sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Eis o candidato na praça outra vez

 

Para o bem de todos e felicidade geral da nação já está aberta a temporada de campanha eleitoral. Infelizmente, por causa da pandemia, haverá uma diminuição considerável de apertos de mão, crianças nos braços e tapinhas nas costas, entre outras demonstrações de carinho e calor humano. A ausência total ou a diminuição destes afagos pode aumentar a “fadiga da pandemia”, pois, como o eleitor vai conseguir viver sem tais afetos, não é mesmo?

As cidades, por sua vez, já sentem os efeitos das campanhas. Não importa por onde se passe, lá estão eles, os santinhos dos candidatos e candidatas a inundar com suas retóricas vazias, nomes exóticos e imagens bizarras; os canteiros centrais das avenidas, bueiros, para-brisas de automóveis, caixas de correio e frestas de desavisadas janelas.

Uma olhada rápida na lista de candidatos e candidatas constata que, entre tantos nomes, muitos são velhos conhecidos de guerra, outros tantos são novatos e outros são só sem- noção mesmo. Os tipos são os mais variados possíveis. Tem-se, por exemplo, a “dona fulana do postinho”, “sargento beltrano”, “pastor sicrano”, “o lindão da padaria”, “a amiga de sempre” etc. Em meio a tamanha diversidade, há aqueles candidatos que são reconhecidos por sua capacidade de hibernar, despertando somente a cada quatro anos, quando lembram que o povo existe e que suas contas bancárias precisam ser irrigadas. O pior dessa história é quando o eleitor ignora aqueles que representam e defendem sua comunidade, optando por candidatos que, passada a eleição, sumirão como num passe de mágica.

O candidato é um espécime curioso, sempre atento àquilo que lhe interessa. Seus movimentos são calculados e seu discurso costuma ser bem articulado, moldado em um número limitado de palavras que podem ser arranjadas para discorrer, bem ou mal, sobre qualquer que seja a temática. Quando não consegue responder sobre um determinado assunto, o candidato responde sobre outro, colocando em prática suas aulas de coaching e media training. Ao caminhar, o candidato procura apresentar uma postura firme, não necessariamente com barriga pra dentro e peito pra fora, mas tentando demonstrar liderança, empoderamento e altivez. Como nem sempre consegue, o candidato acaba andando assim, de viés.

Em época de campanha eleitoral o candidato não conhece limitações; anda por toda a cidade, sobe e desce morro, invade ônibus, trem e metrô, distribuindo sorrisos e santinhos a tudo aquilo que se mova. E se o eleitor está na feira, praia, mercado, igreja ou bar; lá também estará a figura onipresente do candidato. Entre tantos tipos, um dos mais comuns é o “Candidato caô caô”, como na canção de Walter Meninão e Pedro Butina, que em tempos de eleição sobe o morro sem gravata, bebe cachaça na vendinha, toma água da chuva, fuma bagulho e usa lata de goiabada como prato. Quando se vê isso, dizem os poetas, não resta dúvida, é mais um candidato às próximas eleições.

Assim, conforme dados do TSE, são 750 mil candidatos tentando uma vaga para os cargos de prefeito e vereador em todo o país, disputando o voto de 147, 9 milhões de eleitores. Nas eleições de 2020 serão eleitos 5.568 prefeitos, com seus respectivos vice-prefeitos e 57.942 vereadores. O eleitor que se proteja, pois os candidatos já estão na praça outra vez.


quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Aqueles que queimam livros

 

Quando a pandemia nos empurrou para o isolamento, passamos a ouvir de forma recorrente a pergunta: “ao término da pandemia, sairemos pessoas melhores ou piores?”. Chegados aos sete meses de pandemia, com um milhão de mortos no mundo todo, sendo quase 150 mil somente no Brasil, percebe-se que, se havia alguma dúvida de como sairíamos da quarentena, a resposta já nos parece bastante óbvia, com a normalização do  absurdo, a saber, praias cheias, shoppings e bares lotados, ruas e praças movimentadas. E assim, em nome do grande deus mercado, fomos apresentados ao “novo normal”, pois a economia não pode parar. Se morreu, morreu porque que tinha que morrer, diriam alguns cidadãos e cidadãs de bem.

Os que defendem coisas desse tipo são, na maioria das vezes, pessoas que também costumam bradar dizeres em defesa da família tradicional brasileira, professar alguma fé e responder com a palavra “gratidão” a cada mensagem que recebem. Algumas vezes, protagonizam cenas que fariam corar de horror, vergonha e repulsa até um frade de pedra, estejam tais pessoas em carros conversíveis, ruas ermas ou restaurantes bregas e caros. O cavalo-de-pau (ou seria aquele grande acordo nacional?) que deram no Brasil, colocou-o “Titanic” de cara para um abismo que, mais cedo ou mais tarde, o engolirá. O que se vê, no entanto, não é nada mais nada menos que o resultado de trezentos anos de escravização, criminalização dos menos favorecidos socialmente e do projeto de destruição da educação brasileira.

Assim, a cada novo dia somos tomados de indignação e espanto diante do caos que se alastra por aqui, transformando o Brasil em um arremedo de nação, numa Sucupira, uma Bruzundanga fascistóide. Das inúmeras bizarrices da semana, nos chamou a atenção o vídeo que mostra dois idosos queimando os livros do escritor Paulo Coelho na churrasqueira de casa. Ao ser questionada pela pessoa que filma acerca da razão do ato, a velha senhora diz que ele, Paulo Coelho, teria pedido “pra não comprarem os produtos do Brasil, lá fora falando mal do Brasil. Agora eu estou aqui queimando os livros dele, miserável”, disse. E, parafraseando Darcy Ribeiro, nos perguntamos: como o Brasil deu no que deu?

Inaceitável, por seu caráter bárbaro, a atitude dos idosos é pra lá de criminosa em um país carente de livros e leitores, sendo, além disso, perigosa. Na história da humanidade, já vimos livros serem queimados, e sabemos exatamente no que deu. O ato hediondo protagonizado pelo casal de velhos nos remete à narrativa Fahrenheit 451, romance distópico de Ray Bradbury (1920-2012), lançado no ano de 1953, cujo cenário é um tempo futuro no qual não se admite que as pessoas tenham suas próprias opiniões as quais, para o Estado, são hedonistas e antissociais. Nada de “Defund Lukashenko”, por exemplo. Pensamento crítico? De jeito nenhum. Logo, nada de livros. Se encontrados, arderão no fogo.


A incivilidade do ato protagonizado pelo casal de idosos nos lembra George Steiner (1929-2020) quando na obra Aqueles que queimam livros (2017), traduzida por Pedro Fonseca e publicada no Brasil pela editora Âyiné, diz:

 

Aqueles que queimam livros, que banem e matam poetas, sabem exatamente o que fazem. Seu poder é incalculável. Precisamente porque o mesmo livro e a mesma página podem ter efeitos totalmente díspares sobre diferentes leitores. Podem exaltar ou aviltar; seduzir ou enojar; estimular à virtude ou à barbárie; acentuar a sensibilidade ou banaliza-la”, pois os livros, continua Steiner, “são a chave de acesso para nos tornarmos melhores. (STEINER, 2017.p.15)

 

Assim sendo, é preciso que a sociedade esteja atenta e forte, pois aqueles que queimam livros hoje são capazes de queimar gente amanhã.

domingo, 14 de junho de 2020

Cântico negro - José Régio



Cântico negro
José Régio


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!




José Régio
pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — "Poemas de Deus e do Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.

domingo, 7 de junho de 2020

Como o Brasil deu no que deu



No momento em que escrevo, o número de mortos por Covid-19 já passa dos 35 mil. A República mal se sustenta em pé e a democracia é atacada por pessoas de quase todos os lados, inclusive por aquelas que juraram defendê-la. À noite, dezenas de fascistas, munidos de tochas, num arremedo de Ku Klux Klan tupiniquim (aqui, criamos a figura do supremacista pardo), marcham em direção ao Supremo Tribunal Federal, numa tentativa torpe e criminosa de emparedar seus ministros. São mais de 35 mil mortos. O presidente da República, eleito democraticamente, anda a cavalo e saúda manifestações antidemocráticas. O racismo estrutural e a perversidade da elite brasileira empurraram um menino negro de cinco anos de idade do nono andar de um prédio de luxo para a morte. Depois de pagar R$ 20.000 pela morte que causou, a madame pôde voltar para casa e terminar de fazer as unhas. São mais de 35 mil mortes e, pressionados pela força do poder econômico, prefeitos e governadores autorizam a abertura daquilo que, na verdade, nunca esteve fechado, o mercado. Seguimos abrindo covas. O governo nega transparência aos dados que nos dizem o número de mortos. O Brasil segue à deriva. Golpistas e reacionários formam uma “frente ampla” para combater o fascismo que eles mesmos ajudaram a chegar ao poder, perseguindo e criminalizando líderes e partidos de esquerda. A ideia não é derrotar o fascismo de coturno, mas substituí-lo por um fascismo de sapatênis. O perfil do presidente no Twitter registra uma frase de Mussolini. Nada mais é feito às sombras. “Os idiotas perderam a modéstia”.

E muita gente se pergunta como chegamos até aqui, como o Brasil deu no que deu. As tentativas de resposta para tais questionamentos são muitas e intensas, que nem caberiam nesta pobre e limitada crônica. O que sabemos desde sempre é que a desconstrução desse país, de suas instituições, educação, cultura e saúde faz parte de um projeto de longo tempo, que tem por objetivo privilegiar a elite financeira (a classe média acha que faz parte desse projeto), mantendo a população pobre como eterna escravizada, sem acesso aos bens e serviços mais básicos, que é aquilo que se espera de nações verdadeiramente democráticas, por isso mesmo submetida aos ditames e perversidades da classe rica, branca e poderosa. Na contramão do que se vê no mundo, o vice-presidente brasileiro ousa afirmar que não há racismo no Brasil. Se em vez de gastar R$ 44.000 em uma esteira o senhor vice-presidente investisse o dinheiro público em livros e em bons canais de informação, não nos indignaria tanto. Mas como sabemos, isso não é preocupação da casa-grande.

A frase que dá título ao presente texto é parte de um título maior, de um ensaio do professor Darcy Ribeiro (1922-1997). O ensaio do referido antropólogo chama-se Aos trancos e barrancos: como o Brasil deu no que deu, de 1985. Assim como Darcy Ribeiro, inúmeros outros autores tentaram (e ainda tentam) explicar como o Brasil deu no que deu, explorando as perseguições políticas, os preconceitos, os genocídios, os golpes etc.

A seguir, listamos algumas obras que são, a nosso ver, indispensáveis para a compreensão de um Brasil que se transmuta, mas na sua essência muda muito pouco. A lista dessas obras, no entanto, não segue nenhum rigor metodológico ou cronológico. É apenas uma lista posta como sugestão de leitura, sem nenhuma outra preocupação.

  1. Os Sertões, de Euclides da Cunha
  2. Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre
  3. Os Donos do Poder – Formação do patronato político brasileiro, de Raymundo Faoro
  4. Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda
  5. Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior
  6. Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado
  7. Formação da Literatura Brasileira, de Antonio Candido
  8. Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira, de Paulo Prado
  9. Carnavais, Malandros e Herois: para uma sociologia do dilema brasileiro, de Roberto DaMatta
  10. O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro
  11. Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro
  12. Os Bestializados – O Rio de Janeiro e a República que não foi, de José Murilo de Carvalho
  13. Dialética da Colonização, de Alfredo Bosi
  14. Devassos no paraíso- a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade, de João Silvério dos Trevisan
  15. O negro no Brasil, de Júlio José Chiavenato
  16. O genocídio do negro no Brasil: processo de um racismo mascarado, de Abdias Nascimento
  17. Em costas negras: uma história do tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX), de Manolo Florentino
  18. Significado do protesto negro, de Florestan Fernandes.
  19. Pequeno manual antirracista, de Djamila Ribeiro.
  20. A Invenção do Nordeste e Outras Artes, de Durval Muniz de Albuquerque Júnior
  21. Brasil: uma biografia, de Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling
  22. A Elite do Atraso: da escravidão à Lava Jato, de Jessé Souza
  23. Subcidadania Brasileira: para entender o país além do jeitinho brasileiro, de Jessé Souza
  24. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal, de Milton Santos
  25. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI, de Milton Santos e Maria Laura Silveira
  26. Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire
  27. Made in Macaíba, de Miguel Nicolelis


               Boa leitura!