Mostrando postagens com marcador Internet. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Internet. Mostrar todas as postagens

sábado, 6 de maio de 2017

ALEXANDER DELARGE E SEUS DRUGUES NA DISTOPIA BRASIL


A Internet tem se tornado uma espécie de "terra devastada", um ambiente que nem Tolkien conseguiu imaginar. Talvez por não ser uma Terra Média, mas por se aproximar mais das ruas londrinas, que abrigam Alex DeLarge,  personagem do romance Laranja Mecânica (1962), de Anthony Burgess, levado ao cinema pelas mãos de Stanley Kubrick. 

Há muita coisa boa na rede, mas também há muito ódio sendo destilado. A Internet, infelizmente, está cheia de Alex DeLarge, o que, muitas vezes, dificulta que assuntos importantes sejam discutidos de maneira aprofundadamente séria, sem agressões, ameaças ou pautados pelo palavrório "nadsat", pobre e vulgar.

A mais recente vítima dessas " ruas de Londres" foi Elika Takimoto, que, no texto abaixo, explica a razão para estar deixando, por tempo indeterminado, o Facebook. Reproduzimos aqui o texto "Até um dia, Facebook", disponível no blog da autora. 





Alex DeLarge



Do blog de Elika Takimoto



Há tempos escrevo sobre tudo o que me toca da forma mais sincera possível. Não tenho vergonha de falar de minhas fraquezas, de meus medos, de meus devaneios sejam eles de que natureza forem e muito menos penso duas vezes antes de pedir desculpas por algo que tenha feito. Não raro, sou criticada e gosto quando isso acontece porque me vejo refletindo sobre meus valores. Crescemos sempre no embate, no diálogo, na divergência.

Muitas pessoas não se expõem por aqui para não ter que discutir. Não sou dessas como podem ver. Falo sobre política, educação, maternidade, sociedade, separação, escrevo sobre como é morar no subúrbio carioca, escancaro a minha dor sem freios. Sempre fui assim desde que me entendo por gente.

Como já disseram, sou uma “subcelebridade” na internet. Para quem não sabe, esse boom no meu perfil ocorreu no ano passado por postagens de cunho bem diferentes terem viralizado: vídeo de minha filha cantando para vacas, foto dos meus filhos no Aniversário Guanabara, texto relatando a minha experiência com coletor menstrual, anúncio de meu filho Hideo,… e o polêmico texto sobre cotas escrito há um ano (repostado ontem no facebook) que é o motivo dessa minha fala agora aqui.

O texto sobre cotas me apareceu como “lembrança do facebook”. Como acontece com inúmeros deles, apenas dei o famoso control C control V para quem não tivesse lido, caso quisesse, dar uma olhada. Lembro-me que, no ano passado, recebi mensagens de todo o Brasil por ele. Pessoas que haviam sido (ou ainda eram) cotistas estavam me agradecendo emocionadas pelo relato que eu havia feito. Por recordar as mensagens de carinho que havia recebido e por entender que ele seria algo bom para a comunidade, resolvi publicá-lo em meu feed mais uma vez. Se tivesse, na época, recebido uma só crítica de um negro se sentindo mal com a postagem, podem ter certeza que não teria republicado esse texto. Não foi o caso. Os elogios e agradecimentos tinham vindo deles e por causa do texto fiz amigos cujas vozes são importantíssimas no movimento negro. Sim. Muitos que me elogiaram podem ser cegos, não descarto essa possibilidade.

Qual foi minha surpresa que dessa vez a minha vida virou de cabeça para baixo. Levei um susto com a quantidade de pessoas me agredindo e as ameaças que recebi. Fui acusada de ser racista e ter sido completamente infeliz nas palavras. Inicialmente, como sempre digo, se o oprimido diz que sofreu um preconceito e foi agredido, ele tem sempre razão. Não existe mimimi. Não existe vitimismo. O mundo não está ficando chato. O mundo está melhorando isso sim. E isso tudo que aconteceu serviu como grande aprendizado, pois, fui acusada pela primeira vez de opressora. Perguntei-me: onde fui racista? Eu? Racista?! Já sabendo de pronto que sim, vale observar. Tinha sido racista já que há negros que se sentiram ofendidos. Essa é a regra.

Li o texto. Reli. Li comentários. Muitos xingamentos, muitas agressões.

A minha reação é ficar desesperada olhando para o que fiz e questionando onde errei e porque despertei esse sentimento ruim nas pessoas se tomo sempre o maior cuidado para fazer o contrário. Para muitas que vieram até me ofendendo, eu pedi para que, por favor, me ajudassem a melhorar. O que falei que feriu tanto para que nunca mais eu faça de novo?, perguntei para um tanto de gente hoje, pois, juro, não entendi o motivo pelo qual estavam querendo meu fígado.

Nada como o diálogo.

Não vou me ater aqui a dissecar do texto e a comentar frases que recortaram, colaram em fotos minhas e divulgaram em páginas e sites por aí. Sei que com isso, minha integridade física já foi ameaçada, corro risco de vida, pois, conhecem bem meu rosto (como fizeram questão de expor) e esses que fizeram isso querem mesmo a minha morte seja ela real seja metafórica. As duas são possíveis e se temo a primeira é porque sou mãe de três e filha de duas pessoas para as quais dou total assistência. O fato de ter virado conhecida pouco me importa ao contrário do que muitos (que não me conhecem) pensam. Coisas imprevisíveis que acontecem na internet… Por mim, ficaria falando só para meus amigos como sempre fiz. “Printando meus próprios tweets” para eles somente no intuito de compartilhar ideias e brincar – como muitos sabem que gosto demais de fazer.

A única coisa que sempre sonhei foi ter meus livros publicados e só. Isso não escondo de ninguém. Mais do que isso para quê? Acabou que hoje tenho quase 150 mil seguidores, fato que foge a minha compreensão e ao meu controle. Quando penso nesse número me dá até calafrios. E, por tentar sublimá-lo e acreditar sempre que escrevo para meia dúzia de leitores, não tomo cuidados que hoje, aprendi, preciso estar atenta.

Isso posto e voltando ao foco da postagem, gostaria de agradecer a todos pelas críticas que me fizeram. Entendi que, a despeito de não ter sido a intenção, o texto que pretendia narrar a desconstrução de um preconceito, ainda assim, foi infeliz e opressor, principalmente, na forma.

Relendo a partir das críticas recebidas, percebi o quanto é difícil viver em uma sociedade estruturalmente racista. Eu estava crente que (como muitos me fizeram crer na primeira vez que o texto foi publicado) tinha feito um serviço bacana narrando tudo o que passei. Qual o quê. Close erradíssimo. Vocês estão certíssimos em terem me chamado a atenção.

A única coisa que gostaria de pontuar é que o fato de eu ter estranhado ver negros em minha sala de aula (como narrado o texto) não foi por incômodo com a raça ou cor e sim por ter visto que algo diferente estava acontecendo. No mais, a narrativa peca por ter dado a impressão que eu acredito que, se não fosse pela ajuda dos colegas brancos, os cotistas não dariam conta, além de eu ter reforçado esteriótipos que só dificultam a inclusão e os colocam como seres fora do padrão. Entendi perfeitamente isso e concordei de pronto com a crítica.

Não inventei nada do que foi escrito, queria observar. Tudo aconteceu. Não teria motivos para inventar nada. Autopromoção, crescer em cima da desgraça alheia, aparecer como salvadora… nada disso me passou pela cabeça. Quando o texto foi publicado pela primeira vez, praticamente, foi só para amigos e conhecidos que sabem que a minha intenção jamais seria essa, digo, aparecer. Queria apenas compartilhar com aquele texto (que excluí para frear as ameaças que ando recebendo e a pedido da comunidade negra – e não por covardia como já me acusam) que quebrei a minha cara por ter pensado inicialmente que não daríamos conta daquele novo perfil de alunos que nunca dantes na história do Cefet havíamos tido.

Não menti. O texto fala (de forma infeliz ok) da desconstrução (não completa como vários observaram muito bem) de um preconceito de classe e de como tive que me reinventar como professora para dar conta da diversidade de vários níveis. E tive mesmo. Não vou esconder isso. Não por ser “iluminada”, “boazinha”, “princesa isabel” como me chamaram ironicamente. Mas porque outra realidade se apresentou e que não fazia ideia de como lidar com ela e fiz um esforço danado para aprender. E continuo me esforçando para ser a melhor professora para meus alunos. Há muito o que preciso assimilar ainda, como viram. Que bom que seja assim, penso eu… que horror seria se não tivesse mais nada a melhorar.

Hoje, em minhas palestras e em minhas falas, defendo que as cotas deveriam ser obrigatórias por lei em escolas particulares também, pois vi o quanto é somado quando trabalhamos no plural. Não sou tão ruim quanto pensam ao meu respeito. Entre o quente e o frio há graduações de morno. Seria bom não ver o mundo de forma tão dicotômica, acho eu…

Se meu relato reforçou a colonização, como observaram, peço milhões de desculpas, pois quero estar ao lado de quem a questiona e não do lado de quem a defende. Por favor, não me excluam dessa luta.

Prometo me policiar muito mais na minha fala, na minha escrita e a rever sempre meus (pre)conceitos.

Mais uma vez, a todos que contribuíram para tanta reflexão, muito obrigada. E a todos que se sentiram ofendidos, perdão.

Segue o barco com todos dentro.

Publiquei esse texto me retratando publicamente. As ameaças, incrivelmente, pioraram depois que o escrevi. Por motivo de segurança (já que meu contra cheque, meu CPF e endereço foram publicados junto com a foto do meu rosto com a legenda “racista!”) e por precisar digerir tanto ódio sem afetar a minha saúde, desabilitei a minha conta por tempo indeterminado.
Preciso me fortalecer.
Obrigada a todos que permaneceram ao meu lado e não atiraram pedras.
Em tempo, se quiserem continuar lendo meus novos textos, basta assinar o Blog. Na barra lateral direita tem um espaço para isso. Sempre que postar um texto novo, vocês serão notificados.


Aqui é a minha casa. Sejam bem vindos.

domingo, 16 de outubro de 2016

O CADÁVER INSEPULTO DO JORNALISMO BRASILEIRO

O jornalismo brasileiro morreu faz tempo. O pior de tudo é que o cadáver, ainda insepulto, não esfriou e tudo indica que jamais descansará em paz. Morreu, é claro, o bom e grande jornalismo; o jornalismo decente, que um dia fez história no país. Dessa forma, hoje em dia está cada vez mais difícil encontrar algo que se aproveite nos grandes jornais brasileiros. Se surge algo, quase sempre não se acredita, tendo em vista a falta de credibilidade que nossa imprensa vem cultivando desde a década de sessenta. Além disso, os bons jornalistas que ainda insistiam no exercício de manter o cidadão bem informado, passaram a ser considerados dispensáveis e ultrapassados. Quando não, optam por se manterem limpos e se recusam a compactuar com a mediocridade que tem imperado nas redações dos jornalões e revistas semanais, os quais em nada deixam a dever às revistas de fofocas, “mexericos da Candinha” e ao modus operandi dos tabloides londrinos, por exemplo.

A situação política dos últimos anos no Brasil, contribuiu para que muita coisa que estava adormecida na sociedade tupiniquim aflorasse. Jornais, revistas e canais de televisão que sempre pertenceram às famílias tradicionalmente ricas e dominantes optaram por impedir toda e qualquer possibilidade de mudança e crescimento na vida da população mais pobre do país, atacando desmensuradamente toda e qualquer pessoa que levantasse bandeira ou proferisse discurso em prol dos menos favorecidos. E assim se criou, fomentou e se resumiu a sociedade brasileira entre “coxinhas” e “petralhas”. 

O auge desse jornalismo de guerra resultou na deposição da presidenta Dilma Rousseff com o apoio da ampla maioria dos congressistas brasileiros. A efetiva participação dos poderosos grupos de mídia do país se deu da mesmíssima forma como ocorrera quando do apoio ao golpe de 1964. Até mesmo o discurso usado na época voltou com a mesma significação; no entanto vazio e desacreditado, graças ao “fator Internet”, que acabou por possibilitar a veiculação de um discurso muito diferente do discurso jornalístico “chapa branca”.

O jornalismo levado a cabo pelos grandes grupos de mídia no Brasil reproduziu por aqui a mesma estratégia que havia sido posta em prática na Argentina, quando o aparato de comunicação daquele país se comprometeu a derrubar o governo de então. Na ocasião, um importante jornalista argentino denominou esta prática “jornalística” de “jornalismo de guerra”. Por aqui, a mídia nativa não poupou esforços para sangrar o governo eleito democraticamente e, assim, colocar em seu lugar quem bem quisesse, não dando a mínima para a vontade soberana das urnas.  Uma pergunta que se faz é: “quarto poder” não seria uma denominação muito ingênua para uma imprensa com tanto poder?

É claro que nem de longe se defende qualquer ação que coíba ou limite a liberdade de imprensa, bem como a liberdade de expressão. Contudo, muitos jornalistas optaram por ficar calados e fazer “cara de paisagem”, enquanto vários dos seus colegas estavam/estão sendo cerceados e perdendo seus empregos por defenderem a democracia. Como se sente o jornalista que trabalha para uma empresa que tem apoiado sucessivos golpes contra a democracia, contra a liberdade e os direitos do seu povo? Sobre que tipo de assunto pode esse “profissional” discorrer? Como acreditar nas informações que transmite?

Enquanto a imprensa brasileira dava seu “duplo twist carpado”, na tentativa de esconder o óbvio ululante da ruptura democrática ocorrida no país, a imprensa internacional a desmentia e apresentava, como deve fazer o bom jornalismo, os fatos e, contra fatos, sabemos, não há argumentos. 

Aqui, o contraponto se deu pelo compromisso jornalístico dos blogs, mais do que rapidamente taxados de “blogs sujos”. Foi por intermédio de alguns Jornalistas (com “J” maiúsculo), que tinham migrado para a blogosfera, que a informação acerca do que ocorria/ocorre no país assumiu um caráter de criticidade jamais visto na história desse país. O trabalho desses blogueiros difere em muito daquele que tem sido apresentado pela grande imprensa, primeiramente pela qualidade da maioria dos textos que apresentam. Enquanto os grandes jornais e revistas semanais, com raríssimas exceções, têm publicado textos sofríveis, de fazer corar um bom aluno de ensino fundamental, os “blogs sujos” prezam pela excelência da escrita. E isso, para um jornalismo responsável, deveria ser uma questão sine qua non.

Além disso, os blogs são uma alternativa à grande mídia, uma vez que questionam a versão oficial dos fatos, mostrando muito daquilo que os poderosos donos dos meios de comunicação gostariam de esconder. Como muitos blogueiros não recebem dinheiro público, ao contrário dos grandes jornais e revistas, seu único compromisso tem sido com a informação. Por isso mesmo, acabaram por se tornar inimigos declarados dos conglomerados de mídia, bem como da classe política que defende a manutenção de uma história única, repetida infinitamente.

O bom e velho jornalismo brasileiro está mortinho da silva. Em seu lugar, algo que mistura desinformação e entretenimento fútil invade os lares dos incautos e desprevenidos, resultando em rios e mais rios de dinheiro, conseguido à custa daqueles que só conseguem dizer “amém” e reproduzir as asneiras que lhes são sopradas todos os dias por um idiota útil, com uma caneta ou um microfone na mão. 

E nessa ciranda grotesca, este jornalismo de guerra não surtiria efeito se não pudesse contar com o apoio incondicional da ignorância política, das sombras, das forças e das togas. Como escapar à armadilha? A blogosfera é bem ali e está à distância de um clique.