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domingo, 7 de junho de 2020

Como o Brasil deu no que deu



No momento em que escrevo, o número de mortos por Covid-19 já passa dos 35 mil. A República mal se sustenta em pé e a democracia é atacada por pessoas de quase todos os lados, inclusive por aquelas que juraram defendê-la. À noite, dezenas de fascistas, munidos de tochas, num arremedo de Ku Klux Klan tupiniquim (aqui, criamos a figura do supremacista pardo), marcham em direção ao Supremo Tribunal Federal, numa tentativa torpe e criminosa de emparedar seus ministros. São mais de 35 mil mortos. O presidente da República, eleito democraticamente, anda a cavalo e saúda manifestações antidemocráticas. O racismo estrutural e a perversidade da elite brasileira empurraram um menino negro de cinco anos de idade do nono andar de um prédio de luxo para a morte. Depois de pagar R$ 20.000 pela morte que causou, a madame pôde voltar para casa e terminar de fazer as unhas. São mais de 35 mil mortes e, pressionados pela força do poder econômico, prefeitos e governadores autorizam a abertura daquilo que, na verdade, nunca esteve fechado, o mercado. Seguimos abrindo covas. O governo nega transparência aos dados que nos dizem o número de mortos. O Brasil segue à deriva. Golpistas e reacionários formam uma “frente ampla” para combater o fascismo que eles mesmos ajudaram a chegar ao poder, perseguindo e criminalizando líderes e partidos de esquerda. A ideia não é derrotar o fascismo de coturno, mas substituí-lo por um fascismo de sapatênis. O perfil do presidente no Twitter registra uma frase de Mussolini. Nada mais é feito às sombras. “Os idiotas perderam a modéstia”.

E muita gente se pergunta como chegamos até aqui, como o Brasil deu no que deu. As tentativas de resposta para tais questionamentos são muitas e intensas, que nem caberiam nesta pobre e limitada crônica. O que sabemos desde sempre é que a desconstrução desse país, de suas instituições, educação, cultura e saúde faz parte de um projeto de longo tempo, que tem por objetivo privilegiar a elite financeira (a classe média acha que faz parte desse projeto), mantendo a população pobre como eterna escravizada, sem acesso aos bens e serviços mais básicos, que é aquilo que se espera de nações verdadeiramente democráticas, por isso mesmo submetida aos ditames e perversidades da classe rica, branca e poderosa. Na contramão do que se vê no mundo, o vice-presidente brasileiro ousa afirmar que não há racismo no Brasil. Se em vez de gastar R$ 44.000 em uma esteira o senhor vice-presidente investisse o dinheiro público em livros e em bons canais de informação, não nos indignaria tanto. Mas como sabemos, isso não é preocupação da casa-grande.

A frase que dá título ao presente texto é parte de um título maior, de um ensaio do professor Darcy Ribeiro (1922-1997). O ensaio do referido antropólogo chama-se Aos trancos e barrancos: como o Brasil deu no que deu, de 1985. Assim como Darcy Ribeiro, inúmeros outros autores tentaram (e ainda tentam) explicar como o Brasil deu no que deu, explorando as perseguições políticas, os preconceitos, os genocídios, os golpes etc.

A seguir, listamos algumas obras que são, a nosso ver, indispensáveis para a compreensão de um Brasil que se transmuta, mas na sua essência muda muito pouco. A lista dessas obras, no entanto, não segue nenhum rigor metodológico ou cronológico. É apenas uma lista posta como sugestão de leitura, sem nenhuma outra preocupação.

  1. Os Sertões, de Euclides da Cunha
  2. Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre
  3. Os Donos do Poder – Formação do patronato político brasileiro, de Raymundo Faoro
  4. Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda
  5. Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior
  6. Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado
  7. Formação da Literatura Brasileira, de Antonio Candido
  8. Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira, de Paulo Prado
  9. Carnavais, Malandros e Herois: para uma sociologia do dilema brasileiro, de Roberto DaMatta
  10. O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro
  11. Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro
  12. Os Bestializados – O Rio de Janeiro e a República que não foi, de José Murilo de Carvalho
  13. Dialética da Colonização, de Alfredo Bosi
  14. Devassos no paraíso- a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade, de João Silvério dos Trevisan
  15. O negro no Brasil, de Júlio José Chiavenato
  16. O genocídio do negro no Brasil: processo de um racismo mascarado, de Abdias Nascimento
  17. Em costas negras: uma história do tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX), de Manolo Florentino
  18. Significado do protesto negro, de Florestan Fernandes.
  19. Pequeno manual antirracista, de Djamila Ribeiro.
  20. A Invenção do Nordeste e Outras Artes, de Durval Muniz de Albuquerque Júnior
  21. Brasil: uma biografia, de Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling
  22. A Elite do Atraso: da escravidão à Lava Jato, de Jessé Souza
  23. Subcidadania Brasileira: para entender o país além do jeitinho brasileiro, de Jessé Souza
  24. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal, de Milton Santos
  25. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI, de Milton Santos e Maria Laura Silveira
  26. Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire
  27. Made in Macaíba, de Miguel Nicolelis


               Boa leitura!



quinta-feira, 26 de março de 2020

A PRIMEIRA PILHA DE CADÁVERES A GENTE NUNCA ESQUECE


O número de mortos pela pandemia do Coronavírus não para de crescer. Os números são alarmantes. Na verdade, assustadores. Enquanto os homens de terno e gravata discutem como salvar a economia, as pilhas de cadáveres vão se amontoando. Pra que perder tempo pensando como salvar essa gente preta, pobre e periférica? Esse pensamento estapafúrdio, que dominou as discussões políticas na Itália ainda no início da pandemia, acabou por transformar o território italiano numa espécie de terra devastada. Lá, a morte fez sua morada. Os velhos foram abandonados para morrer e, tenta-se desesperadamente salvar o restante da população.

A quantidade de mortos produzidos pela ambição neoliberal aliada à estupidez humana e à incompetência política já se aproxima da quantidade de mortos comum somente durante as grandes guerras. Como se não bastasse, tais fatores encontraram campo fértil num período de movimentos nonsense, como a defesa do terraplanismo e os movimentos antivacinas, assim como o ressurgimento de líderes fascistas no mundo inteiro. Essa mistura explosiva, obviamente, não poderia resultar em nada de bom que se pudesse aproveitar. É o resultado da saída do esgoto de todo tipo de criatura que só consegue viver nas sombras. À luz, tornam-se ácidas, violentas e perigosas por seu caráter naturalmente destrutivo. Nada de positivo lhes é observável. Vivem no ódio e dele se alimentam. São tóxicas e infecciosas. E assim o são por serem medíocres, incapazes e incompetentes.


A Balsa da Medusa (Le Randeau de la Méduse), de Théodore Géricault


E foi exatamente isso que ocorreu no Brasil pós golpe de 2016, tendo sido alçado ao poder um grupo de pessoas completamente despreparadas para lidar com o ambiente democrático, pautando-se por disseminar notícias falsas e perseguir opositores. Em pontos estratégicos da República foram colocados meros patetas bajuladores e incompetentes. Se não me falha a memória, até guru tem. Imagine você, caro leitor, que coisa mais bizarra. No que tudo isso poderia resultar? O momento de maior comprovação do erro que foi jogar o país nesse abismo, infelizmente se dá justamente agora, em meio a pandemia apocalíptica que se espraia por sobre o mundo e ameaça varrer a humanidade da face da terra, redonda, por sinal.

Repetindo os primeiros erros cometidos pela Itália, o presidente do país sugere que a população ore bastante, pois o deus dele proverá. Afinal, deve “pensar” ele: “Deus é brasileiro”. Seria louvável que o senhor presidente ficasse em seu palácio, orando em família, e deixasse os cientistas trabalharem na tentativa de impedir o genocídio que se aproxima. Mas não, lá está vossa excelência em cadeia de rádio e televisão vomitando os maiores absurdos acerca dos cuidados que se deve ter no que diz respeito a contaminação por Coronavírus. O pronunciamento do senhor presidente foi, no mínimo, criminoso. Contudo, ele e seus asseclas continuam a desafiar as Instituições da  República que, com exceção de um ou outro nome, já demonstraram ter se acovardado. Quando se disse que a eleição de alguém com o perfil autoritário, irresponsável e incompetente do atual mandatário empurraria o país para o caos, ouviu-se com frequência que as Instituições brasileiras eram sólidas e serviriam de freio e contrapeso a qualquer arroubo de autoritarismo que pudesse advir do referido político. Como se vê, essa foi apenas mais uma daquelas historinhas para enganar incautos e bovinos em geral. 

A praga bate à porta. Em breve, muito em breve, começarão a se amontoar cadáveres. As janelas batem panelas para ouvidos moucos. Agora é tarde. É preciso salvar a economia, dizem os fascistas ricos e inconsequentes. Agora é tarde, não adianta ler Camus. E os pobres? Fodam-se. Diria aquele general. Dizem, não quero crer, que o Ministro da Saúde sugeriu chá, canja de galinha e oração para conter a contaminação. Temos um Nobel de medicina a caminho, quem diria. As igrejas estão abertas. Deus proverá.  Após se amontoar a primeira pilha de cadáveres, resultado de aglomerações em missas e cultos, algum padre ou pastor pedirá perdão. Será tarde. Empresários pressionam os governadores e prefeitos a abrirem o comércio. É preciso lucrar. Lucrar sobre cadáveres. “A carne mais barata do mercado é a carne negra”. Afinal, serão apenas 5 ou 7 mil mortos. Todos velhinhos? Cem restaurante chiques não valem a vida do meu pai de oitenta anos.

Depois da primeira pilha de cadáveres já será tarde demais. Quem viver, verá. 

Parabéns aos envolvidos.