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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Carta aberta de Valter Hugo Mãe a Marcelino Freire: "Não deixe que acabem com a maravilha do Brasil".

MEU CARO AMIGO
Marcelino, tenho medo de voltar ao seu país porque cresci relutante para ser adulto e sei que me mantenho em tantas coisas apenas uma criança. Julgo que saio à rua ainda com a alegria de encontrar alguém com quem, de algum modo, possa pressentir a alegria que existia quando estávamos apenas a brincar. Eu não sei estar sozinho. Não aprecio a solidão, gosto das pessoas e não há como curar minha natureza para gostar delas. Mas agora tenho medo do seu país que eu amo. Fiquei toda a vida sonhando ser português e brasileiro, para pertencer a Machado de Assis e Fernando Pessoa. Sonhei que meu orgulho teria papel passado, como quem casa consciente, dedicado, de amor profundo, para toda a eternidade. Eu não previ este medo. Fico desolado.
Estão proibindo as pessoas de serem negras, Marcelino, proibiram de ser mulheres, Marcelino, agora decidiram proibir de ser criança e eu sabia que haveria alguma coisa que ainda me pegaria. Por isso, há muito que eu já brigava pelos negros e há muito que eu já brigava pelas mulheres, eu já brigava pelos viados todos e pelas pessoas sem explicação, tanta gente que só é, sem ter muito como entender ou fazer entender, e quer apenas estar em paz. Eu dei de barato tanta coisa sobre a paz que talvez tenha esquecido de estudar corações, o verdadeiro lugar da guerra. Sou muito despreparado. Passei pelo tempo buscando o deslumbre e vi a melhor versão de cada instante, não vi que medravam no escuro as piores intenções, os ódios que inviabilizam a humanidade. Eu, sinceramente, não vi, Marcelino.
Caminhei nessas ruas todas, tantos Estados, tantas capitais, e eu não dei conta desse ódio. Notei os sorrisos, o samba, o jeito generoso das garotas e de alguns garotos olhando para minha pouca beleza, eu notei os livros, tanta Literatura maravilhosa e a obra do Tunga e Artur Bispo do Rosário bordando as vestes para alindar seu encontro com Deus. Marcelino, no Brasil eu senti invariavelmente que Deus era possível. Sabe quando você se depara com algo perfeito e isso só pode ser graça de uma inteligência superior? Eu vi uma arara azul gigante, devia ter mais de um metro, e ela era mesmo um atributo mágico do mundo, estava livre no cimo de uma árvore na floresta amazônica.
Naquele encontro, eu consumei tudo, Guimarães Rosa e Elza Soares, Tarsila do Amaral e Fernanda Montenegro mais Marília Pêra e Walter Salles, e Darcy Ribeiro mais Heitor Villa-Lobos, e Cartola com Cildo Meireles e Adriana Varejão. Mais Gal Costa e Mônica Salmaso e Paulo Freire lendo a mão de Chico César genial. Eu entendi que Brasil significa beleza e uma profunda esperança. Juro. Parecia uma experiência mística, como se algum espírito me informasse e eu virasse um mensageiro sagrado. Eu elogiei o Brasil em todas as ocasiões porque eu acreditei, e acreditei que minha mensagem era sagrada. Você acha que um espírito me enganaria? Viria sobre mim de propósito para me iludir?
Marcelino, eu não consumei minha adultez, sou apenas um menino, fui sempre ao seu país para encontrar mais amigos e brincar um pouco de ser feliz. Lembra de gostarmos tanto de Manoel de Barros? Eu sei exatamente a razão de gostar tanto da poesia de Manoel de Barros. Ele usa pássaro e amigos e seus versos foram os melhores brinquedos. Minha história é rigorosamente igual. Não tinha muito mais. Pais, irmãos, amigos, os pássaros voando, versos. O lugar de guardar tudo é o verso. O único sentido de ter verso é amar gente e cuidar de pássaro livre.
Estão atirando sobre as crianças e alguém me diz que apenas as negras, são apenas as crianças negras, mas eu duvido que parem por aí. Nós, as crianças mais claras não estamos na linha do tiro? Nem que seja por vergonha, vamos morrer também se não dissermos nada, se não fizermos nada. E se as crianças negras viraram proibidas, que legitimidade teremos nós? Sabe, Gilberto Freyre explicou tão certinho que os portugueses são os mestiços da Europa. Eu tenho sangue árabe, africano e europeu. Sou uma porção de cada coisa e minha pena é não lembrar, só minhas células sabem.


Você sabe a razão para rejeitarem os negros para as periferias? Eu não descobri. As casas do centro não têm tamanho para negros? Eles são maiores? Aumentam quando dormem? Quando sonham? Ficam derrubando paredes, perigando as fundações dos prédios? Eu acho que não. Eu vi um moço entrando na livraria à minha frente, coube na porta melhor do que eu. Você acha que tem alguém obrigando a que ele corra para a periferia depois de pagar o seu livro? Eu não posso acreditar. Que pena que eu não falei com ele, devia ter perguntado. Talvez me contasse de como fica infinito sonhando, ao ponto de perturbar o silêncio, tremer o prédio, causar fumo. Você já pensou se nossos sonhos também fizessem isso? Eu ia querer, Marcelino. Eu ia querer que meus sonhos fossem tão grandes. Mas sonho só com a paz. Estar sossegado com minha família e meus amigos. Notar os pássaros voando.


Marcelino, façamos uma jura de não morrer durante o plano de nos matarem. Não somos senão ternuras gigantes, guerreiros açucarados, eu entendi que nós precisamos de um pacto poético para embravecer nossa cidadania. Você, que é meu amigo e escritor que tanto admiro, não me falte nunca desse lado. Cuide de Chico Buarque e de Caetano Veloso, por favor, em qualquer cabeça sã do mundo eles representam o Deus possível. Cuide de Maria Bethânia. De Sônia Braga. Diga a Davi Kopenawa e a Ailton Krenak que a floresta vai sempre amá-los, diga que a arara me garantiu. Marcelino, fico ouvindo Rodrigo Amarante e quase ainda acredito em tudo outra vez (Rodrigo é perfeito. Poderia ser a própria arara). Quase perco o medo. Vista também sua roupa de super-herói e sobreviva. Você tem de manter a maravilha do Brasil. Não deixe que acabem com a maravilha do Brasil. Se resistirmos, nossa delicadeza vai ser uma lição resplandecente, e vamos ficar mais belos que os modelos nos filmes gringos. Vamos, sim, Marcelino.
Haveremos de devolver o futuro às crianças. E seremos sempre futuros também. Só quem desistiu passou a ocupar seu canto no passado. Marcelino, reassumo meu compromisso com a esperança. Vou escolher sempre minha vida como lugar de semente. No meu medo, Marcelino, muita coragem vai germinar.

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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

E OS NOSSOS ARTISTAS, POR ONDE ANDAVAM?

Walter Benjamin
Walter Benjamim diz que “o artista que não consegue tomar partido deve se calar”. Se dissesse isso nos dias de hoje, provavelmente Benjamim seria acusado de estar defendendo o patrulhamento ideológico. Seja como for, essa fala de Benjamim nos leva a pensar a respeito do posicionamento que um artista deve ter na condução das questões político-sociais do seu país. Isso me vem à mente, e me parece oportuno refletir a respeito, quando tomamos como referência os acontecimentos políticos ocorridos no Brasil nos últimos 12 anos, especificamente naqueles acontecimentos que culminaram na destituição da presidenta Dilma Rousseff.

Desde o momento que Rousseff foi reeleita, surgiram os primeiros posicionamentos que diziam coisas como “vamos sangrar esse governo até o fim”. Daí por diante, se instaurou um fortíssimo processo de desconstrução do referido governo, independentemente do respeito que deveria ter sido dado à maioria da população que foi às urnas escolher Dilma Rousseff como sua preferida para conduzir o país. Por meio de um golpe parlamentar, a presidenta teve seu mandato cassado. Favas contadas. Inês é morta! Dessa forma, não entraremos aqui, no mérito da discussão acerca da incapacidade moral daqueles que a cassaram, bem como não o faremos a respeito do posicionamento de entidades como a OAB, FIESP, os grandes conglomerados de mídia e instituições como o STF, por exemplo. Deixemos isso para os historiadores.

Há outro grupo, mais específico, sobre o qual gostaria de tecer algumas considerações, observando seu comportamento em relação a toda essa questão: os artistas brasileiros. Durante o tempo que transcorreu o processo de impeachment de Rousseff, determinados artistas assumiram posições bastante claras em relação ao que defendiam como o melhor a ser feito para o país. Embora, por razões óbvias, não se possa colocar no mesmo balaio Chico Buarque, José de Abreu, Lobão, Letícia Sabatella, Roger e Wagner Moura; esses artistas deram a cara à tapa e foram pras ruas em defesa daquilo em que acreditavam. Alguns chegaram, inclusive, a ser hostilizados, pagando um preço altíssimo pela manutenção do direito de pensar diferente.

De uma forma ou de outra, artistas assim sabem que devem ter posições mais claras em relação às decisões que são tomadas no país. Dessa maneira, se aproximam, talvez até de forma inconsciente, daquilo que afirma Walter Benjamim na citação com a qual começamos esse texto. Mas há uma pergunta que não quer calar. Durante esse embate extremamente importante para o Brasil, por onde andavam nossos grandes artistas? Será que mostrar um cartazinho com a frase “Fora Voldemort” ou, no seu show, no meio de uma música ouvir a platéia completar: “Odeio você... Voldemort”; se configura como aquilo que se espera de um verdadeiro artista? E o que dizer, quando a manifestação de artistas estrangeiros, como Danny Glover, por exemplo, foi maior e mais explícita do que aquelas vistas por aqui, com exceção de parte do elenco do filme Aquarius e do ativismo explícito Gregório Duvivier? 

Por onde andavam os “monstros sagrados” da MPB? Por onde andavam os “grandes nomes” do teatro nacional? Será que esse pessoal insiste realmente em separar a arte da vida e a vida da arte? Em que planeta vive esse povo? Longe de ser “patrulhamento ideológico” me parece que seja uma necessidade de se saber até onde nossos artistas são realmente Artistas. A impressão que fica é que boa parte dos artistas brasileiros preferiu se acovardar, não querendo correr o risco de ser “mal visto” e, garantir, assim, seus contratos para montar uma peça aqui ou cantar em um réveillon acolá.


O fato é que nessa história toda, Chico Buarque, assim como a própria Dilma Rousseff; que já eram grandes, tornaram-se ainda maiores. Politicamente alfabetizados, reforçaram a importância dos seus nomes na história do país. Quanto aos outros “artistas”, que ainda não se alfabetizaram politicamente e que não sabem que “você não pode ser neutro em um trem em movimento”, resta o consolo de ficar repetindo pra si mesmo, como mantra, que “tudo é divino, tudo é maravilhoso”. 

E por onde é mesmo que andavam  nossos artistas? Ninguém mais dá à mínima. Que descansem em paz!