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sábado, 20 de maio de 2017

BELCHIOR E AS PERGUNTAS SOBRE O BRASIL QUE PAROU PELO CAMINHO




Belchior é, sem sombra de dúvidas, um dos grandes poetas da Música Popular Brasileira. Sua obra é toda ela constituída de questionamentos filosóficos, políticos e sociais. O artista, falecido no dia 30 de abril de 2017 (algumas matérias jornalísticas falam em 29/04), mostrou-se sempre antenado com a situação do ser humano no mundo, especialmente o homem nordestino, brasileiro. Se sua poesia já era considerada por muitos como um diferencial em meio a enxurrada de músicas de letras fáceis, que abundam nos "tristes trópicos"; seu encantamento, como diria Guimarães Rosa, poderá trazer maior visibilidade, mais estudos e pesquisas sobre seu trabalho. Como exemplo de análise da sociedade brasileira, segue a letra "Arte final", na qual o poeta faz várias perguntas sobre o Brasil que parece, como dito naquela canção de Celso Viáfora, ter parado pelo caminho.





ARTE FINAL (BELCHIOR)

Desculpe qualquer coisa, passe outro dia,
Agora eu estou por fora, volto logo,
Não perturbe, pra vocês eu não estou.

Sessão de nostalgia, isto é lá com minha tia,
Isto é lá com minha tia!

Alô, presente, estou chegando,
Alô futuro, já vou!
Alô, presente, estou chegando,
Alô futuro, já vou!

Ora, Ora! Até vocês que ouvi dizer,
São gente quase honesta.
Ora, ora! Até vocês os reis da festa,
Ora, essa! Não confiam mais em mim!
E me tratam como tratam mulher, preto,
Todos entramos no gueto
Quando a coisa entrou no ar.

Mas pegue leve, não empurre, seja breve,
Conheço o meu lugar!
Mas pegue leve, não empurre, seja breve,
Conheço o meu lugar!

Dancei, sei que dancei,
Dancei meu bem!
Mas vem que ainda tem!

Dancei, sei que dancei,
Dancei meu bem!
Mas vem que ainda tem!

Dancei, sei que dancei,
Dancei meu bem!
Mas vem que ainda tem!

Dancei, sei que dancei,
Dancei meu bem!
Mas vem que ainda tem!

E então, my friends?
Bastou vender a minha alma ao diabo,
E lá vem vocês seguindo o mau exemplo.
Entrando numas de vender a própria mãe.
Alguém se atreve a ir comigo
Além do shopping center? Hein? Hein?
Ah! Donde están los estudiantes?
Os rapazes latino-americanos?
Os aventureiros? Os anarquistas? Os artistas?
Os sem-destino? Os rebeldes experimentadores?
Os benditos? Malditos? Os renegados? Os sonhadores?
Esperávamos os alquimistas, e lá vem chegando os bárbaros
Os arrivistas, os consumistas, os mercadores.
Minas, homens não há mais?
Entre o Céu e a Terra não há mais nada
Do que sex, drugs and Rock 'n' Roll?
Por que o Adeus às armas?
Não perguntes por quem os sinos dobram,
Eles dobram por Ri!
Ora, senhoras! Ora, senhores!
Uma boa noite lustrada de neon pra vocês
E o último a sair apague a luz azul do aeroporto
E ainda que mal me pergunte:
"A saída será mesmo o aeroporto?"


quinta-feira, 13 de abril de 2017

FELIZ ANIVERSÁRIO, FORTALEZA!




A cidade de Fortaleza completa 291 anos de existência em 13/04/2017. Entre tantas de suas belezas, a cidade conta com os verdes mares bravios, imortalizados por José de Alencar, que encantam a todos que aportam nas terras de Iracema, a virgem dos lábios de mel. Essa belíssima senhora, no entanto, já não guarda mais a tranquilidade do velho Passeio Público com seu baobá centenário, nem recebe a atenção que deve ser dispensada a toda velha e gentil senhora. Por qual razão? Talvez alguns homens públicos estejam preocupados com coisas outras e achem que a cidade não lhes diz respeito. Mas a cidade não carece de determinados senhores. Tacanhos em suas mentalidades provincianas nem perceberam que a cidade de Fortaleza já não é mais aquela dos tempos do Café Java, do Bembém da Garapeira ou da Padaria Espiritual....

                         
                              




Ao mesmo tempo, Fortaleza é tudo isso e muito mais. É a cidade saudosa do poeta andarilho Mário Gomes, das Longarinas de Ednardo, do vento que sopra e, toda vez que sopra, assobia uma canção de Belchior. Fortaleza, na sua contradição, é uma ode à felicidade e a beleza. É um aplauso à voz de Kátia Freitas e às tintas de Mateus da Silva e Zé Tarciso. Mas Fortaleza é também uma elegia, um verso triste, um canto torto na denúncia dos meninos que dormem sob a marquise, do homem que mendiga no sinal, dos buracos que ameaçam engolir a cidade.

Mas Fortaleza não é nem melhor nem pior do que as outras cidades do Brasil. Fortaleza é apenas diferente nas suas idiossincrasias, nas suas formas de ver e ser, de rir de tudo, e de se rebelar. Fortaleza é bela, e nada tem de recatada. Nunca teve. Na sua melhor idade, Fortaleza segue dizendo "não" ao mal que, por ventura, lhe atravesse a vida no seu eterno "doce balanço a caminho do mar" da liberdade. Fortaleza faz 291 anos, mas nem parece. Feliz aniversário, Fortaleza!






sábado, 8 de abril de 2017

XII BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DO CEARÁ


Fortaleza já está de portas abertas para receber todos aqueles que estarão na XII Bienal Internacional do Livro do Ceará, a qual será realizada no Centro de Eventos da cidade. O evento ocorrerá do dia 14 ao dia 23 de abril, de 2017. O tema escolhido como denominação do evento é: "Cada pessoa, um livro; o mundo, a biblioteca". A XII edição da Bienal Internacional do Livro do Ceará conta com a curadoria de Lira Neto, Cleudene Aragão e Kelsen Bravos. 

A abertura será no dia 14. A edição de 2017 presta merecida homenagem ao repentista Geraldo Amâncio e ao cordelista Leandro Gomes de Barros (in memoriam). Na ocasião, a companhia de dança Edisca apresentará o espetáculo Religare. Segundo informações divulgadas pela Secretaria de Cultura do Estado, 168 escritores, nacionais e estrangeiros, passarão pela Bienal, a qual contará com 110 estandes.





Entre os muitos outros autores, chamamos a atenção para as presenças de Conceição Evaristo, Valter Hugo Mãe, Ignácio de Loyola Brandão, Leonardo Sakamoto, Tércia Montenegro, Mary del Priore e Eliane Brum.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

COLÉGIO CEARENSE DO SAGRADO CORAÇÃO

Fortaleza é daquelas cidades que possuem a capacidade de inspirar. A brisa que sopra do mar encanta a todos aqueles que habitam a cidade dos mares bravios, cantados em prosa poética, por José de Alencar. Mas Fortaleza está esquecendo-se das coisas. Seu casario histórico, por exemplo, está desaparecendo e, a continuar assim, o fortalezense corre o risco de acordar em um belo dia de sol, cercado por igrejas, bares e estacionamentos. Não que tenhamos nada contra os bares, mas nem só de igrejas e estacionamento vive uma cidade.

E em meio à eterna mesmice recorrente nos jornais locais, uma notícia chamou a atenção da cidade. Trata-se da divulgação de que, oficialmente, o centenário prédio do Colégio Marista Cearense torna-se bem cultural do Estado do Ceará, figurando no livro de tombo histórico e etnográfico. Tendo suas atividades iniciadas por volta de 1913, a referida edificação está localizada bem no coração da cidade, na Avenida Duque de Caxias, 101, tendo abrigado por 90 anos o Colégio Cearense do Sagrado Coração. Assim sendo, o prédio do histórico Colégio Cearense está tombado tanto pela Prefeitura de Fortaleza quanto pelo Estado do Ceará; o que enche de orgulho, alegria e satisfação todos aqueles que tiveram a sorte de caminhar por seus pátios e corredores, como membros da grande família Marista.

Sobre o Colégio Cearense, segue a crônica intitulada “Marista Cearense”.*

Vinda de uma outra escola, a menininha perguntou ao então diretor do Colégio Marista Cearense o motivo pelo qual não se elegia a rainha do Colégio Cearense. Com paciência de santo, o diretor respondeu que não era necessário, pois todas as alunas da escola eram rainhas do Colégio Cearense. Não sei se, de início, a garota aceitou muito bem, mas depois, com certeza.

Ver o diretor catando papel na hora do recreio ou até mesmo “batendo uma bolinha” com os alunos era coisa mais que comum naquela escola: a pedagogia da presença, sabíamos.

Na maioria das escolas, meninos e meninas não vêem a hora de ir pra casa. Não lá. Ao contrário, “precisavam ser mandados embora”, pois, se dependesse deles, não arredariam pé. Aqueles que estudavam à tarde chegavam cedo, quase pela manhã. Os que estudavam pela manhã entravam pela tarde. Chegava a noite, e meninos e meninas ainda preenchiam de alegria as quadras e pátios do Colégio Cearense.

Para quem não teve a chance de estudar ou trabalhar lá, é difícil compreender exatamente o que era tudo aquilo. No coração de Fortaleza (como imaginar uma cidade sem coração?), “por Deus, pela Pátria e por Maria...”, o Cearense formou muita gente boa. Dizem que muita gente que é importante (todo mundo é importante!) e famosa passou por lá. E por formar gente boa, o Cearense pagou um preço muito alto.


Formar cidadãos exige responsabilidade, respeito e ética. O Cearense jamais negociou o “passe” dos seus alunos, jamais os dividiu em vencedores e perdedores, nem estampou seus rostos, como produtos, pelos quatro cantos da cidade. Assim, como diz a canção: “ o preço que se paga às vezes é alto demais”. Dessa forma, o anúncio de que o Colégio Cearense fechará suas portas no dia 31 de dezembro de 2007, além de enlutar o coração daqueles que lá conviveram, deveria servir de motivo para debates acerca das escolas que temos, do ensino que oferecem. Mas afinal, que educação precisamos? Como sempre acontece, nada será feito. No máximo, algumas pobres notas nos jornais. Um abraço no Colégio? Talvez.

O mais importante mesmo é que o Colégio Cearense fecha, mas não acaba. Ele estará sempre nos corações e nas atitudes de cada homem e de cada mulher, que, quando menino, menina, jovem, ocupou seus bancos, suas quadras, seus pátios... Seu ventre. 

*A crônica “Marista Cearense” está no livro de crônicas Memória de peixe, de Carlos Carvalho, vencedor do Prêmio de Literatura Unifor, de 2009. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

JARDS MACALÉ POR JARDS MACALÉ

Na história dos movimentos que contribuíram para a cultura nacional, o Tropicalismo está, certamente, entre aqueles que mais contribuíram nos mais variados setores: literatura, drama, dança, artes plásticas e música. Ao longo do caminho percorrido da década de sessenta até esses dias de liquidez, muitos artistas pararam pelo caminho. Alguns tiveram que partir mais cedo, outros se mantiveram marginais e alguns cult; enquanto outros viraram estrelas pra lá de midiáticas, donos de egos maiores do que pode supor qualquer vã filosofia.

Nesse contexto, Jards Macalé tem se mantido como um farol referencial de uma época, bem como tem estado em perfeita conexão com as exigências impostas pela cultura contemporânea. Contudo, Jards Macalé não pode, jamais, ser rotulado disso ou daquilo; tendo em vista que seu talento poético ultrapassa qualquer tentativa de classificação. E se Chico Buarque “anda pra frente, carregando a tradição”; Macalé se impõe e lança sua poesia para além dos muros altos da tradição das Gotham cities da vida, pois é um provocador consciente da necessidade de se satirizar a mesmice e ironizar a mediocridade.

Sua obra poética não se limita, no entanto, à ironia e à sátira; mas alberga também valiosos versos sobre as dores do mundo, o amor, a vida e o cotidiano. Certamente que é preciso ter olhos e ouvidos atentos para compreender o que nos diz o poeta de Vapor barato (composta em parceria com o não menos poeta Waly Salomão), pois sua poesia é rica, certeira e voraz. Embora, aparentemente “fácil”, a poesia de Jards Macalé vai muito além do que superficialmente se observa, contendo toda uma carga de questionamentos líricos e político-sociais.
Jards Macalé em Fortaleza, fevereiro de 2017.
Foto: Carlos Carvalho.

De passagem por Fortaleza, com o show JM & JM – Jards Macalé por Jards Macalé, o experiente artista mostrou no palco da Caixa Cultural, o quanto sua canção continua em consonância como diferentes gerações de ouvintes. Para tanto, Macalé contou “apenas” com sua voz e seu violão, para entoar e encantar uma platéia ávida por ouvi-lo  em uma calma noite de fevereiro (foram cinco apresentações, do dia 03 ao dia 05 de fevereiro de 2017), quando já se avizinhavam, no céu da cidade, algumas nuvens de esperanças quase perdidas.

Um banquinho, um violão e luzes. Jards Macalé está no palco. O poeta magistral da Música Popular Brasileira encontra o músico icônico atemporal. Parece pouco, mas Jards Macalé não precisa de muito para dar o seu recado. O artista cumprimenta o público e desanda a desfiar um colar de pérolas raras do seu vastíssimo repertório musical. Da platéia, com seus celulares, alguns registram o momento único. Outros, de olhos fixos no poeta, parecem transportados para uma dimensão que não sabemos exatamente qual. A música está no ar. O poeta fala pouco, agradece, sorri e canta. Canta Moreira da Silva, canta Noel Rosa, Vinicius de Morais e Luiz Melodia. Jards Macalé canta Jards Macalé.

Difícil mesmo é dizer que momento se constitui como o ponto alto do show, uma vez que o show inteiro é de altíssima qualidade poético-musical. Assim sendo, o público se encanta com a interpretação maravilhosa de Movimento dos barcos, Hotel das estrelas, Mal secreto e Acertei no milhar.

Eternamente vanguardista, Jards Macalé sabe muito bem como passar uma mensagem e deixar o seu recado. No ano de 1969, apresentou a música Gotham City (com Capinam), no IV Festival Internacional da Canção, no Maracanãzinho, a qual se seguiu uma histórica vaia. É claro que naquele momento o público não compreendia (ou não queria compreender), que a letra era uma crítica apuradíssima à situação política pela qual passava o país. Vejamos:

Gotham City (Jards Macalé)

Aos 15 anos eu nasci em Gotham city
Era um céu alaranjado em Gotham city
Caçavam bruxas nos telhados de Gotham city
No dia da independência nacional

Cuidado! Há um morcego na porta principal
Cuidado! Há um abismo na porta principal

Eu fiz um quarto quase azul em Gotham city
Sobre os muros altos da tradição de Gotham city
No cinto de utilidades as verdades Deus ajuda
A quem cedo madruga em Gotham city

Cuidado! Há um morcego na porta principal
Cuidado! Há um abismo na porta principal

Só serei livre se sair de Gotham city
Agora vivo como vivo em Gotham city
Mas vou fugir com meu amor de Gotham city
A saída é a porta principal

Cuidado! Há um morcego na porta principal
Cuidado! Há um abismo na porta principal

No céu de Gotham city há um sinal
Sistema elétrico e nervoso contra o mal
Meu amor não dorme, meu amor não sonha
Não se fala mais de amor em Gotham city

Cuidado! Há um morcego na porta principal
Cuidado! Há um abismo na porta principal


Passados quase cinquenta anos, e tendo o Brasil sofrido mais um golpe (parlamentar, dessa vez), em um claro ataque às instituições democráticas; Gotham City, embora muitos não consigam fazer a analogia, continua bastante atual, o que comprova a atemporalidade da poesia de Jards Macalé; bem como a confirmação de um estado oligárquico, indispensável para que nada mude por essas paragens tropicais. 

Além de músico, cantor e poeta; Jards Macalé também se mostrou um “vidente” ao alertar pra se ter muito cuidado, pois havia/haveria muito ódio sendo destilado; tendo em vista que hoje (como ontem) quase “não se fala de amor em Gotham City” e “há um abismo na porta principal”. 

JM & JM – Jards Macalé por Jards Macalé é um espetáculo simplesmente imperdível. Mas cuidado, Macalé! Como eles continuam não entendendo nada, você pode acabar sendo vaiado por aí!

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A ARTE DE COLECIONAR ARTE - A COLEÇÃO AIRTON QUEIROZ EM EXPOSIÇÃO

Está em exposição no Espaço Cultural UNIFOR, da Universidade de Fortaleza, a exposição “Coleção Airton Queiroz”. São aproximadamente duas centenas de obras de arte, com trabalhos do século XVII até obras de alguns dos mais relevantes aristas contemporâneos.

Do século XVII, por exemplo, é possível apreciar trabalhos raríssimos de artistas como Albert Eckhout e Frans Post. A escultura “Santo bispo”, em madeira dourada e policromada, do mestre Aleijadinho, é o item da coleção que representa o século XVIII. Das obras da coleção, datadas do século XIX, estão em exposição trabalhos, entre outros, de Debret, Rugendas, Pedro Américo, Victor Meirelles, Benedito Calixto, Eliseu Visconti e Raimundo Cela (o qual não deveria estar inserido no século XIX, quando sua principal produção se dá no século XX). Uma vez que o trabalho de Raimundo Cela tem atraído para si novos olhares e novas compreensões, destacamos as obras desse artista presentes na Coleção Airton Queiroz. São elas: “Moça bordando (Retrato de Áurea Cela), de 1932; “Jangadeiro com leme” (1942) e “Estivadores” (1947). E embora o catálogo da exposição não traga; sabemos pelo livro Coleção Airton Queiroz (2016), que a referida coleção contém ainda as obras “Feira em Saint – Agreve, França” (1921), “Praia em Camocim, Ceará” (1937), “Jangadeiros empurrando jangada para o mar” (1940) e “Estudo para Abolição da escravatura no Ceará”, de 1937.

Paisagem de neve (1957), de Antonio Bandeira.
O Modernismo brasileiro se faz presente na referida exposição, desde seus primeiros momentos, com obras como “Floresta” (1912), de Lasar Segall e “Mulher de cabelo verde” (1915-1916), óleo sobre tela de Anita Malfatti, que estampa tanto a capa do catálogo, quanto o livro da Coleção. Há, assim, autores representativos de todo o período modernista brasileiro, incluindo não somente a pintura (Tarsila do Amaral, Djanira, Cícero Dias, Guignard, Volpi, Portinari,  Di Cavalcanti, Iberê Camargo, Ismael Nery etc), mas esculturas de artistas como Victor Brecheret, Bruno Giorgi, Alfredo Ceschiatti e Maria Martins, por exemplo.

A exposição traz ainda obras de vários artistas estrangeiros, entre europeus (Monet, Matisse, Chagall, Moore, Miró, Max Ernst, Rubens, Renoir e Dalí etc) e latino-americanos (Quin, Diego Rivera, Botero, Torres-Garcia, León Ferraria e Omar Rayo). O destaque da presença estrangeira na exposição, a nosso ver, recai sobre Chagall, Diego Rivera e Fernando Botero; pela quantidade e qualidade das peças expostas.

 Sobre a arte moderna brasileira, a exposição contém peças “catalogadas” sob a temática “Abstração”, sob a qual estão albergados os artistas ligados aos grupos Atelier Abstração, Grupo Ruptura e Concretismo, Grupo Frente e Neoconcretismo, Abstração Informal, Arte Cinética e Artistas geométricos não vinculados a grupos; somando ao todo vinte e cinco artistas. Entre tantas obras, chamamos a atenção para os trabalhos de Samson Flexor, Lygia Clark, Amilcar de Castro, Lygia Pape, Antonio Bandeira, Sérvulo Esmeraldo, Tomie Ohtake e Manabu Mabe. No que concerne à arte contemporânea produzida no Brasil, a exposição conta com trabalho de artistas como Tunga, Jorge Guinle, Leda Catunda, Vik Muniz, Beatriz Milhazes, Adriana Varejão e Leonilson.


Prometheus II ou Brûlant de ce qu'il brûle (1948), de Maria Martins
A coleção Airton Queiroz começou a ser reunida, conforme o próprio colecionador, cerca de cinquenta anos atrás (conforme catálogo da exposição, p. 5) e leva em consideração não apenas o gosto pessoal da família que a mantém, mas o valor histórico e cultural cunhado em cada uma das peças que a constitui. Assim sendo, trata-se de uma oportunidade única, para se apreciar a valiosa (em todos os sentidos) coleção, pois como afirma Queiroz (2016:5): “esperamos que seja apreciada por todos os interessados em conhecer as presentes obras. Estas que, ao retornarem à nossa casa, lá permanecerão”. 

Então, tá dito. Aproveitemos a oportunidade!


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Serviço: em cartaz até o dia 19/02/2017  
Local: Espaço Cultural UNIFOR
Campus da Universidade de Fortaleza / UNIFOR
Fortaleza/ Ceará
http://www.unifor.br

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

FORTALEZA HOMENAGEIA BELCHIOR

Fortaleza é repleta de gente, de sol e de mar. É uma cidade que é (sempre foi), ao mesmo tempo, bela e cruel. Fortaleza, por exemplo, jamais conseguiu perdoar o escritor Adolfo Caminha (1867 – 1897), por ter sumido no mundo, vida adentro, com uma fortalezense já casada com outro homem. Não que Caminha precisasse de tal perdão para o que quer que fosse, mas é que Fortaleza é assim, linda e esquizofrênica. Em homenagem ao autor de A normalista (1893) e Bom Crioulo (1895), uma ruazinha de dar dó, um beco, por onde quase ninguém caminha. Outros autores cearenses dão nomes a algumas das principais ruas da cidade. Outros, esquecidos estão; esquecidos continuarão.

Parece-nos, no entanto, que algo começa a mudar em terras de Iracema (esperamos não queimar a língua). Dizemos isso, pois quando se aproxima a data em que se celebram os setenta anos do cantor e compositor Belchior, 26/10/16, a cidade se alvoroça para tecer-lhe algumas merecidas homenagens. Não que Belchior, tal qual Caminha, careça de bajulações de qualquer espécie, uma vez que está muito acima da mesmice que impregna nossa sociedade. Belchior, que está no mesmo nível de Bob Dylan, produz para a glória, não para a mísera fama. Do alto, observa a massa passar e, se ela lhe dirige um aceno e agita uma bandeirinha, que bom! Antes tarde do que nunca!



E no conjunto das homenagens que serão prestadas ao poeta de “Alucinação”, duas delas são simplesmente imperdíveis. A primeira, que já está circulando pela cidade, principalmente na rede Cuca, é o solo do mestre Ricardo Guilherme, intitulado “De olhos abertos lhe direi”. Ora, se já é imperdível assistir Ricardo Guilherme executando qualquer que seja o papel, imagine quando esse grande ator se debruça sobre a poesia do também, não menos mestre, Belchior.

Na sequência, será lançado o livro Para Belchior com amor, o qual traz textos de vários autores, a partir da vida e da obra do referido artista. Todas essas atividades estão albergadas no projeto Belchior Sete Zero, idealizado pelo escritor Ricardo Kelmer, o qual também é o organizador do livro, com o objetivo de homenagear o artista cearense. A ideia de Kelmer, fazemos questão de destacar, é extremamente bem vinda, tendo em vista que, no Brasil, tem-se o costume de homenagear, seja quem for, após a morte. Homenageando Belchior, Fortaleza também homenageia Caminha. Homenageia o intelectual, o estudante; bem como cada um dos seus habitantes comuns, que no seu dia a dia lembra, canta e assobia pelo menos uma canção de um dos nossos poetas maiores. 

Poeta, pois sua produção não “se limita” ao campo da canção, na construção de “letras”, mas, no que poderíamos chamar aqui de “poema-canção”. Assim sendo, afirmamos, sem medo de errar, que seu trabalho constitui-se como um perfeito repositório da cultura, especificamente nos diálogos que trava com a literatura brasileira e universal.


Dessa forma, as comemorações dos setenta anos de Belchior, também são um chamado para a necessidade de mais estudos, apreciações e investigações acerca do universo que é sua obra poética.

É hora de arrumar as malas. Fortaleza, com seus “verdes mares bravios”, nos espera.

Viva Fortaleza! Viva Belchior!


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