quarta-feira, 6 de março de 2019

Kinaya Black: O que eu sou pra você?

O que eu sou pra você? / de Kinaya Black





O que eu sou pra você?
O que eu sou pra você?
Sério!
Que coisa eu sou?
Para você me usar
Guardar
Usar novamente
Na hora que quer
No dia que convém
Do jeito que prefere
24 horas depois
Nem lembra
Do que eu fui
na noite passada
Se eu sou alguém,
Não sei.
Pois eu só tenho
Esse tipo de relação
Com objetos.


LANÇAMENTO DO PRIMEIRO LIVRO DE GISELE SOUSA



LUGAR DE FALA

Não vou pedir pra falar
Em um lugar de fala
Que é meu
Vou estar presente
Em todos os lugares
Uma entidade
Assombrando
Quem ousar
Roubar
Minha voz
Ingratos
Não enxergam
O tanto que já levaram
E continuam levando
De nós.

Sinopse: Versos livres, como nós é uma coletânea de poemas afrocentrados, focados nas experiências da negritude feminina, vindos da inspiração de diversas vozes que não querem mais ter sua negritude apagada. Dividido em três partes, EXISTÊNCIA, que apresenta poemas gerais sobre o cotidiano, ESSÊNCIA, o ser feminino e seus altos e baixos na busca de se encontrar, e CONVIVÊNCIA, as idas e vindas da busca pelo sentir-se amada, aborda sobre a sexualização do corpo negro, a solidão da mulher negra, a construção de uma identidade, a resistência aos padrões opressores e o amor ao próprio ser. 


Sobre a autora: Kinaya Black é o pseudônimo de Gisele Sousa Santos, natural de Quixadá-CE.Escreve poemas, contos e romances inacabados desde quando era criança. Sempre criou personagens negras como protagonistas, para sentir que ela mesmo estivesse se aventurando, mas o  reconhecimento como escritora de literatura negra, só veio após a adolescência, quando passou pelo período de aceitação étnico racial e reconhecimento enquanto mulher negra. Atualmente dedica-se à produção literária no meio digital, onde publica contos na plataforma sweek, e poemas em sua página no tumblr. Aos 23 anos, está concluindo a graduação em letras inglês na Universidade Estadual do Ceará(FECLESC/UECE). É ativista do movimento negro com forte atuação em escolas e espaços públicos, onde realiza atividades que promovem a conscientização e a representatividade negra. Tem a escrita como mais uma das formas de resistência contra o sistema racista e sexista brasileiro, que insiste em perpetuar na nossa sociedade. Participa de alguns projetos que disseminam cultura e conhecimento para além de sua região, como a participação no Ciente- Núcleo de Divulgação Científica da UECE/FECLESC, onde é criadora de peças digitais e editora audiovisual e por quatro anos foi produtora do Encontro de Leitores do Sertão Central, maior evento literário do interior do Ceará. 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Discurso de Spike Lee no Oscar 2019

The word today is “irony.” The date, the 24th. The month, February, which also happens to be the shortest month of the year, which also happens to be Black History month. The year, 2019. The year, 1619. History. Her story. 1619. 2019. 400 years.
Four hundred years. Our ancestors were stolen from Mother Africa and bought to Jamestown, Virginia, enslaved. Our ancestors worked the land from can’t see in the morning to can’t see at night. My grandmother, [inaudible], who lived to be 100 years young, who was a Spelman College graduate even though her mother was a slave. My grandmother who saved 50 years of social security checks to put her first grandchild — she called me Spikie-poo — she put me through Morehouse College and N.Y.U. grad film. N.Y.U.!

Before the world tonight, I give praise to our ancestors who have built this country into what it is today along with the genocide of its native people. We all connect with our ancestors. We will have love and wisdom regained, we will regain our humanity. It will be a powerful moment. The 2020 presidential election is around the corner. Let’s all mobilize. Let’s all be on the right side of history. Make the moral choice between love versus hate. Let’s do the right thing! You know I had to get that in there.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

QUANDO TARSILA CHEGOU



Quando Tarsila chegou já era natal. Era uma tarde do dia 25 de dezembro de 2018. Tarsila chegou por volta das 15h. Chegou na rapidez de um mergulho, alegrando nossos olhos e enchendo de alegrias nós que tanto a aguardamos. Tarsila é uma "criança da promessa". Promessa de que tudo aquilo que se volta para a tristeza, a amargura e o ódio se desvaneça quando submetido à luz. Tarsila nos traz a luz, as tintas e as cores de uma nova vida que já não é apenas esboço, mas realidade. Tarsila nasce de uma Mãe maravilhosa. Tudo em sua volta é felicidade e abrigo. Tarsila é uma dádiva ao homem velho que lhe cheira, toca e sorri.





O RIO DE CLARICE: PASSEIO AFETIVO PELA CIDADE, DE TERESA MONTERO









sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Como Bolsonaro convenceu os brasileiros a combater moinhos de vento, por Carla Guimarães

Em um país tropical, cujo nome não quero lembrar, vivia um militar aposentado que defendia a ditadura e que acreditava que o grande erro daquele regime foi não ter matado mais vermelhos. Esse militar, em seus momentos de ócio, se dedicava a fazer campanhas políticas e até chegou a ser deputado. Em quase três décadas no Congresso, aprovou apenas duas leis de sua autoria. Sua grande contribuição, em suas próprias palavras, foi impedir que certos projetos fossem aprovados. Por causa desses projetos, passava noites em claro. “As minorias têm que se curvar às maiorias”, disse em certa ocasião. A luta contra a expansão dos direitos de mulheres, homossexuaisnegros e indígenas o consumia por completo. E assim, dormindo pouco e lutando muito, seu cérebro secou de tal maneira que perdeu o juízo. De fato, terminada sua sanidade, um estranho pensamento se instalou em sua mente: tornar-se presidente e sair pelo país com suas armas defendendo os direitos dos homens brancos e ricos. Para alcançar seu nobre objetivo, estava disposto a enfrentar o maior dos perigos, a esquerda radical.
Como foi paraquedista, decidiu se lançar no vazio das redes sociais e enchê-las com incríveis malfeitos
Como foi paraquedista em seu tempo no Exército, decidiu se lançar no vazio das redes sociais e enchê-las com os incríveis malfeitos cometidos por seu recalcitrante inimigo. Onde quer que fosse, advertia sobre o perigo da esquerda, que pretendia instaurar uma ditadura gay no país. Se os seus adversários chegassem ao poder, legalizariam a pedofilia, os bicos das mamadeiras teriam a forma de pênis e, nas escolas, as crianças heterossexuais se tornariam homossexuais por causa de um material didático apelidado de kit gay pelo militar.
Outra de suas grandes preocupações era evitar o avanço do feminismo, uma ideologia que levaria o país inexoravelmente ao apocalipse. O feminismo era capaz de transformar mulheres em monstros peludos cheios de ódio contra o gênero masculino. O objetivo desses monstros era instaurar uma ditadura feminista que, junto com a ditadura gay, perseguiria sem descanso os pobres homens heterossexuais.
Os ativistas que defendem os direitos humanos e a natureza também representavam um risco. Eram um claro obstáculo ao desenvolvimento da nação. “Hoje em dia é muito difícil ser patrão”, defendeu o ex-paraquedista não faz muito tempo. Para ele, os donos das grandes empresas e os latifundiários eram as verdadeiras vítimas esquecidas pelas ONGs. Oprimidos pelos direitos de seus trabalhadores ou pelas leis de preservação da natureza, os patrões são uma espécie indefesa que deve ser protegida. No dicionário de seus seguidores, a palavra “ativista” significava delinquente e “direitos humanos” era pouco mais que um palavrão.
Além de denunciar as terríveis injustiças que seriam perpetradas pela esquerda radical, o militar aposentado oferecia a solução para o grave problema da insegurança no país tropical. “Bandido bom é bandido morto”, gritavam seus acólitos. Seu plano inovador para melhorar a segurança era armar a população. Combater a violência com mais violência. Como ninguém tinha pensado nisso antes?
No dicionário de seus seguidores, a palavra “ativista” significava delinquente
As armas foram, sem dúvida, o grande símbolo de sua cruzada pelo país. Em suas mãos, qualquer objeto se tornou uma alusão a elas. Na falta de um objeto, seus próprios dedos imitavam pistolas e revólveres. O ex-militar fez o gesto de disparar em inúmeras ocasiões, tanto que ninguém se lembrava mais de que tinha 10 dedos. Aqueles que o viram garantiam que ele só tinha dois dedos em cada mão: o indicador e o polegar, ambos manchados de pólvora.
Apesar de se apresentar como um herói à maneira de Chuck Norris, o ex-paraquedista não pôde esconder sua maior fraqueza: o medo do debate. Toda vez que enfrentou um adversário, perdeu seguidores. Os adversários o crivavam com argumentos, disparavam-lhe ideias e o acabavam com dados. Ele estava, pela primeira vez, desarmado e indefeso, perdido no meio de um tiroteio dialético. Portanto, como bom militar, optou por outra estratégia. Quando falava, preferia fazê-lo sozinho, em um discurso; ou de maneira acordada, com um interlocutor amigável. Adorava frases de efeito, geralmente vazias de conteúdo. O discurso de ódio se tornou seu melhor aliado e tirou milhares de intolerantes do armário. Para seus fãs, o desprezo pelas minorias era sinceridade, os ataques à liberdade de expressão eram puro senso comum e a defesa da repressão policial era pragmatismo. Para justificar o discurso de ódio, o carrasco se faz passar por vítima, o perseguidor diz que está sendo perseguido e o covarde se disfarça de herói.
Para surpresa de muitos, o militar aposentado conseguiu transformar seu delírio em realidade e no primeiro dia do novo ano tomou posse como presidente do país tropical. Para os narradores que descrevem suas façanhas é quase impossível explicar como o ex-paraquedista conseguiu convencer uma grande parte da população de que os moinhos de vento eram, na verdade, gigantes.
Carla Guimarães é escritora e jornalista brasileira.