uma humanidade mentalmente quebrada?
Ao lermos os jornais, notamos
que uma pergunta se faz recorrente: “Ao término da pandemia, sairemos pessoas
melhores ou piores?” Um resposta para essa pergunta precisa levar em
consideração inúmeros fatores de ordem política, histórica e sociocultural. Por
exemplo, os ricos que estão fazendo as carreatas da morte por todo o país, interrompendo
o trânsito em frente aos hospitais, pressionando os governos estaduais a abrir
o comércio, buscando convencer seu funcionário a voltar ao trabalho, se
infectar e morrer para o bem da empresa que o oprime desde sempre, sairão bem,
como sempre se saíram ao longo da história desse país. Para esses senhores,
seus empregados são apenas números. Não são gente. Que morram! Poderíamos
pensar que eles sairiam mentalmente abalados, mas isso certamente não
acontecerá. São predatórios. A fera caçadora não se preocupa com a caça. Assim,
essas pessoas, enroladas na bandeira brasileira, travando as avenidas do país
com seus carros luxuosos, não sairão nem melhores nem piores. Sairão do jeito
que sempre foram, ou seja, mesquinhos, medíocres e felizes na sua estupidez.
As pessoas pobres, por
sua vez, sairão alquebradas, física e mentalmente extenuadas, pois terão
perdido entes queridos, amigos, vizinhos, amores. Tudo que tinham poderá ter
sido posto num saco preto e jogado numa vala coletiva de um cemitério qualquer.
Quem se importará? Os políticos que agora defendem a flexibilização do isolamento
( “pobre bom é pobre morto”), os ricaços
da lista da Forbes ou a grande mídia, que contribuiu para que o esgoto
ascendesse ao poder máximo da República? Ninguém desse grupo, na verdade, se
importará com a tragédia que está por vir, com o genocídio que se avizinha. Os “cidadãos
de segunda classe” estão entregues à própria sorte num país à deriva.
Em meio a tudo isso, contamos
com o silêncio conivente das Instituições que sempre foram extremamente ágeis
quando aqueles que ocupavam o Executivo eram outros, os outros. Estariam tais
Instituições funcionando? E se estão, em favor de quem? Cabe-nos perguntar, por
onde andam os ministros “iluministas” do STF, a Câmara, o Senado, as associações
e organizações que foram tão ativas ao se posicionarem em favor da deposição da
presidenta Dilma Rousseff, por exemplo. Esse silêncio sepulcral se ampliará à
medida em que se abrem centenas de covas nos cemitérios do país. Os cadáveres
pesarão nas costas de todos que se omitiram e foram coniventes com o projeto de
instalação da barbárie no Brasil. Os resultados já estão aí, e penso: como será
difícil esconder tanto cadáver!
Em algum momento a
pandemia passará, uma cura terá sido encontrada, e a sorrir, parafraseando
Cartola, pretenderemos levar a vida. Contudo, não acreditamos que a humanidade
saia melhor de tudo isso. Aqueles que oprimem, retornarão com mais vontade de
oprimir, enquanto a política continuará a bradar e defender que a economia é muito mais importante que a
vida (dos pobres, claro). O ser humano sairá muito pior da pandemia, não por
ser uma criatura naturalmente má, mas por ser, conforme o escritor José de Alencar, “um sistema
de contrariedades”, e não conseguir aprender com aquilo que lhe acontece. Peguemos
qualquer momento da história da humanidade (as Guerras Mundiais, o Holocausto,
a escravidão etc) e veremos que pouco ou quase nada se aprendeu. Reconhecemos,
no entanto, que nada é absoluto e que nenhum manual ou receita pode dizer de
maneira assertiva do que o ser humano é capaz, embora seja previsível.
Do
isolamento, façamos nossas apostas.
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