terça-feira, 1 de outubro de 2019
segunda-feira, 30 de setembro de 2019
Carta aberta de Valter Hugo Mãe a Marcelino Freire: "Não deixe que acabem com a maravilha do Brasil".
MEU CARO AMIGO
Marcelino, tenho medo de voltar ao seu país porque cresci relutante para ser adulto e sei que me mantenho em tantas coisas apenas uma criança. Julgo que saio à rua ainda com a alegria de encontrar alguém com quem, de algum modo, possa pressentir a alegria que existia quando estávamos apenas a brincar. Eu não sei estar sozinho. Não aprecio a solidão, gosto das pessoas e não há como curar minha natureza para gostar delas. Mas agora tenho medo do seu país que eu amo. Fiquei toda a vida sonhando ser português e brasileiro, para pertencer a Machado de Assis e Fernando Pessoa. Sonhei que meu orgulho teria papel passado, como quem casa consciente, dedicado, de amor profundo, para toda a eternidade. Eu não previ este medo. Fico desolado.
Estão proibindo as pessoas de serem negras, Marcelino, proibiram de ser mulheres, Marcelino, agora decidiram proibir de ser criança e eu sabia que haveria alguma coisa que ainda me pegaria. Por isso, há muito que eu já brigava pelos negros e há muito que eu já brigava pelas mulheres, eu já brigava pelos viados todos e pelas pessoas sem explicação, tanta gente que só é, sem ter muito como entender ou fazer entender, e quer apenas estar em paz. Eu dei de barato tanta coisa sobre a paz que talvez tenha esquecido de estudar corações, o verdadeiro lugar da guerra. Sou muito despreparado. Passei pelo tempo buscando o deslumbre e vi a melhor versão de cada instante, não vi que medravam no escuro as piores intenções, os ódios que inviabilizam a humanidade. Eu, sinceramente, não vi, Marcelino.
Caminhei nessas ruas todas, tantos Estados, tantas capitais, e eu não dei conta desse ódio. Notei os sorrisos, o samba, o jeito generoso das garotas e de alguns garotos olhando para minha pouca beleza, eu notei os livros, tanta Literatura maravilhosa e a obra do Tunga e Artur Bispo do Rosário bordando as vestes para alindar seu encontro com Deus. Marcelino, no Brasil eu senti invariavelmente que Deus era possível. Sabe quando você se depara com algo perfeito e isso só pode ser graça de uma inteligência superior? Eu vi uma arara azul gigante, devia ter mais de um metro, e ela era mesmo um atributo mágico do mundo, estava livre no cimo de uma árvore na floresta amazônica.
Naquele encontro, eu consumei tudo, Guimarães Rosa e Elza Soares, Tarsila do Amaral e Fernanda Montenegro mais Marília Pêra e Walter Salles, e Darcy Ribeiro mais Heitor Villa-Lobos, e Cartola com Cildo Meireles e Adriana Varejão. Mais Gal Costa e Mônica Salmaso e Paulo Freire lendo a mão de Chico César genial. Eu entendi que Brasil significa beleza e uma profunda esperança. Juro. Parecia uma experiência mística, como se algum espírito me informasse e eu virasse um mensageiro sagrado. Eu elogiei o Brasil em todas as ocasiões porque eu acreditei, e acreditei que minha mensagem era sagrada. Você acha que um espírito me enganaria? Viria sobre mim de propósito para me iludir?
Marcelino, eu não consumei minha adultez, sou apenas um menino, fui sempre ao seu país para encontrar mais amigos e brincar um pouco de ser feliz. Lembra de gostarmos tanto de Manoel de Barros? Eu sei exatamente a razão de gostar tanto da poesia de Manoel de Barros. Ele usa pássaro e amigos e seus versos foram os melhores brinquedos. Minha história é rigorosamente igual. Não tinha muito mais. Pais, irmãos, amigos, os pássaros voando, versos. O lugar de guardar tudo é o verso. O único sentido de ter verso é amar gente e cuidar de pássaro livre.
Estão atirando sobre as crianças e alguém me diz que apenas as negras, são apenas as crianças negras, mas eu duvido que parem por aí. Nós, as crianças mais claras não estamos na linha do tiro? Nem que seja por vergonha, vamos morrer também se não dissermos nada, se não fizermos nada. E se as crianças negras viraram proibidas, que legitimidade teremos nós? Sabe, Gilberto Freyre explicou tão certinho que os portugueses são os mestiços da Europa. Eu tenho sangue árabe, africano e europeu. Sou uma porção de cada coisa e minha pena é não lembrar, só minhas células sabem.
Você sabe a razão para rejeitarem os negros para as periferias? Eu não descobri. As casas do centro não têm tamanho para negros? Eles são maiores? Aumentam quando dormem? Quando sonham? Ficam derrubando paredes, perigando as fundações dos prédios? Eu acho que não. Eu vi um moço entrando na livraria à minha frente, coube na porta melhor do que eu. Você acha que tem alguém obrigando a que ele corra para a periferia depois de pagar o seu livro? Eu não posso acreditar. Que pena que eu não falei com ele, devia ter perguntado. Talvez me contasse de como fica infinito sonhando, ao ponto de perturbar o silêncio, tremer o prédio, causar fumo. Você já pensou se nossos sonhos também fizessem isso? Eu ia querer, Marcelino. Eu ia querer que meus sonhos fossem tão grandes. Mas sonho só com a paz. Estar sossegado com minha família e meus amigos. Notar os pássaros voando.
Marcelino, façamos uma jura de não morrer durante o plano de nos matarem. Não somos senão ternuras gigantes, guerreiros açucarados, eu entendi que nós precisamos de um pacto poético para embravecer nossa cidadania. Você, que é meu amigo e escritor que tanto admiro, não me falte nunca desse lado. Cuide de Chico Buarque e de Caetano Veloso, por favor, em qualquer cabeça sã do mundo eles representam o Deus possível. Cuide de Maria Bethânia. De Sônia Braga. Diga a Davi Kopenawa e a Ailton Krenak que a floresta vai sempre amá-los, diga que a arara me garantiu. Marcelino, fico ouvindo Rodrigo Amarante e quase ainda acredito em tudo outra vez (Rodrigo é perfeito. Poderia ser a própria arara). Quase perco o medo. Vista também sua roupa de super-herói e sobreviva. Você tem de manter a maravilha do Brasil. Não deixe que acabem com a maravilha do Brasil. Se resistirmos, nossa delicadeza vai ser uma lição resplandecente, e vamos ficar mais belos que os modelos nos filmes gringos. Vamos, sim, Marcelino.
Haveremos de devolver o futuro às crianças. E seremos sempre futuros também. Só quem desistiu passou a ocupar seu canto no passado. Marcelino, reassumo meu compromisso com a esperança. Vou escolher sempre minha vida como lugar de semente. No meu medo, Marcelino, muita coragem vai germinar.
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The Cambridge Companion To The Rolling Stones, edited by Victor Coelho and John Covach
An academic study of the Stones is tone-deaf both to the band’s music and their mystique
North American academia is currently all over pop culture. A course on
Lady Gaga (Sex, Gender and Identity) offered by the University of Virginia is
one example of what’s going on; another is the recent slew of tomes on the
Beatles, Dylan and even the Clash emanating from campus corridors. Most shed
little light on their already well-covered subjects (Why Dylan Matters by Harvard Latin
don Richard F Thomas is an exception), and this self-styled “first major
academic study” of the Stones likewise comes up short. The group have had many
companions down the years, but surely few as dull.
The dead hand of academic prose is
one problem; the assertion that the band’s assorted documentaries are
“instructive in terms of demonstrating the central influence of the Stones
within the world of motion pictures” is barely readable (and a clear misjudgment).
Another poser for the profs is that
pop is rarely about music alone. Attitude, vibe, haircut, mascara, madness and
live performance are potent ingredients of a mystique best captured by
allusive, not analytical writing. That goes double in the case of the Stones
whose core mythology is Mick Jagger as ambi-sexual demon Jack Flash with Keef
and Ronnie as genial guitar-toting pirates holed up with a kif pipe, a line and
a lamp draped in a Tibetan prayer shawl. Try getting a module out of that.
Describing Jagger’s place as frontman – a veritable dervish, as much athlete
and bump’n’grind artiste as musician – we’re told that his “lithesome dancing”
involves “repeated Latin pelvic thrusts”. No shit, Sherlock! Who knew? (About
Mick’s Puerto Rican heritage, that is.)
The collection is on firmer ground
when considering the Stones on record. There’s an entertaining look at a clutch
of Stones country songs (Dead Flowers et al), a decent
reassessment of their psychedelic period (Jumpin’ Jack Flash as well as Their
Satanic Majesties Request) and a welcome upgrade for Brian Jones as
founder, world music maverick and the group’s true dandy.
The couple of pages granted the
Stones’ 60s singles are woefully inadequate. Songs such as Mother’s Little
Helper and Play With Fire are more than reflections of “mod London”, they are
vignettes of a society in transition, when depressed mums took up pill habits
and St John’s Wood heiresses rubbed shoulders with pop stars and celebrity
gangsters.
Most of the book’s firepower is
directed at the central album quartet of Beggars Banquet (1968), Let
It Bleed (1969), Sticky Fingers (1971) and Exile on Main Street (1972), all
given sound but pedestrian readings, with much cooing over Mick Taylor’s guitar
solos. Since then, the Stones have barely made a coherent album, though
the Companion is excited by the disco influences on
1978’s Some Girls. There is, naturally, oodles
about the blues, a subject already well represented in faculty libraries,
though scant mention of the Stones’ epiphanic encounter with Muddy Waters at
Chicago’s Chess Studios in 1964. Of the strong reggae flavours on 1970s albums
like Black and Blue there is also no word.
Given that today’s culture wars are
waged with particular vigour on North American campuses (sex, gender and
identity indeed), one might also have expected a discourse on the place of women
in Stones songs, the offending (to some) litany running from Stupid Girl and
Under My Thumb to Brown Sugar and Some Girls, but the sole female voice among
the nine here is otherwise engaged. The question why anyone would want to write
a song celebrating a serial killer of women (Midnight
Rambler) doesn’t arise; maybe it’s just what Richards calls “a blues
opera”.
It’s difficult to understand the
crossfire hurricane that propelled the Stones during their 1968-72 pomp without
considering Performance (1970), a glaring
omission here. True, the film and its soundtrack are not a Stones venture, yet
writer Donald Cammell’s tale of faded pop star (Jagger) and East End gangster
(James Fox) remains, in the words of Marianne Faithfull, a perceptive real-life
Stones companion, “an allegory of libertine Chelsea with its baronial rock
stars, wayward jeunesse dorée, drugs, sex and decadence… a whole
era under glass”.
Shot through with esoteric
ideas, Performance built on Jagger’s infatuation with his dark
side, apparent since Sympathy for the Devil (or “some little twerp dancing
round thinking he’s Satan”, according to Ry Cooder, a player on Let It
Bleed and Performance). Jagger’s character, Turner, is an
amalgam of Jones and Richards, a matrix compounded by leading lady Anita
Pallenberg, Richards’s then partner (and Jones’s ex). Keith and Anita’s descent
into junkiedom was among what Faithfull terms the film’s “deadly aftereffects”.
Surely worth a doctoral thesis, then?
The Stones’ attitude to academia was
mocking rather than hostile. Mick, Keith and Brian were all ex-grammar school
boys, respectively LSE undergrad, art-school dropout and trained musician. An
early interviewer was perplexed by how such fine educations could result in
their moronic reputation. “There are a lot of morons in grammar schools,” shot
back Mick.
This
review is from the Observer
• The
Cambridge Companion to the Rolling Stones, edited by Victor
Coelho and John Covach, is published by Cambridge University Press (£15.99). To
order a copy go to guardianbookshop.com or call 0330 333
6846. Free UK p&p over £15, online orders only. Phone orders min p&p of
£1.99
Disponível em: https://www.theguardian.com/books/2019/sep/30/cambridge-companion-to-rolling-stones-victor-coelho-john-covach-review
sexta-feira, 27 de setembro de 2019
Refrigerante e política: Pepsi, Coca-Cola e segregação racial
Por Luis Gustavo Reis
Pragmatismo Político
20 de setembro de 2019
Disponível em: https://www.pragmatismopolitico.com.br/2019/09/refrigerante-e-politica-pepsi-coca-cola-e-segregacao-racial.html
Pragmatismo Político
20 de setembro de 2019
O título do artigo pode soar estranho à primeira vista, até porque qual
seria a relação de uma bebida açucarada com um sistema político? A propósito,
de qual segregação racial estamos falando? Um pouco mais de paciência, caro
leitor, já iremos colocar os pingos nos is, ou melhor, fechar as garrafas com
suas respectivas tampas.
Muitos já tomaram ou tomam refrigerante com regularidade. De variadas
cores e sabores, o gaseificado é um dos produtos mais consumidos do mundo.
Calcula-se que a indústria de refrigerantes bateu recordes em 2017, com
faturamentos que ultrapassam 61 bilhões de dólares. Cerca de 28% dessa quantia
é originada da bebida mais vendida, a Coca-Cola. O segundo lugar no ranking,
ostentando 10%, é ocupado pela arquirrival Pepsi.
A relação do ser humano com águas gasosas é antiga, remonta ao século IV
a.C. Nesse período, Hipócrates, considerado o pai da medicina, recomendava aos
gregos banhos regulares em águas minerais gasosas para curar determinadas
moléstias. Encontradas em diferentes regiões da Grécia antiga, os enfermos não
tinham dificuldades em esbaldar-se em alguma fonte que cruzassem pelo caminho.
A prescrição, porém, era circunscrita ao banho e não era indicada ingestão.
Somente no alvorecer do século XVI que a água gasosa passou a ser
ingerida e popularizada em diferentes regiões da Europa. Devido à grande
demanda pelo líquido, que, à princípio, era extraído de fontes naturais do
vilarejo de Spa, na Bélgica, diversos alquimistas passaram a pesquisar formas
de recriar o produto artificialmente.
Por volta de 1773, depois de sucessivas tentativas, estudiosos
desenvolveram uma bomba que fixava gás carbônico à água. Daí até a
industrialização do produto foi um salto, sobretudo porque coincidiu com a
Revolução Industrial que avançava a passos largos. Passado o tempo, algumas
pessoas acrescentaram açúcar, raízes e frutos à água, tais como gengibre e
limão.
O invento atravessou o oceano e chegou aos EUA, onde muitas farmácias
ostentavam em seus balcões uma bomba que gaseificava a água instantaneamente,
deixando ao gosto do freguês o sabor que desejava provar. A bebida que fazia
mais sucesso era a “soda”, como ficou conhecida a mistura com limão.
Refrigerante e medicina, portanto, sempre andaram juntos. Como o produto
foi desenvolvido por químicos e tinha finalidades medicinais, sua
comercialização ocorria principalmente em farmácias. E foi numa dessas boticas,
nos últimos anos do século XIX, que surgiu a Coca-Cola, o refrigerante mais
popular do planeta.
Símbolo da harmonia familiar e da fraternidade universal, conforme
versam seus comerciais desde tempos remotos, a Coca-Cola surgiu num país
segregado, cindido por leis racistas. A abolição da escravidão nos Estados
Unidos, em 1863, não foi suficiente para a população negra ser integrada à
sociedade em condições de igualdade. A ideia de superioridade do homem branco –
defendida por diversos cientistas do século XIX – deu suporte para que, em
diversos estados norte-americanos, fossem aprovadas leis de segregação racial.
Tais leis determinavam onde os negros deveriam morar, estudar, trabalhar e os
lugares que poderiam frequentar. Havia segregação nos meios de transporte,
espaços públicos e muitos estados proibiam o casamento entre negros e brancos.
A indústria de refrigerantes também foi afetada por essa atmosfera e calculou
precisamente de qual lado estaria e os lucros que iria auferir.
Não é novidade que a cocaína era um dos ingredientes da Coca-Cola (daí o
nome “Coca”, inclusive), item que já foi até objeto de chacota em comerciais de
seus concorrentes. Em 1899, a Coca saiu das farmácias, passou a ser vendida em
garrafas de vidro e já não era mais uma bebida medicinal, mas um produto
“refrescante”.
Mas a história polêmica e pouco conhecida ocorreu quando os negros
começaram a consumir o refrigerante, no começo do século XX, e foram
sistematicamente hostilizados pelos brancos. Protestos foram organizados,
cartas, reclamações e ofícios enchiam o serviço postal de membros do governo e
diretores da Coca para que proibissem imediatamente a venda e a distribuição do
produto em redutos da comunidade negra estadunidense. Segundo os reclamantes,
ao consumirem Coca-Cola, os negros poderiam viciar na cocaína contida no
refrigerante e passar a aterrorizar, espancar e matar a população branca. Os
jornais de Atlanta alarmavam, por exemplo, que assaltos aumentariam, sequestros
seriam frequentes e mulheres brancas sofreriam estupros cotidianos.
Ante ao pandemônio, a Coca-Cola retirou a cocaína da fórmula e passou a
usar folhas de coca já processadas – sem a droga inserida – e inseriu mais
açúcar e cafeína. Além disso, proibiu a venda do produto em estabelecimentos
frequentados por negros. Os marqueteiros da empresa, fieis defensores das leis
segregacionistas, aproveitaram o ensejo e criaram campanhas publicitárias para
enaltecer a população branca e proibir o consumo pelos negros.
Movida por interesses financeiros, aproveitando a abertura de um mercado
promissor refutado pela concorrente, a Pepsi-Cola, que ainda engatinhava em
suas atividades, e apostava num refrigerante mais adocicado, vendido em
vasilhames maiores pelo mesmo preço, intensificou sua publicidade e passou a
distribuir fartamente a mercadoria em comunidades negras.
Entre 1940 e 1950, a Pepsi adotou uma nova estratégia de marketing:
formou uma equipe de profissionais negros, cujo objetivo era criar estratégias
que atraíssem e estimulassem o consumo dos afro-estadunidenses. O programa
ficou conhecido como “mercado negro”.
Vendedores negros, todos eles uniformizados com as cores e o distintivo
da empresa, passaram a perambular pelas ruas do chamado Cinturão Negro do Sul
(Black Belt) e em áreas urbanas do Norte do país onde se concentrava a
população afro para oferecer o refrigerante.
Além disso, modelos negras perfilavam nas propagandas; mostruários
personalizados e cartazes eram fixados em lojas frequentadas por negros. Até
mesmo o famoso compositor de Jazz, Duke Ellington, e o diplomata, mais tarde
Prêmio Nobel, Ralph Bunche, ambos negros, foram contratados como porta-vozes da
empresa.
A campanha era tão feroz, que funcionários da Pepsi passaram a divulgar
mensagens de cunho racista proferidas por Robert W. Woodruff, o então
presidente da Coca-Cola.
O resultado da empreitada foi exitoso, pois muitas pessoas passaram a
associar a Pepsi aos negros e o consumo do refrigerante disparou.
Durante a década de 1950, as vendas da Pepsi aumentaram
vertiginosamente, acabando por ultrapassar a Coca-Cola na comunidade negra com
uma margem de três para um. Anos mais tarde, a estratégia da empresa seria
conhecida como “publicidade de nicho”, uma abordagem para criar um lugar
distinto no mercado – técnica usada hoje por diversas empresas.
A lua de mel entre a Pepsi e os negros tinha prazo de validade. Temendo
perder consumidores brancos, a empresa decide suspender o programa e passa a
investir numa imagem moderna, descolada e ligada ao público jovem, valorizando
a integração e diversidade das pessoas que participavam de suas campanhas.
Tempos mais tarde, sem muito alarde, a Coca passa a vender seu produto
nas comunidades negras. Num esforço para desassociar a imagem racista do
passado, começa a apoiar organizações estadunidenses que promovem a valorização
do negro, entre elas Associação Nacional para o Progresso
das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês), fiel defensora da
multinacional e uma das maiores entusiastas de seus programas sociais.
No ano 2000, após funcionários denunciarem racismo no interior da
empresa, a Coca fechou um acordo judicial no valor de US$ 156 milhões de
dólares e doou US$ 50 milhões para a Fundação Coca-Cola apoiar programas
comunitários, vários deles em vigor no Brasil.
Atualmente, não há divisão entre os fabricantes de refrigerante pelo critério
racial. Negros estadunidenses, inclusive os que moram no Sul, figuram entre os
maiores consumidores de Coca-Cola do país. A maior parte deles, vale destacar,
não conhece ou pouco se importa sobre a relação da marca de refrigerante com a
segregação racial.
Resgatar essa história não tem o objetivo demonizar a Coca-Cola e
valorizar a Pepsi, mas sim de servir de reflexão. Empresas são movidas por
interesses, seus operadores tem faro oportunista e onde há cheiro de lucro, lá
estão os sabujos para lamber o butim.
DISCURSO INÉDITO DE MARIELLE FRANCO
No dia 27 de março de 2018, é a
votação do Plano Municipal de Educação, na Câmara Municipal do Rio de
Janeiro. O plano estabelecerá as
diretrizes da educação e suas prioridades no Rio nos próximos 10 anos.
O discurso de Marielle já
estava sendo feito antes de ser assassinada e a equipe do mandato Marielle
Franco disponibilizou o texto. O
companheiro Tarcísio Motta irá lê-lo no Plenário, durante a votação.
No Brasil inteiro, a educação
vem sofrendo um boicote por uma ideologia da intolerância e do desrespeito,
principalmente em relação à igualdade de gênero. Não está sendo diferente aqui no Rio. Estão tentando retirar a
palavra "gênero" do Plano para que não haja o debate nas escolas
sobre igualdade entre homens e mulheres, meninas e meninos.
Confira o discurso que Marielle
iria fazer.
"Boa tarde à todas e todos,
O Brasil é o quinto país que mais mata mulheres no mundo.
Os números são assustadores: em 2016, foi registrada uma violência
contra mulher a cada 5 horas no Estado do Rio de Janeiro.
Mas também sabemos que estes números são apenas de parte das mulheres
que conseguiram, de algum modo, buscar auxílio e denunciar.
E eu pergunto à vocês: seguiremos nos recusando a falar sobre igualdade
de gênero? Até quando?
O debate sobre a nossa igualdade é urgente no mundo, no Brasil e no
município do Rio de Janeiro!
Enfrentar este debate é nos comprometermos com a democracia e com nosso
avanço civilizatório.
Falar de igualdade entre mulheres e homens, meninas e meninos, é falar
pela vida daquelas que não puderam ainda se defender da violência. E são muito
mais das 50.377 registradas em 2016, aqui, no Rio.
Diferente do que se fala ou, infelizmente, do que se acostuma ver em
Casas Legislativas, como esta, não somos a minoria. Somos a maior parte da
população, ainda que sejamos pouco representadas na política.
Ainda que ganhemos salários menores, que estejamos em cargos mais
baixos, que passemos por jornadas triplas, que sejamos subjulgadas pelas nossas
roupas, violentadas sexualmente, fisicamente e psicologicamente, mortas
diariamente pelos nossos companheiros, nós não vamos nos calar: as nossas vidas
importam!
No Brasil, segundo o IPEA (2016). As mulheres negras brasileiras ainda
não conseguiram alcançar nem 40% do rendimento total recebido por homens
brancos. E somos nós, mulheres negras, que mais sofremos violências
diariamente.
Só quem acha que isso é normal é quem não sofreu no corpo o machismo e
o racismo estrutural. Quem acha que isso não merece ser debatido na nossa
educação é porque se benefecia das desigualdades.
Por isso, quero deixar registrado que essa Casa, ao retirar os termos
“gênero”, “sexualidade” e “geração”, fortalece a continuidade de desigualdades
e violências dos mais diversos tipos.
Hoje falamos do principal plano para desenvolvimento social do nosso
município: o Plano Municipal de Educação. Este plano merece que tenhamos
compromisso e responsabilidade.
O termo “gênero” começou a ser utilizado como categoria de análise a
partir de 1970 com o objetivo de dar visibilidade às desigualdades entre homens
e mulheres. Logo, tanto na origem da sua criação, quanto no uso corrente em
debates sobre a superação das desigualdades, falar de “gênero” tem como
finalidade promover a devida atenção e crítica das discriminações sofridas
pelas mulheres, e tentar achar meios para que todas e todos possamos juntos
enfrentar este cenário.
Desde quando falar sobre uma opressão, que gera tantas mortes, é falar
sobre alguma doutrinação?
Se dizem tanto a favor da vida, então deveriam ser a favor da igualdade
de gênero. E só se promove igualdade através de uma educação consciente e do
debate com nossas crianças, para que se tornem adultos melhores.
Por isso, como parlamentares responsáveis pelas cidadãs e cidadãos
dessa cidade, devemos defender o debate na educação!
Se é da escola que nasce o espaço público que queremos, é indispensável que se fale de igualdade de gênero sim! Que se fale de sexualidade, de respeito, de laicidade, de racismo, de LGBTfobia, de machismo. Pois falar sobre estes temas é se comprometer com a vida, em suas múltiplas manifestações. É se comprometer com o combate à violência e a desigualdade!
É mais do que urgente que esta casa não se cale sobre as vidas que são
interrompidas dia-a-dia neste Município.
Falar de igualdade de gênero é defender a vida!"
Marielle vive!
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