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terça-feira, 28 de abril de 2020

Quem não respeita seus mortos, não respeita nada



Por Rosa Montero

Sempre fui fascinada pelos vários ritos funerários que o ser humano criou ao longo da história. A morte é algo tão grande e tão incontrolável, sobretudo para nós que ficamos aqui e temos que lidar com o inaudito desaparecimento de um ente querido, que somos forçados a buscar truques defensivos. E, como a morte não se deixa domesticar por meio de palavras (a verdadeira dor nos emudece), recorremos às cerimônias coletivas para encontrar consolo.

Barcos flamejantes que adentram o mar para os vikings, pirâmides e mumificações para os egípcios, cremações sagradas para os budistas, cemitérios tão monumentais que acabam sendo verdadeiras cidades da morte. E, então, as manias peculiares de cada cultura: os muçulmanos devem ser enterrados sem caixão, de lado e olhando para Meca; Os aborígines da Austrália colocam o corpo em uma plataforma, cobrem-no com folhas e o deixam apodrecer ao ar livre; no vilarejo de Sagada, nas Filipinas, os caixões são pendurados nos penhascos, porque assim ficam bem perto do céu (que lindo); e os pársis de Mumbai usam as impressionantes Torres do Silêncio, construções de pedra onde os cadáveres são depositados para que os urubus os devorem, o que, pensando bem, possui uma beleza selvagem e ecológica.


Sim, temos que fazer algo com a morte, temos que aprisioná-la com ritos precisamente para salvar a vida. É por isso que desde sempre uma das medidas mais claras da devastação causada por uma catástrofe é o fato de nos roubar essa liturgia final. Acontece nas guerras, com os mortos desaparecidos em combate; acontece nas explosões que evaporam corpos, como os acidentes de avião ou as das Torres Gêmeas. E acontece nas pandemias. Quando os cronistas das várias pestes sofridas pela humanidade queriam destacar o horror supremo do que estavam vivendo, falavam disso: dos milhares de mortos sem enterrar porque "aqueles que cavavam já não davam conta", como dizia Procópio de Cesareia na peste de 541; ou o que escreveu durante a Grande Peste de 1348 Agnolo di Tura, um morador de Siena, onde metade da população havia morrido: “Enterrei com minhas próprias mãos cinco filhos em uma única sepultura. Não houve sinos. Nem lágrimas. Isto é o fim do mundo”. Não, não houve sinos, não houve ritual, não houve uma despedida apropriada e, portanto, não houve salvação.

E isto é o mais duro, o mais devastador que está acontecendo agora com o coronavírus. Todas essas mortes, todas elas sem o consolo do velório e muitas, além disso, sem a mera possibilidade de lhes terem dito adeus. E todos esses parentes trancados na solidão de suas casas, necessitados de lágrimas amigas para molhar seus ombros e contemplando como seus mortos se convertem em um simples número no meio de uma lista. Temos que fazer algo com essa dor enorme. E isso tem que ser feito já. Quando a situação melhorar, assim que pudermos nos permitir, é preciso organizar funerais de Estado e cerimônias coletivas como os três minutos de silêncio que fizeram na China. Mas, enquanto esse momento não chega, podemos honrar os mortos de alguma maneira, fazer pequenos gestos. Pois, então, por que não colocar, por exemplo, um pequeno laço preto em nossas sacadas? Seria solidário compartilhar a dor de nossos vizinhos. E também, é claro, a esperança. Quando este artigo sair, 15 dias depois de escrevê-lo, pode ser que haja alguma iniciativa desse tipo.

Já dizia a Ilíada, esse livro de quase 3.000 anos que hoje continua a nos falar com eloquência. Quando Aquiles, envenenado pela raiva, mata em combate o nobre príncipe Héctor, comete assim a maior e mais inconcebível das iniquidades: amarra o cadáver pelos tornozelos a seu carro de guerra e a arrasta e o mantém à intempérie durante 12 dias. Uma noite, o velho rei Príamo, disfarçado, tem que ir ao seu acampamento e suplicar de joelhos ao feroz Aquiles para que lhe devolva o cadáver do filho (o que ele consegue, aliás). A Ilíada é cheia de brutalidades e degolas, mas a profanação do cadáver de Héctor é a mais atroz, é o clímax do livro. Porque quem não respeita seus mortos, não respeita nada. Nem sequer a si mesmo.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

O que um marinheiro capturado em 1522 tem a contar sobre a primeira volta ao mundo

Três historiadores redescobrem em Lisboa a declaração do jovem marinheiro da nau ‘Victoria’ capturado por portugueses, revelando dados até então desconhecidos. 

Até agora, o relato intitulado A Primeira Viagem ao Redor do Mundo, do italiano Antonio Pigafetta, era a principal fonte de informação sobre a façanha protagonizada por Juan Sebastián Elcano e outros 17 marinheiros, do total de 247 que partiram de Sevilha em 10 de agosto de 1519. Mas a redescoberta, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, da declaração do grumete da nau Victoria, comandada por Juan Sebastián Elcano, traz novos e surpreendentes detalhes sobre a aventura. O jovem Martín de Ayamonte, que foi capturado e interrogado pelos portugueses quando estava escondido em Timor após desertar da embarcação, revela em seu depoimento a força de caráter de Elcano, as táticas dos nativos para matar os espanhóis e a origem exata de alguns dos tripulantes. “É um documento indispensável para entender a façanha e é incompreensível que tenha passado despercebido na historiografia”, afirma ao EL PAÍS Tomás Mazón, um dos três especialistas que encontraram o documento e o traduziram para o espanhol. 

Em 5 de fevereiro de 1522, o jovem Martín de Ayamonte e o soldado Bartolomé de Saldaña abandonaram “sem ser sentidos” a nau Victoria na ilha de Timor, onde estava ancorada. Desertaram porque temiam morrer na tentativa de dar a volta ao mundo. Esconderam-se na selva esperando uma oportunidade de voltar às Molucas, onde estava sendo consertada outra das naus da expedição, a Trinidad. Ayamonte queria se reunir com um familiar que viajava nesta embarcação e que ia voltar para a Espanha não pelo oeste, como a Victoria, mas sim pelo leste, em direção ao México. 

Mas, sempre segundo o relato do grumete, em pouco tempo eles foram descobertos por um navio português e levados para a fortaleza de Malaca (atual Malásia), onde o marinheiro foi interrogado em 1º de junho de 1522 e onde um escrivão tomou nota de sua declaração. Este documento, que terminou em Lisboa, foi encontrado pelo historiador António Baião em 1933 e traduzido para o português moderno. Mas os historiadores espanhóis desconheciam totalmente sua existência até que Mazón, diretor do site rutaelcano.com, localizou-o no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. O especialista comunicou sua descoberta aos responsáveis pelo Arquivo Geral das Índias, em Sevilha, que o traduziram pela primeira vez para o espanhol, em parceria com o arquivista Braulio Vázquez Campos e com Cristóbal Bernal Chacón, especialista em paleografia. 

A declaração de Ayamonte contém “um relato de suma importância da expedição, por vir de um de seus tripulantes e pela quantidade e qualidade das informações fornecidas”, explica Mazón. “A história da expedição já não poderá ser contada sem esse documento, no qual, por exemplo, soubemos pela primeira vez que Juan Sebastián de Elcano fez prevalecer seu critério para a escolha do caminho de volta, contrariando a posição de seus principais oficiais”. 

Segundo o depoimento de Ayamonte, a tripulação da Victoria desejava voltar para a Espanha costeando os territórios portugueses do Pacífico, mas Elcano rejeitou a ideia, alegando que podiam ser capturados e que as monções não seriam favoráveis. Impôs seu critério com determinação. “Contra a opinião geral, afastou-se da costa porque entendia perfeitamente o ciclo das monções, o que permitiu que desse a volta ao mundo.” 

O relato do grumete revela, além disso, como na Batalha de Mactan, onde morreu Fernão de Magalhães, os indígenas colocaram armadilhas com estacas para espetar os espanhóis. Aponta também o lugar de origem de alguns tripulantes, como o capitão da nau Santiago, Juan Serrano (conhecido também pelo nome português de João Serrão), que era da localidade espanhola de Fregenal de la Sierra, na Estremadura, ou Juan de Cartagena, confirmando que era natural de Burgos, na Espanha. 

“Não sabemos o que aconteceu com o grumete”, afirma Mazón. Só se conhecem as últimas palavras dele que foram registradas ao responder às perguntas do capitão português que o interrogou, Jorge de Albuquerque: “E a nau [Victoria], quando partiu de Timor [sem ele nem Saldaña], acionava a bomba doze vezes de dia e doze vezes de noite, e o mestre e o piloto, que eram gregos, queriam vir por Malaca [território português], e o capitão [Elcano], que era vizcaíno [na verdade, era natural de Guetaria, na província de Guipúscoa, no País Basco], não quis, e a intenção deles era ir às ilhas Maldivas para corrigir [consertar] sua nau, e dali seguiriam seu caminho para essas partes [Espanha]. E não diz mais nada”. 

Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/11/05/cultura/1572951676_240875.html

domingo, 30 de julho de 2017

O VOCABULÁRIO FEMINISTA QUE TODOS JÁ DEVERIAM ESTAR DOMINANDO EM 2017


Clara Ferrero

12/07/2017



O que é sororidade? E cultura do estupro? Solucionamos todas as dúvidas neste pequeno dicionário


Se você acredita na igualdade entre homens e mulheres, você é feminista. Por mais evidente que deveria parecer a esta altura, o equívoco na hora de definir o feminismoacaba dando origem a frases como “não acho que é preciso ser feminista nem machista, porque os extremos nunca são bons nem para um lado nem para o outro” (pronunciada pela celebridade espanhola Paula Echevarria) ou “esqueçamos o machismo, o feminismo, ou a puta que o pariu” (Cristina Pedroche, mais uma celebridade espanhola). Qualquer dicionário explica que “o feminismo é a ideologia que defende que as mulheres devem ter os mesmos direitos que os homens”. Isso esclarecido, passamos a definir outros conceitos que podem ser utilizados sobre o feminismo e que continuam suscitando interrogações:

Sororidade: apesar de ser usado há mais de 40 anos, se você procurar esse termo em um dicionário, ela o remeterá para “sonoridade”, depois de afirmar que aquela palavra não está cadastrada. O que para alguns continua a ser uma espécie de erro é, na verdade, um conceito que acaba com todos os preconceitossegundo os quais as mulheres não conseguem ser amigas, que são rivais entre si por natureza ou que são mais cruéis entre elas. Nos anos 70, a escritora norte-americana Kate Millett cunhou o termo sisterhood e depois disso as feministas francesas começaram a usar sororité. Atualmente, a antropóloga e política mexicana Marcela Lagarde, uma das maiores divulgadoras do conceito em língua espanhola, o define como “o apoio recíproco entre as mulheres para se conseguir o poder para todas”. É uma aliança entre as mulheres, que proporciona a confiança, o reconhecimento mútuo da autoridade e o apoio. “Trata-se de pactuar de maneira limitada e pontual algumas coisas com cada vez mais mulheres. Somar e criar vínculos. Assumir que cada uma é um elo no encontro com muitas outras”, escreve Lagarde.

Cultura do estupro: Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma mulher é estuprada a cada 11 minutos. E esse dado se repete no mundo todo. Esse conceito se refere a uma sociedade que permite e tolera as agressões sexuais, se culpa a vítima, se banaliza o estupro ou se considera que não se trata de estupro quando o autor é o companheiro da vítima. Uma sociedade na qual o desejo masculino parece estar a cima de todos os demais e na qual, internacionalmente, apenas 5% dos julgamentos por estupro acabam em condenação, segundo o Alto Comissariado para os Direitos Humanos (ACDH) das Nações Unidas, dirigido por Louise Arbour. Coisas do tipo “é isso que acontece quando você fica bêbada ou por se mostrar demais”, os juízes que perguntam se você “fechou bem as pernas” ou os policiais que questionam as mulheres que ousam fazer uma denúncia, todos esses são exemplos de como a cultura do estupro se perpetua.

Objetificação: Reduzir uma pessoa à condição de coisa. Costuma ser utilizado em referência à objetificação sexual feminina, que não é outra coisa do que tratar as mulheres como objetos, limitando-as a seus atributos sexuais e à sua beleza física, sem levar em conta sua personalidade e sua existência como pessoa. Quando a publicidade exibe as mulheres como objetos de desfrute e de prazer para os homens, ela as objetifica. Quando os programas de televisão contratam moças deslumbrantes que apenas posam ao lado de um apresentador sem dizer nada, as estão objetificando. Quando as mulheres aparecem reduzidas a seus seios e seus traseiros, sem importar aquilo que pensam, estão sendo objetificadas. 

Pussy Hat: O famoso gorro rosa com orelhinhas se popularizou durante as marchas pelos direitos das mulheres realizadas no mundo inteiro no começo deste ano. A ideia partiu de Krista Suh e Jayna Zweiman, uma roteirista de comédia e uma arquiteta fãs de tricô que decidiram transformar a marcha das mulheres em Washington em um rio de gorros de lã cor de rosa. Seu projeto, chamado de Pussyhat Project, em resposta ao grab them from the pussy (pegá-las pela buceta) dito por Trump em uma polêmica gravação, acabou se espalhando em nível global, e até mesmo marcas como Missoni o levaram às passarelas.

Micromachismo: Se um homem diz que não cumpre as tarefas do lar porque “não sabe” ou porque “as mulheres o fazem melhor”, podemos falar em micromachismo. O mesmo ocorre quando o garçom serve a cerveja direto para o homem da mesa sem perguntar quem a pediu, ou quando entrega a conta para ele. O mansplaning (que explicamos mais adiante) também costuma ser incluído nessa categoria. O termo foi cunhado pelo psicólogo argentino Luis Bonino em 1990 para descrever um machismo de “baixa intensidade, suave e cotidiano”. No entanto, vários estudiosos, ativistas e feministas consideram que o termo não é totalmente adequado, pois “micro” minimiza o problema. Diana López Valera, autora de No és país para coños [Este não é um país para xoxotas], explicou a questão para o ELPAÍS da seguinte maneira: “O prefixo ‘micro’ para tornar a coisa mais frágil, menor. Mas, no fim das contas, tudo é machismo puro e simples. O assédio de rua é machismo; no trabalho, também. Falamos em ‘micromachismo’ para nos referir a coisas que não são tão graves como um estupro, por exemplo, mas nós, mulheres, estamos cheias desses ‘micromachismos’”.

Empoderamento: além de ter sido uma das palavras mais procuradas em 2016, o verbo empoderar se tornou uma palavra-chave para contribuir para o avanço social em busca da igualdade entre homens e mulheres. Costuma ser usado em referência à tomada de consciência do poder que as mulheres ostentam individual e coletivamente e que tem a ver com o resgate de sua própria dignidade como pessoa. Na Conferência Mundial das Mulheres, realizada em Pequim em 1995, criou-se um programa em prol do empoderamento da mulher para reforçar o aumento da participação feminina nos processos de tomada de decisões e no acesso ao poder.

Feminicídio: Assassinato de uma mulher em função de seu sexo. Trata-se de um crime de ódio contra mulheres e meninas pelo simples fato de elas serem mulheres ou meninas. Diana Russel foi pioneira no seu uso (‘femicide’, em inglês) e se costuma distinguir entre feminicídio íntimo (cometido por uma pessoa com quem a vítima tinha ou havia tido uma relação sentimental) e não íntimo (perpetrado por uma pessoa ou grupo de pessoas com quem a vítima não tinha ou não havia tido nenhuma relação sentimental ou parentesco). A campanha #NiUnaMenos, que se tornou viral em poucos meses, denuncia os crimes cometidos contra mulheres em países como Argentina ou México depois dos assassinatos, especialmente dramáticos, de Daiana garcía e Yésica Muñoz.

Masculinismo: Movimento que procura a igualdade entre o homem e a mulher da perspectiva masculina. Os masculinistas se queixam de que o feminismo busca a igualdade do ponto de vista da mulher e pretendem obtê-la defendendo os direitos e necessidades dos homens, assim como os valores e atitudes consideradas como tipicamente masculinas. Miguel Lorente, em artigo publicado no Huffpost, faz esta interessante reflexão: “A estratégia atual do machismo é o post-machismo, essa tentativa de revestir de neutralidade as suas exigências e reivindicações a fim de criar a confusão necessária que gere dúvida, passividade e faça com que tudo continue igual. E o post-machismo sabe que a batalha da linguagem é essencial para defender posições e definir realidades, daí o seu interesse, desde o começo, de se contrapor ao feminismo dizendo que este era o mesmo que o machismo. Depois de fracassar com essa comparação grosseira, inventaram a palavra hembrismo [algo como femeanismo] e ao mesmo tempo a usaram acompanhada de palavras como feminazi e mangina, para que a crítica não se limitasse às ideias e chegasse às pessoas que as propunham [...] Agora, falam em masculinismo, que aparece neutro e comparável, no seu sentido, ao conceito de feminismo. Dessa maneira, embora suas palavras cheias de ataques contra a igualdade sejam as mesmas, sua imagem é diferente, e elas se apresentam como mais proativas na busca por essa ‘igualdade real’ que se supõe dirigir as mesmas ações para homens e mulheres e, desse modo, manter a desigualdade atual, sem falar no significado histórico que deu origem à mesma”.

Violência doméstica versus violência machista: É comum encontrar nos meios de comunicação expressões como “violência machista” e “violência doméstica” sendo usadas quase como sinônimos. O Livro de Estilo do EL PAÍS especifica que “não se deve escrever violência de doméstica, e sim violência machista, violência sexista ou violência dos homens. A “violência doméstica” engloba também a praticada contra crianças.

Mansplaining: Quando um homem explica algo a uma mulher, e o faz de maneira condescendente porque dá como certo que sabe mais do que ela, podemos falar de mansplaining. Rebecca Solnit cunhou esse termo em 2008 no seu ensaio Os Homens Explicam Tudo para Mim (Cultrix) para dar nome a uma situação que ela havia vivido numa festa: um homem tentando lhe esclarecer do que se tratava um livro que ela mesma tinha escrito. Como relatava Noelia Ramírez neste artigo, “um exemplo clássico de mansplaining é o tuiteiro aleatório que explicou o que é ciência a uma astronauta da NASA. É só um, mas há muitíssimos outros. O mansplaining está tão enraizado socialmente que até a própria Solnit, uma reputada ensaísta e escritora com mais de duas dezenas de livros publicados, se flagrou duvidando do seu conhecimento e procurando na Internet dados sobre o movimento das mulheres pela paz (sobre o qual ela tinha pesquisado previamente) só porque algumas horas antes um homem a menosprezou, afirmando taxativamente que uma de suas teorias era mentira (não era)”.

Manspreading: Diz-se de quando um passageiro (homem) abre tanto as pernas ao estar sentado no transporte público que ocupa o espaço do passageiro sentado ao seu lado. Em castelhano, poderia ser traduzido como despatarre, e há alguns dias o termo ganhou destaque na imprensa porque a Empresa Municipal de Transportes de Madri anunciou a instalação de adesivos nos ônibusadvertindo contra o “despatarre masculino”. Desde 2013, diversas contas do Tumblr reúnem imagens destes homens esparramados no transporte público, como forma de denunciar seu comportamento e a invasão do espaço pessoal. O imperdível Tumblr chamado One Bro,Two Seats vai um passo além, colocando, graças ao Photoshop, qualquer objeto imaginável entre as pernas dos folgados. O termo surgiu em 2014, quando um blog de notícias de Nova York decidiu batizar essa postura como Man Spread. 

Disparidade de gênero: O Instituto Andaluz da Mulher a define como a diferença entre as taxas masculina e feminina dentro de uma variável, e se calcula subtraindo taxa feminina da taxa masculina. Ou seja, quanto menor for o índice de disparidade entre homens e mulheres, mais perto estaremos da igualdade. Normalmente se fala em brecha salarial de gênero (refere-se às diferenças salariais entre mulheres e homens, tanto no desempenho de trabalhos iguais como a decorrente da menor remuneração paga a trabalhos tidos como femininos) e desigualdade tecnológica de gênero (designa as desigualdades entre mulheres e homens na formação e no uso das novas tecnologias). Em poucas palavras, é a razão pela qual uma mulher ganha 18,8% menos que seu colega de trabalho homem fazendo exatamente o mesmo.

Patriarcado: É o sistema sociopolítico em que o gênero masculino e a heterossexualidade têm supremacia sobre outros gêneros e sobre outras orientações sexuais. Começou a ser usado nos anos sessenta e setenta, para se referir a uma sociedade na qual, além de prevalecerem os critérios dos homens (patriarcado), as pautas são ditadas exclusivamente por aqueles que consideram apenas a heterossexualidade como algo “normal”. Podemos afirmar que, hoje, é a manifestação política e visível do machismo e da rejeição às diferentes identidades e orientações sexuais.

Androcentrismo: É a visão de mundo que situa o homem como centro de todas as coisas. O macho ocupa uma posição central na sociedade, na cultura e na história. O conceito está muito relacionado com o patriarcado, mas também com a discriminação contra a mulher. Por exemplo, quando em português utilizamos palavras no masculino para nos referirmos conjuntamente a homens e mulheres, estamos sujeitos a uma visão androcêntrica que nos faz interpretar o masculino como universal.

Teto de vidro: conforme a definição da argentina Mabel Burin no artigo Uma hipótese de gênero: o teto de vidro na carreira profissional, trata-se da limitação velada à ascensão profissional das mulheres no interior das organizações. É um obstáculo invisível na carreira das mulheres, difícil de superar, que as impede de chegar a cargos de maior responsabilidade e liderança. É invisível porque não existem leis ou dispositivos sociais estabelecidos e oficiais que imponham uma limitação explícita ao desenvolvimento profissional das mulheres. O termo surgiu nos Estados Unidos na década de 1980 (glass ceiling barriers) e é o motivo pelo qual na maioria das empresas os cargos de responsabilidade continuam sendo monopolizados por homens.

Teste de Bechdel: É um método para avaliar se um roteiro de filme, série, HQ ou outra representação artística cumpre os padrões mínimos contra a brecha de gênero. Foi cunhado quando da publicação do álbum em quadrinhos Dykes to Watch Out For (“Sapatas a observar”) e deve seu nome à sua autora, Alison Bechdel. A roteirista estabeleceu as bases para reconhecer o sexismo na cultura(atualmente, seu teste é muito usado no cinema) na tira The Rule (1985), em que uma mulher diz a outra que só vai ver filmes que cumpram três requisitos: precisam ter no mínimo duas mulheres, as duas personagens precisam conversar entre elas em algum momento do filme, e quando isso acontece elas não podem estar falando sobre um homem. Aplicar a regra a qualquer filme demonstra a proeminência do discurso masculino e revela que grande parte das personagens femininas só existe como escada do protagonista homem.

Feminazi: Popularizada pelo conservador Rush Limbaugh em 1992 para criticar o feminismo militante, essa palavra é usada em sentido pejorativo para se referir a feministas tachadas como radicais, sob o argumento de que o feminismo não procura a igualdade entre homens e mulheres. Em seu livro The Way Things Ought to Be (“Como as coisas deveriam ser”), Limbaugh compara as feministas pró-aborto aos nazistas, referindo-se ao movimento como um “holocausto moderno”. Atualmente, é um insulto frequente na boca de quem pretende desprestigiar o feminismo, e muitas mulheres que lutam pelos direitos femininos são chamadas de feminazis.

Femismo: Esse neologismo é usado em português para definir o “machismo ao contrário”, ou seja, a noção de que as mulheres são superiores aos homens. Costuma ser equiparado à misandria (ódio aos homens). Mas a verdade é que não existem organizações femistas, nem um movimento femista. Portanto, é uma palavra usada pejorativamente por quem se incomoda com o feminismo.

Sexismo: Discriminação das pessoas em razão do sexo. Embora o termo seja utilizado para se referir à discriminação contra ambos os sexos, o fato é que as práticas sexistas afetam principalmente as mulheres, dada a vigência de crenças culturais que as consideram naturalmente inferiores ou desiguais aos homens. Por exemplo, quem acha que as mulheres têm menos capacidade de tomar decisões ou de ocupar postos de liderança está sendo sexista. Também é sexista a atitude de impor uma noção de masculinidade (gênero) aos homens (sexo) e uma noção de feminilidade (gênero) às mulheres (sexo).

Machismo: O machismo pressupõe que as mulheres são por natureza seres inferiores aos homens. Também poderíamos dizer que é um conjunto de crenças, práticas sociais, condutas e atitudes que promovem a negação da mulher como sujeito em diversos âmbitos. Os âmbitos nos quais o gênero feminino é marginalizado podem variar (econômico, familiar, sexual, legislativo…), e, em algumas culturas, dão-se todas as formas de marginalização ao mesmo tempo. Certas vozes apontam que o feminismo não é necessário porque já não vivemos numa sociedade machista. Embora tenham ocorrido grandes avanços em termos de igualdade, vivemos uma miragem. O machismo é a razão pela qual as mulheres não chegam aos cargos de responsabilidade ou pela qual não ganham o mesmo que seus colegas. Também é o motivo que leva as mulheres a serem maltratadas e assassinadas. Porque o machismo mata.

Misoginia: É o ódio ou aversão a mulheres e meninas. Embora sua manifestação mais evidente seja a violência machista (seja física, psicológica ou simbólica), também a humilhação, a discriminação, a marginalização e a objetificação sexual da mulher são formas de misoginia.


sexta-feira, 12 de maio de 2017

A CULTURA NEGRA IMPORTA


A cultura negra importa
Por Mireia Sentis
Do El País


Uma das respostas a por que as produções literárias, cinematográficas e televisivas dos artistas negros proeminentes do mundo anglo-saxão recebem ultimamente uma atenção maior poderia estar em Obama. Em sua campanha ele teve o especial cuidado de não se focar na raça – deveria ser o presidente de todos os americanos –, mas não há dúvida de que o fato de chegar à presidência mudou a visão que se tinha sobre a raça nos Estados Unidos. Ainda mais quando, sem necessidade de falar sobre isso, era evidente que o político mestiço havia decidido fazer parte do coletivo afro-americano. Seu casamento com uma mulher de quem se ouvia frequentemente dizerem que “era muito bonita apesar de ser negra-negra” teve o “efeito colateral” de normalizar a presença – e a beleza – da mulher negra até então ausente, com pontuais exceções, dos veículos de comunicação.



WIN MCNAMEE (GETTY)

Deixando de lado os casos da música negra, que foi aceita – após o desprezo inicial e a posterior exploração – já há décadas (com os músicos, da mesma forma que os atletas, são aplicados parâmetros diferentes; são pessoas sem classe e grupo social que agem como ponta de lança), esta (mais ou menos) aceitação atual da cultura afro-americana por parte do mainstream se forjou muito lentamente e experimentou, de acordo com as disciplinas, tempos diferentes. A literatura se descola com a narrativa de escravos, avalizada, como confirmação de sua autenticidade, por abolicionistas brancos que a publicavam com a finalidade de lutar contra a escravidão. Esses livros, muito vendidos em sua época, desapareceram com a Guerra de Secessão (Guerra Civil dos EUA). O escritor, editor e ativista que acabaria sendo conselheiro em assuntos negros do presidente Lincoln, Frederick Douglass, foi quem obteve as maiores tiragens, mas existiram muitos autores situados entre a primeira narrativa, a do marinheiro Olaudah Equiano (1789), e a última, a do educador Booker T. Washington (1901). William Wells Brown, Harriet Jacobs e Solomon Northup, cujo relato Doze Anos de Escravidão foi levado ao cinema em 2013, estão entre os nomes mais destacados. Somente no renascimento do Harlem voltou a ressurgir, sempre aos olhos do majoritário público branco, uma literatura negra.

O renascimento se deu na época da lei seca (1920-1933), quando o Harlem ofereceu lugares, os speakeasy, em que os dissidentes se reuniam em locais discretos. Lá a boemia intelectual branca descobriu a negra. O novo filão editorial perdeu continuidade com a chegada das dificuldades econômicas causadas pelo crash de 1929. Langston Hughes é o autor mais destacado do período, mas a lista é extensa: W. E. B. Du Bois, Jean Toomer, Zora Neale Hurston, Countee Cullen, James Weldon Johnson, Nella Larsen… e termina em Richard Wright, expatriado em Paris. De modo geral não foi até as lutas pelos direitos civis que se tornaram conhecidos os nomes que marcariam a próxima época de categórica afirmação negra: por um lado, os brilhantes ensaios de James Baldwin e os inspirados discursos de Martin Luther King, e, por outro, os seguidores da corrente separatista como Malcom X, George Jackson e Eldridge Cleaver. Em 1968 foi inaugurado o primeiro departamento universitário de estudos afro-americanos – uma batalha ganha na luta pelos direitos civis –, que deu espaço a pequenas editoras negras que abasteciam os estudiosos, mas também as classes populares. Logo as grandes marcas se deram conta da importância dessa clientela. Surgiram nomes de longa carreira como Amiri Baraka, Ralph Ellison e Angela Davis. Em 1993 veio o primeiro Prêmio Nobel, com a excelsa Toni Morrison —também notável editora—, que para muitos norte-americanos funcionou como um despertador.

A indústria cinematográfica seguiu seu próprio caminho. Quando os negros foram admitidos nas salas de cinema precisaram ocupar os piores lugares, coloquialmente chamados de nigger heaven. Os poucos personagens negros que apareciam nos filmes nunca ocupavam posições que não fossem de servilismo. Em 1915 estreou o filme de Griffith O Nascimento de uma Nação, tão adiantado tecnicamente como atrasado ideologicamente; era pura apologia da Ku Klux Klan. Em razão dessa constatação, o escritor e cineasta Oscar Micheaux decidiu fundar nesse mesmo ano sua própria produtora. Foi o nascimento do cinema independente negro, que produziu, até 1951, quinhentos dos chamados race films. Finalmente a audiência afro-americana podia se ver refletida em toda sua diversidade. Quando o Black Power se fez escutar, surgiu a nova geração. Na liderança, o músico, escritor e ator Melvin Van Peebles, que com Sweet Sweetback’s Baadasssss Song criou em 1971 o tipo de anti-herói irreverente e sem complexos que difundiu por todo o país os blaxploitation films. Um gênero essencialmente urbano, hoje considerado precursor cinematográfico da primeira onda do rap. Hollywood se deu conta do enorme mercado que representava um setor que não havia levado em consideração, e se apropriou do filão. Mas o cinema negro independente não desapareceu, de onde surgiram diretores tão interessantes como Charles Burnett (é extremamente recomendável o livro Charles Burnett. Um Cineasta Incômodo, 2016), Julie Dash, Robert Townsend, Carl Franklin e Spike Lee.

Como filha mais nova da indústria cinematográfica, a televisão foi crescendo. Os primeiros afro-americanos que nela aparecerem eram mostrados com todos os clichês em voga, como na comédia Amos ‘n’ Andy, mas pouco a pouco foi incorporando atores e comediantes que lotavam os cinemas com a audiência negra; no começo dos anos setenta nomes como Redd Foxx, Bill Cosby, Jimmie Walker, Sherman Hemsley e Florence Johnston estavam à frente do elenco de várias comédias. Quando em 1977 chegou à rede de televisão ABC a série Raízes, uma nova janela se abriu: existia uma história a se desenvolver e bons atores para fazê-lo. A maioria dos que apareceram nessa série, adaptação do best-seller de Alex Haley, nunca mais deixou de trabalhar em Hollywood. Em 1980 foi criada a BET (Black Entertainment Television), uma rede decididamente voltada ao espectador negro. Um de seus fundadores foi Quincy Jones, produtor, entre outros programas, do show que lançaria como ator o jovem rapper Will Smith.

Com o passar dos anos, uma presidência negra e a expansão das classes médias e média-alta entre a comunidade afro-americana (concomitante a um aumento da pobreza dentro dela), veio a aparição do Black Lives Matter, o grupo mais amplo de protesto civil desde os Panteras Negras. Embora uma de suas metas principais seja acabar com a violência sofrida pelo coletivo de cor (termo que agrupa as diversas minorias não brancas), o #BLM pede igualdade para todos, em todos os campos. A transversalidade da sua organização, prática e ideologia lhe permite se adaptar às necessidades de cada momento e lugar, inspirando assim a resistência em múltiplas áreas. A campanha #OscarSoWhite, como resultado da concessão do Oscar de 2016 (e que rendeu seus frutos no ano seguinte), é o exemplo que vem ao caso. Chamou a atenção sobre a pouca diversidade dos ganhadores dos prêmios, resultante em grande parte da configuração da Academia, cujos integrantes continuam sendo predominantemente homens brancos e de meia-idade, que não precisam prestar contas do número de filmes que veem. Um círculo fechado que já não reflete mais a realidade.
A cada ano concorrem mais produções afro-americanas, já que cresce o número de atores que depois de trabalhar em Hollywood se tornam produtores. Na última edição do Oscar, os afro-americanos levaram os prêmios de melhor ator e atriz coadjuvantes, melhor documentário, O. J. Simpson, e melhor filme, Moonlight – uma entre as várias produções negras: Loving, Estrelas Além do Tempo, Um Limite Entre Nós (admirável adaptação de uma peça teatral do premiadíssimo August Wilson), O Nascimento de Uma Nação (que revira as premissas da obra de Grfiffith...). Todos esses filmes ultrapassaram a famosa linha da cor, e espera-se que as recompensas não sejam afinal gestos simbólicos sem continuidade.

Com campos abundantemente férteis (literatura, cinema, televisão), uma presidência nas costas, uma multidão de professores universitários, poder econômico e uma poderosa história praticamente desconhecida e que pode ser contada de um ponto de vista diferente do oficial, estranho seria que “o negro” não suscitasse interesse. Se Entre o Mundo e Eu, carta-libro que Ta-nehisi Coates escreve a seu filho, teve tanta repercussão nos EUA, é porque existe uma situação de violência racial com uma configuração diferente, mas tão considerável quanto era quando James Baldwin escreveu Carta a Meu Sobrinho em 1962. A ampla acolhida de I Am Not Your Negro, o documentário que o haitiano Raoul Peck fez a partir de textos de Baldwin, demonstra a atualidade de suas palavras.

Se Paul Beatty ganhou o último Man Booker é porque já tinha nos deslumbrado com The White Boy Shuffle em 1996 e porque pertence a uma corrente literária, a satírica, que remonta a George Schuyler (Black No More, 1931) e que tem a representantes como Ishmael Reed (Mumbo Jumbo, 1972) e Darius James (Negrophobia, 1992). Colson Whitehead, que com Underground Railroad ganhou o Pulitzer e o National Book Award, seria um bom exemplo e o mais recente (há outros) de que, se a história interessa quando é contada sob um ponto de vista acadêmico, interessa ainda mais ao ser atualizada por seus protagonistas. Escolhido como livro do mês no programa televisivo da poderosa comunicadora Oprah Winfrey, reinterpreta a história do caminho secreto trilhado por escravos fugitivos, entre eles Frederick Douglass, William Wells Brown e Harriet Tubman, que será primeira mulher norte-americana a ter seu rosto impresso nas cédulas do dólar, uma nota de 20 que será lançada em breve. O romance evoca não só a situação da negritude durante a escravidão, mas também a atual. E já se fala na versão filmada, que seria dirigida por Barry Jenkins, o realizador de Moonlight.

Teju Cole (que teve seu Cidade Aberta traduzido ao português), Chimamanda Ngozi Adichie (Americanah) e a guineano-americana Yaa Gyasi, ganhadora do PEN com seu romance histórico O Caminho de Casa, são representantes da nova onda de escritores que não participam do passado comum afro-americano, a escravidão, já que eles ou seus pais nasceram na África. Trata-se de criadores que injetam pontos de vista novos, originais e críticos. Não só oferecem uma perspectiva diferente, como também podem, a exemplo de Gyasi, contar a negritude a partir do outro lado do oceano e ter uma visão mais panorâmica e desapegada do caminho seguido pelos africanos capturados e levados de um continente a outro.

A língua e a literatura se expandem e se renovam com cada grupo que entra no mainstream (judeus, italianos e hispânicos são outros casos). Mas o que tem a ver a cadência enlouquecida da corrente neohoodoo com a poética de Toni Morrison, as frases que soam como um murro de Chester Himes com a prosa deslizante de Terry McMillan? Cada grupo fornece seu tom e seus fraseados particulares, que provêm da “outra” língua, a do país de origem de seus pais (espanhol, italiano, alemão ou iídiche). O caso dos negros norte-americanos é diferente, porque essa outra língua é o inglês. Um inglês que foi ganhando forma à margem do ensino acadêmico, e que, portanto, se revestia de modismos muito diferentes. Nos anos setenta, chegou-se à decisão de que a maneira negra de falar constituía uma língua diferente, chamada Black English, ou Ebonics. Na Universidade de Berkeley, a escritora June Jordan abriu uma oficina onde se estabeleceram as regras, existentes, mas não registradas, desse idioma falado por quase 40 milhões de norte-americanos. Como disse Walter Mosley, criador do detetive Easy Rawlins: “Quase todos os negros são bilíngues”.


LEITURAS
The Sellout. Paul Beatty (Farrar, Straus and Giroux)
The Underground Railroad. Colson Whitehead (Doubleday)
O Caminho de Casa. Yaa Gyasi. (Rocco, em junho de 2017)
Entre o Mundo e Eu. Ta-nehisi Coates (Objetiva, 2015)
Una História de la Conciencia. Angela Davis. (Biblioteca Afro-Americana de Madri / Ediciones del Oriente y del Mediterrâneo, 2016)
Americanah. Chimamanda Ngozi Adichie (Companhia das Letras, 2014)
The New Jim Crow. Michelle Alexander (Boitempo, no prelo)
Cidade Aberta. Teju Cole (Companhia das Letras, 2012)
Technical Difficulties. June Jordan (Pantheon Books)
The American Evasion of Philosophy. Cornel West (The University of Wisconsin Press)


Mireia Sentís é diretora da Biblioteca Afro-Americana de Madri (BAAM).