domingo, 30 de julho de 2017

O VOCABULÁRIO FEMINISTA QUE TODOS JÁ DEVERIAM ESTAR DOMINANDO EM 2017


Clara Ferrero

12/07/2017



O que é sororidade? E cultura do estupro? Solucionamos todas as dúvidas neste pequeno dicionário


Se você acredita na igualdade entre homens e mulheres, você é feminista. Por mais evidente que deveria parecer a esta altura, o equívoco na hora de definir o feminismoacaba dando origem a frases como “não acho que é preciso ser feminista nem machista, porque os extremos nunca são bons nem para um lado nem para o outro” (pronunciada pela celebridade espanhola Paula Echevarria) ou “esqueçamos o machismo, o feminismo, ou a puta que o pariu” (Cristina Pedroche, mais uma celebridade espanhola). Qualquer dicionário explica que “o feminismo é a ideologia que defende que as mulheres devem ter os mesmos direitos que os homens”. Isso esclarecido, passamos a definir outros conceitos que podem ser utilizados sobre o feminismo e que continuam suscitando interrogações:

Sororidade: apesar de ser usado há mais de 40 anos, se você procurar esse termo em um dicionário, ela o remeterá para “sonoridade”, depois de afirmar que aquela palavra não está cadastrada. O que para alguns continua a ser uma espécie de erro é, na verdade, um conceito que acaba com todos os preconceitossegundo os quais as mulheres não conseguem ser amigas, que são rivais entre si por natureza ou que são mais cruéis entre elas. Nos anos 70, a escritora norte-americana Kate Millett cunhou o termo sisterhood e depois disso as feministas francesas começaram a usar sororité. Atualmente, a antropóloga e política mexicana Marcela Lagarde, uma das maiores divulgadoras do conceito em língua espanhola, o define como “o apoio recíproco entre as mulheres para se conseguir o poder para todas”. É uma aliança entre as mulheres, que proporciona a confiança, o reconhecimento mútuo da autoridade e o apoio. “Trata-se de pactuar de maneira limitada e pontual algumas coisas com cada vez mais mulheres. Somar e criar vínculos. Assumir que cada uma é um elo no encontro com muitas outras”, escreve Lagarde.

Cultura do estupro: Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma mulher é estuprada a cada 11 minutos. E esse dado se repete no mundo todo. Esse conceito se refere a uma sociedade que permite e tolera as agressões sexuaisse culpa a vítima, se banaliza o estupro ou se considera que não se trata de estupro quando o autor é o companheiro da vítima. Uma sociedade na qual o desejo masculino parece estar a cima de todos os demais e na qual, internacionalmente, apenas 5% dos julgamentos por estupro acabam em condenação, segundo o Alto Comissariado para os Direitos Humanos (ACDH) das Nações Unidas, dirigido por Louise Arbour. Coisas do tipo “é isso que acontece quando você fica bêbada ou por se mostrar demais”, os juízes que perguntam se você “fechou bem as pernas” ou os policiais que questionam as mulheres que ousam fazer uma denúncia, todos esses são exemplos de como a cultura do estupro se perpetua.

Objetificação: Reduzir uma pessoa à condição de coisa. Costuma ser utilizado em referência à objetificação sexual feminina, que não é outra coisa do que tratar as mulheres como objetos, limitando-as a seus atributos sexuais e à sua beleza física, sem levar em conta sua personalidade e sua existência como pessoa. Quando a publicidade exibe as mulheres como objetos de desfrute e de prazer para os homens, ela as objetifica. Quando os programas de televisão contratam moças deslumbrantes que apenas posam ao lado de um apresentador sem dizer nada, as estão objetificando. Quando as mulheres aparecem reduzidas a seus seios e seus traseiros, sem importar aquilo que pensam, estão sendo objetificadas. 

Pussy Hat: O famoso gorro rosa com orelhinhas se popularizou durante as marchas pelos direitos das mulheres realizadas no mundo inteiro no começo deste ano. A ideia partiu de Krista Suh e Jayna Zweiman, uma roteirista de comédia e uma arquiteta fãs de tricô que decidiram transformar a marcha das mulheres em Washington em um rio de gorros de lã cor de rosa. Seu projeto, chamado de Pussyhat Project, em resposta ao grab them from the pussy (pegá-las pela buceta) dito por Trump em uma polêmica gravação, acabou se espalhando em nível global, e até mesmo marcas como Missoni o levaram às passarelas.

Micromachismo: Se um homem diz que não cumpre as tarefas do lar porque “não sabe” ou porque “as mulheres o fazem melhor”, podemos falar em micromachismo. O mesmo ocorre quando o garçom serve a cerveja direto para o homem da mesa sem perguntar quem a pediu, ou quando entrega a conta para ele. O mansplaning (que explicamos mais adiante) também costuma ser incluído nessa categoria. O termo foi cunhado pelo psicólogo argentino Luis Bonino em 1990 para descrever um machismo de “baixa intensidade, suave e cotidiano”. No entanto, vários estudiosos, ativistas e feministas consideram que o termo não é totalmente adequado, pois “micro” minimiza o problema. Diana López Valera, autora de No és país para coños [Este não é um país para xoxotas], explicou a questão para o ELPAÍS da seguinte maneira: “O prefixo ‘micro’ para tornar a coisa mais frágil, menor. Mas, no fim das contas, tudo é machismo puro e simples. O assédio de rua é machismo; no trabalho, também. Falamos em ‘micromachismo’ para nos referir a coisas que não são tão graves como um estupro, por exemplo, mas nós, mulheres, estamos cheias desses ‘micromachismos’”.

Empoderamento: além de ter sido uma das palavras mais procuradas em 2016, o verbo empoderar se tornou uma palavra-chave para contribuir para o avanço social em busca da igualdade entre homens e mulheres. Costuma ser usado em referência à tomada de consciência do poder que as mulheres ostentam individual e coletivamente e que tem a ver com o resgate de sua própria dignidade como pessoa. Na Conferência Mundial das Mulheres, realizada em Pequim em 1995, criou-se um programa em prol do empoderamento da mulher para reforçar o aumento da participação feminina nos processos de tomada de decisões e no acesso ao poder.

Feminicídio: Assassinato de uma mulher em função de seu sexo. Trata-se de um crime de ódio contra mulheres e meninas pelo simples fato de elas serem mulheres ou meninas. Diana Russel foi pioneira no seu uso (‘femicide’, em inglês) e se costuma distinguir entre feminicídio íntimo (cometido por uma pessoa com quem a vítima tinha ou havia tido uma relação sentimental) e não íntimo (perpetrado por uma pessoa ou grupo de pessoas com quem a vítima não tinha ou não havia tido nenhuma relação sentimental ou parentesco). A campanha #NiUnaMenos, que se tornou viral em poucos meses, denuncia os crimes cometidos contra mulheres em países como Argentina ou México depois dos assassinatos, especialmente dramáticos, de Daiana garcía e Yésica Muñoz.

Masculinismo: Movimento que procura a igualdade entre o homem e a mulher da perspectiva masculina. Os masculinistas se queixam de que o feminismo busca a igualdade do ponto de vista da mulher e pretendem obtê-la defendendo os direitos e necessidades dos homens, assim como os valores e atitudes consideradas como tipicamente masculinas. Miguel Lorente, em artigo publicado no Huffpost, faz esta interessante reflexão: “A estratégia atual do machismo é o post-machismo, essa tentativa de revestir de neutralidade as suas exigências e reivindicações a fim de criar a confusão necessária que gere dúvida, passividade e faça com que tudo continue igual. E o post-machismo sabe que a batalha da linguagem é essencial para defender posições e definir realidades, daí o seu interesse, desde o começo, de se contrapor ao feminismo dizendo que este era o mesmo que o machismo. Depois de fracassar com essa comparação grosseira, inventaram a palavra hembrismo [algo como femeanismo] e ao mesmo tempo a usaram acompanhada de palavras como feminazi e mangina, para que a crítica não se limitasse às ideias e chegasse às pessoas que as propunham [...] Agora, falam em masculinismo, que aparece neutro e comparável, no seu sentido, ao conceito de feminismo. Dessa maneira, embora suas palavras cheias de ataques contra a igualdade sejam as mesmas, sua imagem é diferente, e elas se apresentam como mais proativas na busca por essa ‘igualdade real’ que se supõe dirigir as mesmas ações para homens e mulheres e, desse modo, manter a desigualdade atual, sem falar no significado histórico que deu origem à mesma”.

Violência doméstica versus violência machista: É comum encontrar nos meios de comunicação expressões como “violência machista” e “violência doméstica” sendo usadas quase como sinônimos. O Livro de Estilo do EL PAÍS especifica que “não se deve escrever violência de doméstica, e sim violência machista, violência sexista ou violência dos homens. A “violência doméstica” engloba também a praticada contra crianças.

Mansplaining: Quando um homem explica algo a uma mulher, e o faz de maneira condescendente porque dá como certo que sabe mais do que ela, podemos falar de mansplaining. Rebecca Solnit cunhou esse termo em 2008 no seu ensaio Os Homens Explicam Tudo para Mim (Cultrix) para dar nome a uma situação que ela havia vivido numa festa: um homem tentando lhe esclarecer do que se tratava um livro que ela mesma tinha escrito. Como relatava Noelia Ramírez neste artigo, “um exemplo clássico de mansplaining é o tuiteiro aleatório que explicou o que é ciência a uma astronauta da NASA. É só um, mas há muitíssimos outros. O mansplaining está tão enraizado socialmente que até a própria Solnit, uma reputada ensaísta e escritora com mais de duas dezenas de livros publicados, se flagrou duvidando do seu conhecimento e procurando na Internet dados sobre o movimento das mulheres pela paz (sobre o qual ela tinha pesquisado previamente) só porque algumas horas antes um homem a menosprezou, afirmando taxativamente que uma de suas teorias era mentira (não era)”.

Manspreading: Diz-se de quando um passageiro (homem) abre tanto as pernas ao estar sentado no transporte público que ocupa o espaço do passageiro sentado ao seu lado. Em castelhano, poderia ser traduzido como despatarre, e há alguns dias o termo ganhou destaque na imprensa porque a Empresa Municipal de Transportes de Madri anunciou a instalação de adesivos nos ônibusadvertindo contra o “despatarre masculino”. Desde 2013, diversas contas do Tumblr reúnem imagens destes homens esparramados no transporte público, como forma de denunciar seu comportamento e a invasão do espaço pessoal. O imperdível Tumblr chamado One Bro,Two Seats vai um passo além, colocando, graças ao Photoshop, qualquer objeto imaginável entre as pernas dos folgados. O termo surgiu em 2014, quando um blog de notícias de Nova York decidiu batizar essa postura como Man Spread

Disparidade de gênero: O Instituto Andaluz da Mulher a define como a diferença entre as taxas masculina e feminina dentro de uma variável, e se calcula subtraindo taxa feminina da taxa masculina. Ou seja, quanto menor for o índice de disparidade entre homens e mulheres, mais perto estaremos da igualdade. Normalmente se fala em brecha salarial de gênero (refere-se às diferenças salariais entre mulheres e homens, tanto no desempenho de trabalhos iguais como a decorrente da menor remuneração paga a trabalhos tidos como femininos) e desigualdade tecnológica de gênero (designa as desigualdades entre mulheres e homens na formação e no uso das novas tecnologias). Em poucas palavras, é a razão pela qual uma mulher ganha 18,8% menos que seu colega de trabalho homem fazendo exatamente o mesmo.

Patriarcado: É o sistema sociopolítico em que o gênero masculino e a heterossexualidade têm supremacia sobre outros gêneros e sobre outras orientações sexuais. Começou a ser usado nos anos sessenta e setenta, para se referir a uma sociedade na qual, além de prevalecerem os critérios dos homens (patriarcado), as pautas são ditadas exclusivamente por aqueles que consideram apenas a heterossexualidade como algo “normal”. Podemos afirmar que, hoje, é a manifestação política e visível do machismo e da rejeição às diferentes identidades e orientações sexuais.

Androcentrismo: É a visão de mundo que situa o homem como centro de todas as coisas. O macho ocupa uma posição central na sociedade, na cultura e na história. O conceito está muito relacionado com o patriarcado, mas também com a discriminação contra a mulher. Por exemplo, quando em português utilizamos palavras no masculino para nos referirmos conjuntamente a homens e mulheres, estamos sujeitos a uma visão androcêntrica que nos faz interpretar o masculino como universal.

Teto de vidro: conforme a definição da argentina Mabel Burin no artigo Uma hipótese de gênero: o teto de vidro na carreira profissional, trata-se da limitação velada à ascensão profissional das mulheres no interior das organizações. É um obstáculo invisível na carreira das mulheres, difícil de superar, que as impede de chegar a cargos de maior responsabilidade e liderança. É invisível porque não existem leis ou dispositivos sociais estabelecidos e oficiais que imponham uma limitação explícita ao desenvolvimento profissional das mulheres. O termo surgiu nos Estados Unidos na década de 1980 (glass ceiling barriers) e é o motivo pelo qual na maioria das empresas os cargos de responsabilidade continuam sendo monopolizados por homens.

Teste de Bechdel: É um método para avaliar se um roteiro de filme, série, HQ ou outra representação artística cumpre os padrões mínimos contra a brecha de gênero. Foi cunhado quando da publicação do álbum em quadrinhos Dykes to Watch Out For (“Sapatas a observar”) e deve seu nome à sua autora, Alison Bechdel. A roteirista estabeleceu as bases para reconhecer o sexismo na cultura(atualmente, seu teste é muito usado no cinema) na tira The Rule (1985), em que uma mulher diz a outra que só vai ver filmes que cumpram três requisitos: precisam ter no mínimo duas mulheres, as duas personagens precisam conversar entre elas em algum momento do filme, e quando isso acontece elas não podem estar falando sobre um homem. Aplicar a regra a qualquer filme demonstra a proeminência do discurso masculino e revela que grande parte das personagens femininas só existe como escada do protagonista homem.

Feminazi: Popularizada pelo conservador Rush Limbaugh em 1992 para criticar o feminismo militante, essa palavra é usada em sentido pejorativo para se referir a feministas tachadas como radicais, sob o argumento de que o feminismo não procura a igualdade entre homens e mulheres. Em seu livro The Way Things Ought to Be (“Como as coisas deveriam ser”), Limbaugh compara as feministas pró-aborto aos nazistas, referindo-se ao movimento como um “holocausto moderno”. Atualmente, é um insulto frequente na boca de quem pretende desprestigiar o feminismo, e muitas mulheres que lutam pelos direitos femininos são chamadas de feminazis.

Femismo: Esse neologismo é usado em português para definir o “machismo ao contrário”, ou seja, a noção de que as mulheres são superiores aos homens. Costuma ser equiparado à misandria (ódio aos homens). Mas a verdade é que não existem organizações femistas, nem um movimento femista. Portanto, é uma palavra usada pejorativamente por quem se incomoda com o feminismo.

Sexismo: Discriminação das pessoas em razão do sexo. Embora o termo seja utilizado para se referir à discriminação contra ambos os sexos, o fato é que as práticas sexistas afetam principalmente as mulheres, dada a vigência de crenças culturais que as consideram naturalmente inferiores ou desiguais aos homens. Por exemplo, quem acha que as mulheres têm menos capacidade de tomar decisões ou de ocupar postos de liderança está sendo sexista. Também é sexista a atitude de impor uma noção de masculinidade (gênero) aos homens (sexo) e uma noção de feminilidade (gênero) às mulheres (sexo).

Machismo: O machismo pressupõe que as mulheres são por natureza seres inferiores aos homens. Também poderíamos dizer que é um conjunto de crenças, práticas sociais, condutas e atitudes que promovem a negação da mulher como sujeito em diversos âmbitos. Os âmbitos nos quais o gênero feminino é marginalizado podem variar (econômico, familiar, sexual, legislativo…), e, em algumas culturas, dão-se todas as formas de marginalização ao mesmo tempo. Certas vozes apontam que o feminismo não é necessário porque já não vivemos numa sociedade machista. Embora tenham ocorrido grandes avanços em termos de igualdade, vivemos uma miragem. O machismo é a razão pela qual as mulheres não chegam aos cargos de responsabilidade ou pela qual não ganham o mesmo que seus colegas. Também é o motivo que leva as mulheres a serem maltratadas e assassinadas. Porque o machismo mata.

Misoginia: É o ódio ou aversão a mulheres e meninas. Embora sua manifestação mais evidente seja a violência machista (seja física, psicológica ou simbólica), também a humilhação, a discriminação, a marginalização e a objetificação sexual da mulher são formas de misoginia.


sábado, 15 de julho de 2017

UFC CONCEDE TÍTULO DE PROFESSOR EMÉRITO A JOSÉ LINHARES FILHO

"O título que recebo me traz contentamento e incentiva-me o gosto de viver", afirmou o Prof. José Linhares Filho em trecho de seu discurso  após receber o título de Professor Emérito da Universidade Federal do Ceará, em solenidade realizada na noite dessa quinta-feira (13), no auditório da Reitoria.
José Linhares Filho e Custódio Almeida
Em sua fala, o Prof. Custódio Almeida, Vice-Reitor no exercício da Reitoria, assegurou que a concessão da honraria era ato de  reconhecimento ao "docente que ministra aulas memoráveis, o orientador sério e meticuloso, cujos ensinamentos foram repartidos entre gerações de alunos de Letras".

A Profª Odalice de Castro e Silva, escolhida para saudar o novo Professor Emérito da UFC, preferiu destacar "um pouco por experiência própria" (foi sua aluna) o muito que José Linhares Filho ofereceu à Universidade Federal do Ceará, "com sua dedicação, disciplina, na condução de aulas, palestras, conferências, no âmbito de suas atividades docentes na área de literatura portuguesa, atividades conciliadas com pesquisa, extensão, orientação e administração, conduzidas  sempre  de modo sério, criterioso e cortês com alunos e cooperadores".

Admitiu o Prof. José Linhares Filho que Letras foi sempre, para ele, "uma vocação inelutável." E relembrou as primeiras redações "efetivadas, espontaneamente, sobre temas figurados em decalcomania, as quais mereciam a aprovação e o incentivo dos pais, na distante infância em Lavras da Mangabeira". Confessou que sentia "mais facilidade e gosto em decorar os versos de um poema do que os números da tabuada", mas afirma reconhecer a importância e a universalidade da matemática, tanto que a ela dedicou uma ode. No entanto, assegura serem "mais essenciais e comoventes os valores da literatura, especialmente da poesia."

FORMADOR DE GERAÇÕES – Referindo-se  ao homenageado, a Profª Odalice de Castro e Silva afirmou que "muito aprendemos com ele, todos os que tivemos a oportunidade de partilhar de seu vasto saber, de sua vasta cultura, da leveza e segurança com que transitava entre os saberes das humanidades, vivenciando, no cotidiano de seu compromisso de humanista, as metodologias que defendia, no sentido mais profundo do termo, como no dizer do poeta Antonio Machado, 'pelos caminhos feitos ao caminhar'". O Prof. Linhares formou gerações de estudantes e pesquisadores, hoje mestres, doutores, sem jamais deixar de referir-se, com gratidão, aos seus mestres queridos, apontou.
Como para confirmar o que acabara de dizer a Profª Odalice Castro Silva, em trecho de seu discurso o Prof. Linhares citou alguns dos maiores professores do Ceará do magistério de Língua Portuguesa, de Literaturas de Língua Portuguesa, de Teoria da Literatura, de Literatura Comparada e Estilística, com os quais conviveu, "primeiro como aluno, depois como colega". E passou a enumerá-los: Moreira Campos, Artur Eduardo Benevides, Pedro Paulo Montenegro, Carlos D'Alge, José Rebouças Macambira, Antônio Pessoa Pereira, Luiz Tavares Júnior.

GRATIDÃO – O sentimento de gratidão do Prof. Linhares Filho se revelou, também, ao agradecer ao Conselho Universitário, sobretudo a seu presidente, Reitor Henry de Holanda Campos; ao Departamento de Literatura do Centro de Humanidades, e ao Conselho Departamental do Centro, por considerá-lo, em sua generosidade, digno do título outorgado. Fez um agradecimento especial à esposa, Mariazinha, e às filhas Ceiça, Mônica, Catarina e Isabel.

RECONHECIMENTO – Para o Prof. Custódio Almeida, conceder o título de Professor Emérito ao Prof. José Linhares Filho "é um preito de gratidão da Universidade", que "reconhece os méritos que sobejam em Linhares Filho, pelo vasto conhecimento amealhado na área da literatura, pelo talento como poeta e ensaísta e, acima de tudo, pela forma como se dedicou ao magistério, desde que aqui ingressou, em 1969, como professor auxiliar de ensino". Disse ainda o Prof. Custódio "que o título celebra toda uma carreira profissional dedicada a esta Casa, que Martins Filho e um punhado de bravos edificaram nos anos 50 e que chega aos nossos dias como uma grande Universidade, alinhada entre as 10 maiores e melhores do País".
Odalice de Castro Silva e José Linhares Filho

POETA-PROFESSOR – "Em Linhares, se confundem o poeta, o ensaísta e o professor. Um incorpora o outro quando, em sala de aula, discorre sobre os Sermões de Vieira, o romantismo de Almeida Garret, o realismo de Eça e Antero, os heterônimos de Pessoa", ressaltou o Prof. Custódio. "Em meio à dissecação das mais belas páginas da literatura portuguesa, há sempre um interregno sentimental, um espaço para reminiscências que o levam de volta a Lavras da Mangabeira, onde veio à luz, e onde, com certeza, deita suas raízes poéticas. Este professor-poeta, ou poeta-professor – talvez não saibamos jamais onde se esconde a primazia –, é autor de uma vasta obra, com inúmeros títulos assentados nos pagos da poesia, com incontáveis ensaios críticos, peças de oratória e páginas de memória, além de quase duas dezenas de inserções em antologias".

Ao mesmo tempo, ilumina essa produção uma fortuna crítica de alto nível, que disseca o resultado da colheita em mais de quatro décadas de andanças e marinhagens no universo literário. As apreciações sobre essa obra são abundantes e brotam de algumas das fontes mais límpidas da literatura brasileira, como Carlos Drummond de Andrade, que comentou "Frutos da Noite de Trégua", confessando: "Percebe-se que o seu 'pacífico guerreiro' tem o vigor e o talento necessário para dar ao verso toda a melodia e todo o encanto verbal".

Finalizando o discurso, o Prof. Custódio Almeida declarou o orgulho que é para a UFC tê-lo em seus quadros, "por ter contribuído de uma forma notável para que a Instituição avançasse ainda mais no terreno da excelência e na seara da responsabilidade social, fazendo-se imprescindível como tradutora dos mais ricos valores da cearensidade. Daí, o nosso sincero aplauso", concluiu.

SOLENIDADE – A mesa diretora que presidiu a sessão solene do Conselho Universitário para a entrega do título de Professor Emérito ao Prof. José Linhares Filho foi composta pelos professores Custódio Almeida, Odalice de Castro e Silva e Vládia Borges, diretora do Centro de Humanidades; pelo presidente de honra da Academia Cearense de Letras, Murilo Martins; e pelo tenente Alex Leal, representando a Capitania dos Portos do Ceará.   




Fonte: Coordenadoria de Comunicação Social e Marketing Institucional da UFC – fones: 85 3366 7331 e 3366 7938


sexta-feira, 23 de junho de 2017

PROFESSOR DE UNIVERSIDADE PÚBLICA NÃO TRABALHA?


Recentemente o professor Evandro Brum Pereira, da UERJ, fez um protesto, denunciando o descaso do Governo do Rio de Janeiro para com a educação superior, seus professores alunos e servidores. De repente, não mais que de repente, muitas pessoas o apoiaram, enquanto outras optaram simplesmente por detratá-lo. 

Sempre atenta à cena brasileira, a professora Lola Aronovich abriu o debate por meio de um texto publicado em seu blog, o qual reproduzimos aqui. O texto de Aronovich chama-se "MBL diz que professor de universidade pública não trabalha". 

De indispensável leitura, o texto de Aronovich está disponível em:


Eis o texto:

Eu lembro quando, uns cinco ou seis anos atrás, um reaça patrocinado pelo governo Alckmin para atacar pessoas de esquerda veio no meu Twitter dizer que professor universitário não trabalha. Eu só joguei pra torcida -- olha o que esse cara tá falando. A reação foi forte, e o sujeito teve que apagar o tuíte rapidinho. Afinal, qualquer pessoa minimamente inteligente sabe que professor (seja universitário, seja do ensino fundamental ou do ensino médio, seja da rede pública ou privada) trabalha pacas.

O tempo passa, o tempo voa, o Brasil está infinitamente pior do que há meia década, mas os reaças não mudam. Continuam odiando professores, que querem controlar através da Lei da Mordaça, também conhecida como Escola Sem Partido. Acreditam que todo professor é de esquerda, o que me faz pensar se essa gente já entrou numa sala de aula ou, no mínimo, numa sala de professores.
Semana passada foi a vez de outros reaças manifestarem seu ódio por professores.

Começou assim: o professor de Engenharia Química Evandro Brum Pereira, 61 anos, da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), um dos 207 mil servidores que não receberam o salário de abril, foi para a rua com um cartaz mostrando suas credenciais (mestrado, doutorado e pós-doutorado no exterior, professor na UERJ há 19 anos, fluente em inglês, francês e espanhol) e pedindo: "Alguém pode me arrumar um trabalho? Afinal, preciso pagar minhas contas".

A atitude de Evandro gerou grande repercussão, e ele recebeu várias propostas -- uma delas para lecionar no exterior. Mas recusou. Justificou-se: "Eu sou professor com dedicação exclusiva da Uerj. Amo o que faço, amo dar aula. Continuo na Uerj sim. É um apelo que a gente faz: olhem com carinho nossa situação. Tentem solucionar isso o mais rápido possível. Precisamos comer".

Evandro é um dos funcionários públicos que está sem receber seu salário depois que o Rio, enterrado pela corrupção, decretou estado de calamidade. Hoje foi publicada uma reportagem sobre aposentadas que tiveram que voltar a trabalhar (vendendo bala, por exemplo), porque seu benefício deixou de ser pago. Vários auxiliares acumularam dívidas (e, consequentemente, problemas de saúde) e vivem de doações. Grande parte ainda não recebeu o 13o salário de 2016. É uma situação desesperadora: imagine trabalhar e não ganhar salário? Não ter dinheiro para pagar as contas, que não deixam de chegar?

Bom, o MBL (Movimento Brasil Livre) decidiu pegar carona na repercussão do cartaz do professor para criar um de seus memes. Usando a imagem de Evandro (certamente sem sua autorização), o movimento escreveu: "Professor concursado recusa proposta da iniciativa privada. Lá tem que trabalhar pra receber".

Ironicamente, ninguém sabe ao certo o que o MBL faz da vida ou como sobrevive.
Sabemos que o MBL é aquele grupo que organizava manifestações para derrubar um governo legitimamente eleito e combatia a corrupção, enquanto posava ao lado de Eduardo Cunha e outros políticos não exatamente honestos. Ninguém sabe quem patrocina o MBL, pois suas contas não são nada transparentes. Obviamente não é um grupo apartidário. Uma de suas metas é o fim do PT. Há fortes suspeitas que eles têm apoio de grupos internacionais de direita (como os bilionários irmãos Koch) e de caixa 2 de partidos como o PMDB, PSDB, DEM e Solidariedade.

É um movimento de direita, isso está claro. E sabemos que a direita é contra universidades públicas e gratuitas. Um de seus líderes, Kim Kataguiri, alegou ter largado o curso de Economia na UFABC porque não tinha nada a aprender com seus professores. O guru de toda a direita brazuca, Olavo de Carvalho, é também um sem-diploma que vive falando mal das universidades brasileiras e seus professores.

Porém, o meme do MBL "dialogando" com o professor da Uerj bate recordes de mau caratismo. Não é que o professor se nega a trabalhar e quer receber. É contrário, estúpido: o professor trabalha, e não recebe. Mas a ideologia do MBL vai além: ela é contra professor concursado. Ué, reaças não são a favor da meritocracia? E querem acabar com concursos? Querem que professores e demais servidores sejam contratados como, por QI (Quem Indica)?

Depois, quando essa gentinha minúscula é chamada de "golpista" num aeroporto, vem choramingar nas redes sociais, dizendo-se hostilizada. Quando algum professor perguntar pra um desses pilantras: "Foi o seu movimento que escreveu que professor não trabalha?", o MBL vai fazer algum manifesto contra a doutrinação comunista nas salas de aula.

Mas acho importante você que é professor ou aluno ou simplesmente alguém que valoriza a educação pública saber: reaças odeiam professores. E mentem em alto e bom tom que não trabalhamos.

Diante da repercussão negativa, o MBL, como todo reaça covarde, apagou o post.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Museus prestigiam as artistas negras que a história esqueceu, por Priscilla Frank


Do huffpostbrasil

Lois Mailou Jones, "Ode to Kinshasa," 1972, mixed media on canvas, 48 x 36 in.

No primeiro dia do Mês da História Negra, fevereiro deste ano, as boas pessoas do Google abençoaram a internet com um desenho em homenagem a Edmonia Lewis, a primeira mulher de origem afroamericana e indígena americana a ser mundialmente reconhecida como escultora.
Lewis, que cresceu enquanto a escravidão ainda era legal nos Estados Unidos, ficou conhecida por suas esculturas de mármore de abolicionistas influentes e figuras mitológicas. Em parte porque ela criou todas suas esculturas à mão, hoje restam poucos originais ou reproduções intactos. Ela morreu em 1907, relativamente desconhecida, e até hoje é menos conhecida que muitos de seus contemporâneos homens e brancos.
Esta homenagem merecida a Edmonia Lewis nos levou a pensar nas outras artistas negras cujas contribuições para a história da arte foram igualmente passadas por cima ou subvalorizadas. Pedimos a ajuda de museus de todo o país, indagando quais artistas passadas e presentes merecem nossa atenção. Veja abaixo nove dessas artistas.

1. Pat Ward Williams (nascida em ​​​1948)
Pat Ward Williams, "Accused/Blowtorch/Padlock," 1986, wood, tar paper, gelatin silver prints, film positive, paper, pastel, and metal, overall: 61 13/16 × 108 1/4 × 3 in. (157 × 275 × 7.6 cm)

Pat Ward Williams é fotógrafa contemporânea, residente em Los Angeles, cujo trabalho explora a vida pessoal e política dos afro-americanos. Ela buscou inicialmente romper com o modo em que a vida dos negros normalmente era captada pelas câmeras. "Sempre aparecíamos como sendo dignos de pena, como vítimas", ela disse ao "LA Times". "Eu sabia que era uma pessoa feliz. Havia aspectos da comunidade negra que não eram mostrados."
Procurando romper com a tendência passada da fotografia de deter-se sobre a superfície, Williams incorpora outros materiais e metodologias em seu processo, produzindo colagens de materiais diversos que repunem passado e presente, história e imaginação.
Seu trabalho mais famoso, mostrado acima, traz uma foto de um negro amarrado a uma árvore, tirada de uma edição de 1937 da revista "Life". "Quem fez esta foto?", escreve Williams nas margens da foto. "Como esta foto pode existir?"
Jamillah James, curadora do Instituto de Arte Contemporânea, em Los Angeles, escreveu ao Huffington Post: "As meditações complexas e prescientes de Pat Ward Williams sobre raça, história e representação, como seu trabalho de referência 'Accused/Blowtorch/Padlock' (1986), possuem urgência e relevância especiais no clima cultural atual. Seu trabalho que combina fotografia, materiais encontrados (objets trouvés) e texto, engaja o espectador em um cabo de guerra perceptivo entre o que ele vê, suas próprias associações e o peso da história."

2. Loïs Mailou Jones (1905–1998)
Mailou Jones, "Initiation, Liberia," 1983, acrylic on canvas, 35 1/4 x 23 1/4 in. (89.6 x 59.1 cm)

Loïs Mailou Jones foi uma pintora de Boston cuja carreira farta durou 70 anos e abrangeu a América do Norte, Europa e África. Seu estilo eclético se modificou ao longo do tempo, tirando inspiração de máscaras africanas, paisagens impressionistas francesas e desenhos haitianos coloridos. Participante ativa do movimento do Renascimento do Harlem, ela usou elementos visuais vibrantes para intensificar a urgência de seus trabalhos politicamente carregados, que tratam das alegrias e dificuldades da vida negra.
"Minha exploração é silenciosa", disse a artista, "uma busca por novos significados em cores, texturas e desenhos. Embora eu às vezes retrate cenas de pessoas pobres e sofridas, pintar é uma alegria enorme."
Ao longo da vida, Jones sofreu discriminação como artista negra. Quando começou a expor seus trabalhos, pedia a amigos brancos que os levassem a exposições, procurando ocultar sua identidade negra. Ela o fazia por uma razão: segundo o "New York Times", Jones teve um prêmio rescindido quando a entidade que o concedeu soube que ela era negra.
Depois de lecionar numa escola de arte afro-americana na Carolina do Norte, onde vigorava a segregação racial, Jones acabou conquistando um cargo na Universidade Harvard, em Washington, onde lecionou por 47 anos. Continuou a pintar e expor seus trabalhos mesmo depois de se aposentar, até sua morte aos 93 anos. Embora não seja um nome amplamente conhecido, sua arte continua viva em instituições prestigiosas como o National Museum of American Art, o Metropolitan Museum of Art e o Museum of Fine Art, de Boston.

3. Alma Thomas (1891–1978)
Alma Thomas, "Antares," 1972, acrylic on canvas, 65 3/4 x 56 1/2 in. (167.0 x 143.5 cm)
Alma Thomas nasceu em Columbus, Georgia, e se mudou para Washington com sua família quando criança, para fugir da violência racial no Sul dos EUA. Interessada em arte desde a infância, ela foi a primeira aluna a formar-se na Universidade Harvard com diploma em belas-artes. Em Harvard ela estudou com Loïs Mailou Jones, mas adotou uma estética própria.
Seu estilo inclui elementos do expressionismo abstrato e da escola de cores de Washington, inspirando-se no esplendor da natureza para criar telas não figurativas, dotadas de vitalidade suave. Sua grande fonte de inspiração era seu jardim, e ela acompanhava com fascínio a mudança gradual do cenário à sua volta.
"Peguei umas aquarelas e alguns lápis de cera e comecei a brincar com eles", ela comentou. "Manchas de cores que foram se espalhando muito livremente – foi assim que tudo começou. Todas as manhãs desde então, o vento me oferece novas cores vistas através das vidraças."
Jones lecionou no ensino médio durante a maior parte da vida, criando arte em seu tempo livre. Teve sua primeira mostra aos 74 anos de idade, tornando-se mais tarde a primeira artista mulher a ter uma exposição solo no The Whitney.

4. Laura Wheeler Waring (1877–1948)
Laura Wheeler Waring, "Anna Washington Derry,"1927, oil on canvas, 20 x 16 in. (50.8 x 40.5 cm)
Filha de um pastor e uma professora, Laura Wheeler Waring cresceu em Hartford, Connecticut e se interessava por arte quando criança. Em 1914 ela viajou à Europa, onde estudou a obra dos grandes mestres da pintura no Louvre e, especificamente, o trabalho de Claude Monet. Retornando aos EUA devido às pressões da Primeira Guerra Mundial, ela lecionou e dirigiu os departamentos de arte e música da Escola Cheyney de Formação de Professores.
Embora criasse paisagens e naturezas-mortas, Wheeling é conhecida sobretudo por sueus retratos, tendo pintado americanos negros com dignidade e força. Sua série mais conhecida é "Retratos de Cidadãos Americanos Destacados de Origem Negra", de 1944, que incluiu retratos de W.E.B. Du Bois, Marian Anderson e James Weldon Johnson.
Durante o Renascimento do Harlem, Waring também contribuiu com a revista "The Crisis", da NAACP (Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor), colaborando com ativistas para promover o debate de questões políticas candentes. Um ano após sua morte, a Howard University Gallery of Art promoveu uma mostra de sua obra.

5. Barbara Chase-Riboud (nascida em 1939)
Barbara Chase-Riboud, "Le Manteau (The Cape)," 1973, cronze, hemp rope, copper.
Nascida na Filadélfia, Barbara Chase-Riboud começou a ter aulas de arte ainda criança. Quando era estudante na Escola Tyler de Arte da Universidade Temple, ela vendeu uma xilogravura do Museum of Modern Art de Nova York. Ao formar-se na universidade de Yale com um mestrado em belas-artes, Chase-Riboud já tinha uma escultura exposta no Carnegie Mellon Institute.
Ela é conhecida por suas esculturas de grandes dimensões feitas de metal fundido e cobertas por meadas de seda e lã, como crias estranhas de uma armadura e uma saia de bailarina. Fortes, fluidas e femininas e ao mesmo tempo mecânicas e naturais, as obras belíssimas tornaram-se símbolos de força feminina, além de manifestações visuais de transformação e integração.
"Adoro a seda. É um dos materiais mais fortes do mundo, tão duradouro quanto o bronze", comentou a artista. "Não é questão de um material fraco versus um material forte. A transformação que ocorre nas estelas não acontece entre dois elementos desiguais, mas entre duas coisas iguais que interagem e transformam uma à outra."
A artista, que hoje vive em Paris e Roma, é também poeta e romancista premiada, conhecida por seu romance histórico Sally Hemings (1979), sobre o relacionamento não consensual entre o ex-presidente dos EUA Thomas Jefferson e sua escrava Sally Hemings.

6. Nancy Elizabeth Prophet (1890–1960)
Nancy Elizabeth Prophet, "Untitled (Head)," ca. 1930, wood, head without base: 12 1/2 x 6 1/2 x 7 in. (31.8 x 16.5 x 17.8 cm).
Nancy Elizabeth Prophet foi criada em Rhode Island, filha de mãe afro-americana e pai indígena de origem Narragansett-Pequod. Ela estudou pintura e desenho, especialmente retratos, na prestigiosa Escola de Design de Rhode Island; para pagar a escola, trabalhou como empregada doméstica. Formou-se no período do Renascimento de Harlem.
Em 1922 Prophet se mudou para Paris, em parte por estar frustrada com o racismo deslavado do mundo das artes americanas. Chegou a Paris exaurida e sem dinheiro, mas se revigorou criativamente com a mudança de ares e começou a criar retratos esculturais com materiais como madeira, mármore, bronze, gesso e argila. O historiador de arte escreveu sobre seus trabalhos, em comentários citados na obra Notable Black American Women: "O orgulho que esta escultora sente em sua raça se resolve em uma intimação de conflito nobre marcando os traços de cada busto esculpido".
Apesar de suas esculturas serem expostas em salões da alta sociedade, Prophet continuou sem posses, fato que acabou obrigando-a a voltar aos Estados Unidos. Ali ela continuou a enviar suas esculturas a galerias e concursos, ao mesmo tempo em que lecionava arte na Universidade de Atlanta e no Spelman College. Consta que levava um galo vivo à sala de aula para ensinar seus alunos a desenhar.
Prophet acabou voltando a viver em Rode Islanda –novamente, em parte, para fugir da segregação racial--, e a partir desse momento sua vida artística se desacelerou muito. Poucas de suas esculturas têm paradeiro conhecido hoje. Uma delas faz parte do acervo permanente do The Whitney, em New York City.

7. Maren Hassinger (nascida em 1947)
Maren Hassinger, "A Place for Nature," 2011, wire rope, dimensions variable
Nascida e criada em Los Angeles, Maren Hassinger começou a dançar aos 5 anos de idade. Pretendia continuar a estudar dança no Bennington College, mas acabou optando pela escultura. Ela se formou na UCLA em 1973 com mestrado em arte com fibras.
Em seu trabalho, Hassinger reúne elementos da cultura, performance, vídeo e dança para investigar a relação entre os mundos natural e industrial. Os materiais que emprega mais comumente incluem arame, corda, lixo, folhas, caixas de papelão e jornais velhos, frequentemente dispostos de modo a incentivar o movimento, como se as próprias esculturas estivessem dançando.
Seu trabalho explora questões pessoais, políticas e ambientais numa linguagem abstrata que permite ao espectador tirar suas próprias conclusões. "Todos os trabalhos com caixas dizem respeito à nossa necessidade extrema de consumir e para onde isso nos leva", ela disse certa vez à revista de arte "BOMB". "Cadê o sentimentalismo nisso tudo? Acho que meu trabalho não tem tanto a ver com ecologia, mas focaliza elementos ou até problemas que todos compartilhamos e que nos afetam a todos."
Desde 1997 Hassinger é diretora da Rinehart School of Sculpture do Maryland Institute College of Art, em Baltimore.

8. Nellie Mae Rowe (1900–1982)
Nellie Mae Rowe, "Untitled (Two Figures and Animal," Vinings, Georgia, 1979/1980, crayon, felt-tip marker, and oil pastel on paper, "
Nellie Mae Rowe nasceu na zona rural da Georgia, uma de nova filhas. Seu pai, antigo escravo, era ferreiro e produzia cestas; sua mãe costurava roupas e colchas. Rowe se casou aos 16 anos e, após a morte de seu marido, casou-se novamente aos 36, com um viúvo. Quando este faleceu, Rowe tinha 48 anos e iniciou vida nova como mulher independente e artista.
Ela falou de seu interesse nascente pela arte como uma oportunidade de reviver sua infância. Ela começou a enfeitar a fachada de sua casa, à qual apelidou de "casa de bonecas", com animais empalhados, bonecas em tamanho natural, sebes com formatos de animais e esculturas feitas de chiclete.
Ao lado de suas instalações, Rowe criava desenhos coloridos com materiais humildes como giz de cera, cartolina e canetas hidrográficas. Suas imagens geralmente mostravam humanos e animais engolidos por desenhos coloridos abstratos, com frequência fazendo alusão a lutas pessoais de sua própria vida. Quando recebeu o diagnóstico de câncer, em 1981, Rowe canalizou suas emoções para seu trabalho, enfrentando as mudanças em seu corpo e suas atitudes em relação à morte por meio de imagens simbólicas fortes.
"Me sinto ótima por ser artista", Rowe disse certa vez, em frase que ficaria famosa. "Eu nunca soube que viraria artista. Isso é simplesmente surpreendente para mim."

9. Senga Nengudi (nascida em 1943)
Senga Nengudi "Revery - R," 2011, nylon mesh, metal springs, sand, 22 1/2 x 15 x 6 in. (57.2 x 38.1 x 15.2 cm)
Senga Nengudi nasceu em Chicago, Illinois, e mudou-se para Los Angeles, Califórnia, pouco depois. Estudou arte e dança na California State University, onde recebeu seu bacharelado em artes e seu mestrado em belas-artes. Entre um diploma e outro, passou um ano estudando em Tóquio, onde se inspirou na tradição minimalista japonesa e nos grupos de arte cênica Guttai.
Nos anos 1960 e 1970, Nengudi foi uma força fundamental no cenário da arte negra radical e vanguardista de Nova York e Los Angeles, se bem que nunca tenha chegado a ser notada realmente pelo grande público. Juntamente com David Hammons e Maren Hassinger, ela formou o Studio Z, um coletivo de artistas que compartilhavam o interesse por materiais abandonados e espaços esquecidos. O coletivo frequentemente usava fantasias e carregava instrumentos para improvisar apresentações em locais improváveis, como as passagens subterrâneas debaixo de viadutos ou em escolas abandonadas.
Seu trabalho mais icônico de performance escultural, "R.S.V.P.", usava meias-calças como material principal. Explorando a relação desse objeto corriqueiro com a pele, a constrição, a elasticidade e a feminilidade, Negudi esticou e deformou as meias-calças para que lembrassem diagramas abstratos e partes corporais flácidas. Ela frequentemente chamava Maren Hassinger, sua colaboradora, para ativar as esculturas, dançando com elas, privilegiando a improvisão como modo de ritual.
"Quando deslanchamos o trabalho, a improvisação era a ferramenta de sobrevivência: agir no momento, encontrar uma maneira de fazer algo que não havia sido feito antes, viver", disse Nengudi ao Hyperallergic. "E a tradição passa pelo jazz. O jazz é a manifestação perfeita da improvisação constante. Precisa estar presente sempre. É a adaptação constante a um ambiente hostil. É preciso decifrar alguma coisa do jeito certo."


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Fonte: http://www.huffpostbrasil.com/2017/03/20/museus-prestigiam-as-artistas-negras-que-a-historia-esqueceu/